Tratar hipertensão de forma individualizada em populações especiais — gestantes, pacientes com hipertensão resistente e idosos — deixou de ser exceção para se tornar imperativo clínico. Essa foi a principal mensagem da sessão apresentada pelo Prof. Modele Ogunniyi no ACP Internal Medicine Meeting 2026, com base nas diretrizes AHA/ACC de 2025.

Por que isso importa
A hipertensão arterial afeta 47,3% dos adultos norte-americanos, cerca de 125,9 milhões de pessoas, e continua sendo o fator de risco cardiovascular modificável mais prevalente, associado a doença coronariana, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, AVC, demência, doença renal crônica e mortalidade por todas as causas. Apesar disso, dados do NHANES 2017–2020 mostram queda no controle pressórico, com apenas 1 em cada 5 adultos hipertensos dentro da meta.
As diretrizes de 2025 trouxeram atualizações importantes justamente para três grupos historicamente sub-representados nos grandes ensaios clínicos: gestantes, pacientes com hipertensão resistente e idosos.
Hipertensão na gestação: qual a meta pressórica?
Os transtornos hipertensivos da gestação afetam cerca de 15% das gestações e respondem por 7% das mortes maternas nos Estados Unidos. As disparidades são marcantes, com maior prevalência e piores desfechos entre mulheres negras, indígenas, de áreas rurais e de baixa renda.
A atualização prática mais importante vem do estudo CHAP, que consolidou como meta PA <140/90 mmHg para gestantes com hipertensão crônica. O tratamento da hipertensão leve a moderada com esse alvo reduziu pré-eclâmpsia com características graves, parto prematuro por indicação médica, descolamento prematuro de placenta e morte fetal ou neonatal, sem aumento de recém-nascidos pequenos para a idade gestacional.
Na prática, isso significa suspender imediatamente IECA e BRA, contraindicados na gestação, e optar por labetalol ou nifedipina de liberação prolongada. Além disso, aspirina 81 mg/dia, idealmente antes de 16 semanas, está indicada para reduzir risco de pré-eclâmpsia.
Hipertensão resistente: como investigar e tratar
Considera-se hipertensão resistente quando a PA permanece ≥130/80 mmHg apesar do uso de três anti-hipertensivos em doses máximas toleradas, incluindo obrigatoriamente um bloqueador do sistema renina-angiotensina, um bloqueador de canal de cálcio e um diurético tiazídico, ou quando o controle exige quatro ou mais fármacos. Sua prevalência varia entre 8,5% e 20% dos hipertensos e se associa a risco cardiovascular significativamente maior.
Antes de escalar o tratamento, a sessão reforçou a necessidade de excluir pseudo-resistência, revisar adesão, realizar MAPA para afastar efeito do avental branco e revisar medicamentos que elevam a PA, como AINEs, descongestionantes, estimulantes, antidepressivos tricíclicos e anticoncepcionais orais.
A principal novidade das diretrizes de 2025 é a recomendação de rastrear aldosteronismo primário em todos os pacientes com hipertensão resistente, mesmo sem hipocalemia. Outro ponto relevante é que não é necessário suspender os anti-hipertensivos em uso, exceto antagonistas mineralocorticoides, antes da dosagem inicial de renina e aldosterona.
Quando a resistência verdadeira é confirmada e não há causa secundária identificada, a diretriz recomenda espironolactona ou eplerenona como quarta droga, desde que a função renal permita. A denervação renal aparece como opção adjuvante em casos selecionados, sempre com avaliação multidisciplinar e decisão compartilhada.
Hipertensão no idoso: individualizar sem abrir mão do controle
Em idosos com 65 anos ou mais, o controle pressórico continua benéfico, mas deve equilibrar proteção cardiovascular com risco de quedas, hipotensão ortostática, efeitos renais e polifarmácia. As diretrizes de 2025 recomendam PA sistólica <130 mmHg para a maioria e encorajam atingir 120 mmHg quando tolerado.
Os estudos SPRINT e STEP sustentam essa abordagem, mostrando redução de eventos cardiovasculares e mortalidade com metas mais intensivas. Ainda assim, a sessão destacou que isso não significa tratar todos da mesma forma. Em idosos com fragilidade importante, declínio cognitivo ou expectativa de vida limitada, metas entre 130 e 150 mmHg podem ser mais razoáveis.
Na prática, medir pressão em ortostase deve fazer parte da rotina. O princípio orientador é começar com doses baixas, aumentar gradualmente e ajustar conforme risco funcional e tolerabilidade.
O que muda na prática
A principal mudança é abandonar uma lógica uniforme e incorporar uma abordagem mais individualizada. Em gestantes, isso significa tratar para <140/90 mmHg com drogas seguras. Em hipertensão resistente, confirmar resistência verdadeira, rastrear aldosteronismo primário e usar antagonista mineralocorticoide quando indicado. Em idosos, manter controle rigoroso, mas com atenção especial à hipotensão ortostática, fragilidade e risco de quedas.
Autoria

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella
Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.
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