As complicações respiratórias pós-operatórias são muito comuns e, por definição, ocorrem até 5 a 7 dias após a cirurgia, incluindo pneumonia, atelectasia, derrame pleural, congestão, entre outros. Estudos recentes estimam a incidência de complicações respiratórias em 5 a 25% dos pacientes submetidos a cirurgias com anestesia geral, sendo mais comum nas cirurgias torácicas (até 30% das cirurgias cardíacas!!) e do andar superior do abdômen.
Os mecanismos fisiopatológicos mais comuns são a atelectasia e a restrição pela paralisia da musculatura respiratória. Para se ter uma ideia, o volume corrente é reduzido em até 60% e a capacidade residual funcional em 30%! Contudo, em estudo recente com uso de manobras de recrutamento e PEEP per-operatórios, não houve redução do risco de atelectasia sintomática após a cirurgia, mostrando que há outros mecanismos ainda não elucidados. Congestão por excesso de líquidos, aumento da permeabilidade da membrana alvéolo-capilar e efeito residual dos bloqueadores neuromusculares são potenciais fatores contribuidores para as complicações respiratórias.
Partindo para a abordagem prática, a tarefa do clínico é estratificar o risco do seu paciente e direcionar medidas preventivas àqueles de maior risco. Há vários escores disponíveis, sendo o ARISCAT (Canet) – veja no final do artigo – um dos mais utilizados. Ele é baseado em 7 variáveis: idade, saturação de oxigênio no pré-operatório, infecção respiratória no último mês, anemia, local da incisão cirúrgica, duração da cirurgia e se o procedimento é de emergência. O paciente é então classificado em três grupos, baseado na morbidade prevista:
- Baixo risco (1,6%)
- Risco intermediário (13.3%)
- Alto risco (42,1%)
Além dos escores de risco, algumas variáveis são sabidamente preditoras de complicações respiratórias em cirurgias não cardíacas:
Tipo Cirurgia* | Cirurgia de emergência | +65 anos | Duração > 3h |
ASA > 2 | Insuf. Cardíaca | Albumina < 3 g/dl | DPOC |
Curarização prolongada | Dependência funcional no dia a dia | Anestesia geral | pCO2 > 45 mmHg |
Rx tórax alterado | Tabagismo últimas 8 semanas | Uso SNG | Infecção via aérea superior |
*Tipo Cirurgia: andar superior abdômen, aneurisma aorta abdominal, torácica, neurocirurgia e cabeça e pescoço.
Escore ARISCAT (Canet)

Agora que vocês sabem estratificar o risco do seu paciente, vamos mostrar no próximo artigo como reduzir a chance de complicações. Fique ligado!
Referências:
- Claire J Ireland, Timothy M Chapman, Suneeth F Mathew, et al. Continuous positive airway pressure (CPAP) during the postoperative period for prevention of postoperative morbidity and mortality following major abdominal surgery. Cochrane Anaesthesia, Critical and Emergency Care Group, August 2014.
- https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(14)60416-5/supplemental
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