Na sessão Cirrhosis and Chronic Liver Disease, apresentada no ACP Internal Medicine Meeting 2026, a Dra. Sofia Simona Jakab, da Yale University/VA Connecticut Healthcare System, discutiu uma doença hepática crônica que vem ganhando novos contornos epidemiológicos e exige atualização urgente na abordagem hospitalar.

Por que isso importa
A doença hepática crônica avança em ritmo acelerado no hospital, impulsionada principalmente por duas frentes que frequentemente se sobrepõem: consumo de álcool e disfunção metabólica. Com a transição de nomenclatura de NAFLD/NASH para MASLD/MetALD/ALD desde 2023, e com o impacto da pandemia sobre o consumo de álcool, o cenário epidemiológico mudou de forma importante.
Na prática, isso significa encontrar com mais frequência pacientes em diferentes estágios de cirrose, da forma compensada à falência hepática, exigindo decisões diagnósticas e terapêuticas rápidas. O ponto central para o internista é saber como confirmar cirrose sem biópsia e quais medidas de alto valor ainda seguem sendo negligenciadas.
Como diagnosticar cirrose sem biópsia
O raciocínio diagnóstico deve ser sequencial e integrado, combinando clínica, exames laboratoriais, escores não invasivos e elastografia. Na cirrose descompensada, o diagnóstico costuma ser evidente pela associação entre doença hepática crônica e manifestações como ascite, encefalopatia, hemorragia varicosa ou icterícia. Já na cirrose compensada, o grau de suspeição precisa ser maior, porque os sinais podem ser discretos.
Entre os achados laboratoriais, a trombocitopenia costuma ser a primeira alteração detectável. Hipoalbuminemia, hiperbilirrubinemia e INR elevado sugerem comprometimento da função sintética. No ultrassom, o fígado nodular e sinais de hipertensão portal, como esplenomegalia, colaterais e ascite, reforçam o diagnóstico.
Os escores não invasivos, especialmente o FIB-4 e o NFS, devem ser o ponto de partida. Já a elastografia hepática, seja transitória ou por ressonância magnética, substitui a biópsia em muitos casos e tem elevada acurácia para cirrose. Quando há rigidez hepática aumentada combinada a FIB-4 alto, a probabilidade diagnóstica se torna bastante elevada.
Cuidados de alto valor que não podem ser negligenciados
A sessão reforçou algumas condutas que continuam decisivas na internação. A primeira é investigar ativamente a etiologia e o estágio da doença hepática, em vez de assumir um diagnóstico sem estratificação adequada. A segunda é sempre buscar fatores precipitantes de descompensação, como infecção, álcool, medicamentos, distúrbios eletrolíticos e trombose de veia porta.
Outro ponto crítico é que todo paciente com ascite deve ser submetido a paracentese diagnóstica, independentemente do motivo da internação ou da ausência de febre e dor abdominal. O atraso no diagnóstico de peritonite bacteriana espontânea aumenta mortalidade. Da mesma forma, a lesão renal aguda não pode ser subestimada: pequenas elevações de creatinina já têm implicação prognóstica importante e exigem diferenciação entre forma pré-renal funcional e síndrome hepatorrenal.
O que não fazer
A sessão também chamou atenção para práticas que devem ser evitadas. Amônia sérica não deve ser usada rotineiramente para avaliar encefalopatia hepática, porque tem baixa correlação com gravidade e não orienta manejo. Da mesma forma, não se deve “corrigir” INR e plaquetas de forma automática, já que a hemostasia na cirrose é rebalanceada e os testes convencionais não refletem adequadamente o risco de sangramento.
Outro erro é postergar encaminhamento para TIPS em pacientes com ascite recorrente ou hemorragia varicosa de alto risco. A transição de cuidado também merece atenção: a alta hospitalar precisa garantir plano claro para nutrição, diuréticos, paracentese ambulatorial, rifaximina e betabloqueadores não seletivos ou carvedilol, quando indicados.
O que muda na prática
A principal mudança prática é reconhecer que a cirrose hospitalar exige menos automatismo e mais estratificação. Isso significa diagnosticar e estadiar de forma estruturada, usar métodos não invasivos sempre que possível, identificar precocemente descompensações e evitar condutas de baixo valor que não melhoram o prognóstico.
Mais do que confirmar cirrose, o objetivo é reconhecer rapidamente quem está em maior risco e não perder janelas terapêuticas críticas.
Autoria

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella
Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.