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Cirurgia12 fevereiro 2026

Quando aplicar estratégias de ressuscitação inicial em vítimas de trauma grave?

Estudo comparou o uso de complexo protrombínico e concentrado de fibrinogênio precocemente no trauma grave com o uso de plasma fresco congelado

Os pacientes vítimas de trauma grave frequentemente desenvolvem uma coagulopatia induzida pelo trauma, que aumenta a necessidade de transfusões e o índice de mortalidade. Complexo protrombínico (CP) e concentrado de fibrinogênio (CF) são amplamente utilizados na Europa para correção da trombocitopenia induzida pelo trauma. Em contrapartida, na América do Norte utiliza-se o plasma fresco congelado (PFC).  

Protocolos de hemorragia maciça visam padronizar e otimizar a reposição de sangue nestes pacientes vítimas de trauma grave, e este varia de cada centro de trauma.  

Para isso, foi realizado um ensaio clínico randomizado com o objetivo de comparar o uso de CP e CF precocemente no trauma grave com o PFC, e se há uma diferença quanto à necessidade e redução de componentes sanguíneos alogênicos presentes na transfusão maciça em 24 horas com o uso de ambos. 

Métodos 

Trata-se de um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, paralelo e controlado (FiiRST-2), em pacientes vítimas de trauma grave com ativação do protocolo de hemorragia maciça em seis centros de trauma no Canadá, entre abril de 2021 e fevereiro de 2023. Após delimitação da amostra, o grupo experimental recebeu CP/CF e o grupo controle PFC.  

O desfecho principal a ser analisado foi o número total de componentes sanguíneos alogênicos presentes na transfusão maciça em 24 horas. Um valor de p < 0,05 indicou relevância estatística. O processamento e análise dos dados estatísticos foi feito utilizando o software SAS, versão 9.4. 

Resultados 

Após o acompanhamento em 28 dias, obteve-se uma amostra de 137 pacientes ao todo no estudo, sendo dividido em dois grupos randomizados: um grupo intervenção com 66 pacientes (61,7%) recebeu CP (2000 UI) e CF (4g) e o grupo controle com 71 pacientes (64,5%) recebeu 4 unidades de PFC.  

A média no uso de componentes sanguíneos alogênicos entre os dois grupos foi semelhante (20,8 no grupo CP/CF versus 23,8 no grupo PFC; IC 97,5%, 0,00-1,19; p= 0,20), porém sem significância estatística.  

Além disso, não houve diferenças significativas entre os grupos nos desfechos de eventos tromboembólicos (14 no grupo CP/CF versus 10 no grupo PFC; IC 95%, −5,89 a 20,65; p= 0,37); mortalidade em 24 horas (5 no grupo CP/CF versus 12 no grupo PFC; p = 0,24) e tempo de internação e uso de ventilação mecânica em UTI (16 no grupo CP/CF versus 16 no grupo PFC; p = 0,62).  

Leia mais: Fatores de coagulação na ressuscitação inicial de trauma grave

Discussão 

Os pacientes vítimas de trauma grave frequentemente necessitam de transfusão de hemocomponentes em virtude da magnitude do evento e suas consequências.  

Os achados neste estudo indicam que a reposição precoce com complexo protrombínico associado ou não ao concentrado de fibrinogênio não oferece vantagem clara sobre o uso padrão de plasma fresco congelado, no intuito de reduzir o consumo de componentes sanguíneos alogênicos, nas primeiras 24 horas do trauma. 

Isso demonstra que não há uma regra clara e um manejo pré-estabelecido a ser seguido com a reposição de hemocomponentes em pacientes vítimas de trauma grave.  

Mensagem prática 

Assim, são necessários mais estudos e pesquisas adicionais, com boa randomização e amostragem adequada, visto que esse estudo teve que ser interrompido por baixa representatividade amostral, no intuito de estabelecer quais pacientes realmente se beneficiarão desses componentes e qual a melhor situação para aplicá-los. 

Por outro lado, o uso de concentrado de fibrinogênio e complexo protrombínico não é superior ao uso do plasma fresco congelado em pacientes vítimas de trauma grave. 

Autoria

Foto de Rodolfo Kalil de Novaes Santos

Rodolfo Kalil de Novaes Santos

Graduado em Medicina pelo Instituto Metropolitano de Ensino Superior (IMES), em Ipatinga (MG), no ano de 2017. Residência Médica em Cirurgia Geral no ano de 2020 pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (MG) e Residência Médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo no ano de 2024 pelo Hospital Governador Israel Pinheiro - IPSEMG. • Cirurgião geral  na Casa de Caridade Hospital São Paulo; Casa de Saúde Santa Lúcia e Prontocor. Docente da disciplina de anatomia II da Faculdade de Minas (FAMINAS) de Muriaé (MG).

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