A laparotomia (do grego lapára: flanco; tome: incisão), também conhecida como celiotomia, é um procedimento cirúrgico que consiste na abertura da parede abdominal para acessar a cavidade peritoneal.
A incisão mais clássica envolve a linha média, ao longo da linha alba, e o procedimento pode ter finalidade diagnóstica, quando não há uma definição clara dos exames de imagem e se investiga uma causa abdominal; terapêutica, quando há uma situação indicativa ou patologia abdominal já definida para realização do procedimento; e exploratória, que geralmente é indicada em situações de urgência ou emergência, para tratamento de doenças graves abdominais em que a patologia ainda não é conhecida.
Embora a cirurgia minimamente invasiva tenha reduzido suas indicações ao longo do tempo, a laparotomia ainda mantém papel importante na prática cirúrgica moderna, sobretudo em situações graves, com necessidade de acesso rápido à cavidade abdominal e tomada de decisão imediata.

Histórico da laparotomia
Uma das primeiras intervenções cirúrgicas bem-sucedidas por laparotomia ocorreu nos Estados Unidos, em 1809, quando Ephraim McDowell realizou o tratamento cirúrgico de um grande cisto de ovário. No ano seguinte, o médico alemão Carl Ferdinand von Graefe realizou outra laparotomia precoce, tratando um caso de obstrução intestinal.
O avanço mais expressivo ocorreu em meados do século de XIX, quando Joseph Lister, a partir de 1867, desenvolveu os princípios da antissepsia. Esse marco, associado à evolução das técnicas anestésicas, contribuiu de forma decisiva para aumentar a sobrevida dos pacientes submetidos a esse tipo de procedimento.
Já no século XX, a laparotomia passou por refinamentos técnicos importantes, com maior padronização das incisões na linha alba e exploração da cavidade abdominal, bases que seguem presentes na prática cirúrgica atual.
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Anatomia da parede abdominal e acesso à cavidade peritoneal
Para a realização da laparotomia, é importante conhecer a anatomia da parede abdominal e a formação da linha alba.
Na linha alba, a parede abdominal é composta, de superficial para profundo, pelas seguintes camadas:
- Pele
- Tecido celular subcutâneo
- Fáscias superficiais ou aponeuroses
- Musculaturas, incluindo reto abdominal, piramidal, oblíquo externo, oblíquo interno e transverso do abdome
- Fáscia transversalis
- Peritônio parietal
O conhecimento dessa sequência anatômica é crucial para realização do procedimento cirúrgico. Após adentrar o peritônio parietal, atingimos o objetivo que é o acesso à cavidade abdominal.
Indicações da laparotomia
As indicações para laparotomia tem diminuído cada vez mais, em virtude dos avanços da cirurgia minimamente invasiva (via laparoscópica e robótica). Porém, situações emergenciais ainda mantém indicação clara de laparotomia, principalmente em associação com instabilidade hemodinâmica.
Principais situações com indicação de laparotomia
Entre as principais indicações, destacam-se as:
- Cirurgias emergenciais: como trauma abdominal penetrante ou contuso, sepse de foco abdominal, hemoperitônio, hemorragia gastrointestinal incontrolável, pneumoperitônio, peritonite purulenta, como nos casos de apendicite aguda complicada, diverticulite aguda complicada
- Obstrução intestinal: decorrente de por aderências intestinais que surgiram após cirurgias abdominais prévias ou com volumosa ascite em pacientes cirróticos graves
- Procedimentos cirúrgicos eletivos: que envolvem ressecções de peças cirúrgicas volumosas, como em resseções tumorais, transplantes
- Abdome agudo com instabilidade hemodinâmica
Deve-se lembrar que a laparotomia é um procedimento cirúrgico de grande porte que requer expertise e conhecimento anatômico do cirurgião, pois a indicação correta do procedimento interfere diretamente no desfecho do paciente.
Realização da laparotomia
Antes da indicação da laparotomia, o paciente idealmente deve ser avaliado clinicamente e em relação à sua patologia atual, através de uma anamnese completa, exame físico detalhado, exames laboratoriais e de imagem direcionados, além de avaliação cardíaca, pulmonar e anestesiológica prévia.
Os materiais mais utilizados no procedimento estão: bisturi, afastadores abdominais, pinças hemostáticas, eletrocautério, aspiradores cirúrgicos.
Etapas da laparotomia
De forma geral, as etapas da laparotomia seguem a seguinte sequência:
- posicionamento do paciente em decúbito dorsal
- definição da anestesia, geralmente anestesia geral e, em alguns casos, bloqueios de neuroeixo, como raquianestesia e peridural, além de antibioticoprofilaxia;
- antissepsia rigorosa da pele com Clorexidina ou Iodopovidona (PVPI);
- incisão abdominal por planos descritos até acessar a cavidade abdominal;
- exploração cirúrgica e tratamento da causa base;
- revisão da hemostasia e do procedimento;
- síntese por planos através de suturas por camadas e
- realização do curativo.
Tipos de incisão abdominal
A decisão da incisão abdominal: depende da patologia apresentada e da via de acesso mais adequada para o objetivo cirúrgico.
- Incisão mediana: mais utilizada; realizada ao longo da linha alba; executada de forma rápida e possui ampla visualização e acesso da cavidade abdominal.
- Incisão paramediana: Paralela à linha mediana, realizada ao longo da linha semilunar; pouco utilizada. Risco elevado de hematoma, atrofia muscular e lesão de nervos da parede abdominal.
- Incisão transversal: Mais utilizada em cirurgias pediátricas e ginecológicas
Há ainda incisões específicas com indicações direcionadas, como a incisão de Kocher, usada para acesso ao fígado e às vias biliares; as incisões de McBurney e Lanz, empregadas no acesso ao apêndice cecal; e a Pfannenstiel, voltada ao acesso a órgãos pélvicos.
Riscos e complicações da laparotomia
Por ser uma cirurgia de médio a grande porte, a laparotomia não é um procedimento cirúrgico isento de riscos. Os riscos e complicações mais descritos são:
- infecção do sítio cirúrgico;
- hematomas e sangramentos;
- seromas;
- deiscência de ferida operatória parcial ou total;
- lesões acidentais de órgãos abdominais;
- formação de hérnias incisionais;
- formação de aderências ou bridas;
- dor crônicas pós-operatória e
- dano estético.
Fatores relacionados ao risco de complicações
Os riscos dessas complicações estão diretamente relacionados com as condições clínicas do paciente, como infecção prévia, obesidade, desnutrição e sepse, além do do tempo cirúrgico, experiência da equipe cirúrgica e indicações claras do procedimento. Por isso, a avaliação deve ser individualizada. e, sempre que possível, conduzida com apoio de uma equipe multidisciplinar, para reduzir a chance de desfechos desfavoráveis.
Recuperação pós-operatória
O tempo de recuperação após a laparotomia varia conforme a indicação cirúrgica, as condições clínicas e o tipo de procedimento realizado. Em média, a permanência hospitalar gira em torno de 7 dias, com retorno às atividades após 30 dias do procedimento.
Durante a internação, é importante estimular medidas que favoreçam a recuperação, como retorno precoce da alimentação, abreviação do jejum, mobilização precoce e controle álgico, visando reduzir o tempo de internação e recuperação mais acelerada de sua condição.
Educação continuada, evidências e atualizações na prática da laparotomia
Com o avanço da laparoscopia e das demais cirurgias minimamente invasivas, a laparotomia clássica tem perdido espaço na prática clínica. Isso faz com que cirurgiões estejam em constante capacitação e atualização das novas técnicas, visando melhorar seus desfechos e garantindo melhor tratamento para os pacientes.
Ao mesmo tempo, os materiais cirúrgicos e as tecnologias oferecidas também vêm evoluindo, como instrumentais mais precisos e telas modernas de hérnias, garantindo maior segurança e melhores resultados.
Nesse contexto, os centros de treinamentos e os cursos de pós-graduação, incluindo especialização ou residência médica em cirurgia geral, garantem o treinamento para o procedimento cirúrgico, com aperfeiçoamento e capacitação para a prática cirúrgica atual.
Laparotomia no contexto da medicina brasileira
No contexto da medicina brasileira, a laparotomia ainda permanece amplamente utilizada, sobretudo em hospitais que atuam exclusivamente por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso ocorre, em grande parte, pela limitação de recursos e pela indisponibilidade financeira de materiais e tecnologias voltados à cirurgia minimamente invasiva. Já nas instituições privadas, essas abordagens vêm ganhando maior espaço.
Diante desse cenário, é necessário que as instituições busquem alinhamento com o sistema de saúde para viabilizar parceria que ampliem o acesso a essas tecnologias, uma vez que seus benefícios são claros.
Do ponto de vista ético, deve-se oferecer ao paciente a melhor via de abordagem para sua condição clínica, desde que haja consentimento livre e esclarecido, e com orientação adequada sobre os riscos e complicações, a fim de evitar conflitos posteriores.
Fontes de atualização e aprofundamento sobre laparotomia
Graças ao acesso facilitado hoje, as principais bibliotecas de artigos médicos (PubMed, Scielo, LILACS, Cochrane) oferecem uma gama de atualizações para capacitação e aumento do conhecimento médico em relação ao assunto.
Com o avanço das tecnologias, é necessário que o cirurgião esteja em constante atualização e treinamento, em cursos de capacitação, fellows, hands-on, para oferecer o melhor tratamento possível aos pacientes.
Autoria

Rodolfo Kalil de Novaes Santos
Graduado em Medicina pelo Instituto Metropolitano de Ensino Superior (IMES), em Ipatinga (MG), no ano de 2017. Residência Médica em Cirurgia Geral no ano de 2020 pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (MG) e Residência Médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo no ano de 2024 pelo Hospital Governador Israel Pinheiro - IPSEMG. • Cirurgião geral na Casa de Caridade Hospital São Paulo; Casa de Saúde Santa Lúcia e Prontocor. Docente da disciplina de anatomia II da Faculdade de Minas (FAMINAS) de Muriaé (MG).
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