O uso da tomografia computadorizada (TC) associado ao desenvolvimento na qualidade das imagens vem revolucionando o tratamento do trauma em pacientes estáveis. Grande parte dos tratamentos não operatórios (TNO) no trauma são possíveis graças à disponibilidade das TCs nos centros de trauma.
Por outro lado, pacientes vítimas de lesões toracoabdominais penetrantes, inicialmente estáveis, podem se instabilizar rapidamente durante a realização de exames de imagem.
Dada a falta de estudos esclarecedores sobre o papel das TCs em lesões toracoabdominais penetrantes, Harris et al. avaliaram a possibilidade de as TCs auxiliarem o planejamento cirúrgico e reduzir o tempo intraoperatório.
Métodos
Estudo retrospectivo multicêntrico avaliou 534 pacientes vítimas de traumas toracoabdominais penetrantes tanto por arma branca como por arma de fogo em quatro grandes centros de trauma americano. O desfecho primário foi o tempo de cirurgia e os desfechos secundários, o tempo entre a sala de emergência ao bloco cirúrgico, tempo de internação hospitalar e em centro de terapia intensiva (CTI), complicações pós-operatórias e mortalidade.
Resultados e Discussão
Dos 534 pacientes avaliados, 322 (60,3%) foram submetidos à realização de TCs pré-operatória e 212 (39,7%) foram encaminhados ao bloco cirúrgico sem a realização de TCs. A análise do desfecho primário revelou que o tempo de cirurgia foi de 130 minutos (IQR: 84, 180) no grupo com TC pré-operatória e 140 minutos (IQR: 100, 180) para pacientes que não realizaram TC pré-operatória, não havendo diferença estatisticamente significativa entre os 2 grupos.
O tempo entre a sala de emergência ao bloco cirúrgico foi maior nos pacientes que realizaram TC pré-operatória. Entretanto, em relação aos desfechos secundários, não houve diferença estatística entre os dois grupos na maioria dos tópicos avaliados.
Harris et al. observaram que as TCs com contrastes podem identificar lesões peritoneais e de órgãos sólidos, bem como lesões vasculares que podem ser tratadas por meio de angioembolização, poupando o paciente de procedimentos cirúrgicos e suas complicações associadas como infecções do sítio cirúrgico, hérnias, aumento do tempo de internação e custos. Além disso, as TCs são capazes de fornecer informações sobre a localização de gravidade de algumas lesões, permitindo uma abordagem cirúrgica direcionada, com possibilidade de permitir planejamento adequado e menor tempo cirúrgico.
Um fato, no entanto, que precisa ser considerado são as limitações das TCs na identificação precisa de lesões de vísceras ocas e em lesões diafragmáticas.
Nesses casos, pacientes com suspeitas de lesões de vísceras ocas ou vítimas de traumas penetrantes em transição toracoabdominal devem ser submetidos a laparotomias exploradoras ou, preferencialmente, a cirurgias minimamente invasivas.
Além disso, é fundamental a seleção criteriosa de pacientes vítimas de lesões toracoabdominais penetrantes, dado o potencial risco de instabilização rápida durante a realização das TCs.
Veja também: Tomografia (TC) pode ser útil no diagnóstico de hérnias internas após bariátrica?
O que levar para casa?
A realização de TC pré-operatória em pacientes vítimas de lesões toracoabdominais penetrantes estáveis pode ser uma ferramenta com benefícios no planejamento cirúrgico adequado, bem como no auxílio à indicação de tratamentos não operatórios que seriam desnecessários e acarretariam riscos de complicações pós-operatórias. Entretanto, a seleção desses pacientes deve ser criteriosa e realizada em centros de trauma com capacidade técnica para isso.
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