O tratamento cirúrgico padrão ouro para os adenomas hipofisários é a cirurgia transesfenoidal, tradicionalmente realizada com auxílio do microscópio. Nas últimas décadas, a cirurgia endoscópica passou a oferecer mais vantagens, como maior campo de visão e melhor acesso cirúrgico, com potencial impacto no maior grau de ressecção tumoral e na preservação das estruturas nobres adjacentes.
A cirurgia por endoscopia pura utiliza o endoscópio desde o início, garantindo visão panorâmica e acesso a recessos, já a técnica por microscopia assistida, o microscópio conduz o procedimento e o endoscópio é usado apenas ao final para checar resíduos tumorais. Contudo, a real superioridade de uma técnica sobre a outra segue controversa, já que as evidências disponíveis sobre o tema são, em sua maioria, oriundas de estudos retrospectivos.
Este recente ensaio clínico randomizado buscou comparar a abordagem endoscópica pura com a microscópica assistida por endoscópio em pacientes submetidos a ressecção transesfenoidal de adenomas hipofisários, avaliando não apenas parâmetros cirúrgicos e radiológicos, mas também endocrinológicos, oftalmológicos, rinológicos e de qualidade de vida.
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Metodologia
Os pacientes adultos submetidos a cirurgia eletiva entre 2010 e 2011 no Departamento de Neurocirurgia da Universidade de Medicina de Greifswald (Alemanha), foram randomizados entre os grupos endoscopia pura (n=18) e microscopia assistida por endoscópio (n=15). A seleção foi criteriosa: casos emergenciais, revisões cirúrgicas, malignidades ativas, cistos da bolsa de Rathke e abordagens endonasais estendidas foram excluídos. O cegamento foi parcial: embora pacientes não soubessem sua alocação, o cirurgião era necessariamente consciente da técnica aplicada.
Os grupos apresentaram características semelhantes quanto a idade, sexo, IMC, sintomas iniciais, tamanho tumoral, subtipo histológico e classificação de Knosp e Hardy, sem diferenças estatisticamente significativas. Essa homogeneidade fortalece a validade dos achados. O tempo cirúrgico foi menor no grupo microscópico, mas sem impacto relevante nos desfechos clínicos.
O seguimento médio foi de 6,3 anos, com exames periódicos de imagem, avaliações oftalmológicas, endocrinológicas e rinológicas, além de questionários validados para avaliação da qualidade de vida. O desfecho primário foi a ausência de tumor residual ou recorrência, enquanto os secundários incluíram complicações, função hipofisária, recuperação visual, sintomas nasossinusais e qualidade de vida.
Resultados e discussão
No geral, não houve diferenças significativas entre os grupos em relação a complicações, função olfatória, melhora visual ou tempo de internação. Entretanto, a endoscopia mostrou vantagem em identificar restos tumorais não visualizados pela microscopia, 46,7% dos casos no grupo microscópico apresentavam resíduos detectados apenas com o endoscópio. Isso se traduziu em menor probabilidade de recidiva tumoral e maior chance de atingir o objetivo cirúrgico planejado.
Do ponto de vista endocrinológico, a endoscopia esteve associada a maior probabilidade de melhora da função hipofisária anterior (Odds Ratio 1,6), embora sem diferenças estatisticamente significativas nas taxas finais. A qualidade de vida, medida pelo SF-36 e SNOT-22, evoluiu de forma semelhante em ambos os grupos, confirmando que o impacto subjetivo da técnica é pequeno, desde que o tumor seja adequadamente controlado.
Portanto, os autores frisam que esses achados reforçam a ideia de que a escolha da técnica deve priorizar a experiência da equipe e a segurança do procedimento, embora se reconheça o papel crescente da endoscopia em cenários de ressecções mais complexas por sua maior capacidade de visualização e identificação de restos tumorais.
Conclusão
O estudo demonstrou que ambas as técnicas oferecem bons resultados a longo prazo em termos cirúrgicos, endocrinológicos, rinológicos e oftalmológicos. Contudo, a endoscopia pura mostrou-se superior na detecção de resíduos tumorais intraoperatórios e na tendência de melhor recuperação da função hipofisária. Não houve diferenças relevantes em complicações, qualidade de vida ou melhora visual.
Embora o estudo apresente limitações, como o pequeno número de pacientes (algo esperado diante da baixa frequência desses procedimentos) e o fato de se tratar de um estudo monocêntrico, ainda assim, a randomização, o seguimento prolongado e a boa condução da pesquisa conferem robustez aos resultados. De forma prática: a técnica endoscopia pura parece oferecer vantagens discretas, mas clinicamente relevantes, podendo se consolidar como padrão no futuro.
Autoria
Paulo Melo
Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Residência Médica em Clínica Médica pela Universidade Federal do Piauí e Residência Médica em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Belo Horizonte. Possui título de especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. É mestrando e professor da área de endocrinologia na Afya Educação Médica.
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