O domínio das abordagens pediátricas é um dos maiores desafios na transição da rotina de interno para a de médico. O esperado é que o recém-formado conclua a graduação em medicina com habilidades compatíveis com as responsabilidades do primeiro ano de prática profissional. Na realidade, porém, sabemos que, ao finalizar o internato, muitas inseguranças permanecem, especialmente no manejo de situações comuns do dia a dia, em procedimentos práticos e nas condutas iniciais.
Na pediatria, essa insegurança pesa ainda mais, porque crianças não são adultos pequenos. Elas apresentam diferenças anatômicas, fisiológicas e psicossociais que modificam a avaliação clínica e as decisões médicas. Apesar dessas especificidades, frequentemente precisamos atendê-las como generalistas nos primeiros anos após a formação.
Remick et al. (2026) relatam que mais de 80% das crianças levadas ao atendimento de emergência são atendidas em serviços médicos gerais, e não em centros pediátricos especializados. Embora esse dado represente uma realidade norte-americana, ele não está distante da realidade brasileira.
Isso reforça a importância de o interno, que em breve atuará como médico generalista, estar preparado para reconhecer e iniciar o manejo das situações pediátricas mais frequentes, compreender as especificidades fisiológicas da criança e saber quando e como encaminhar.
A seguir, estão algumas abordagens pediátricas que o estudante deve reconhecer e conduzir com segurança nos primeiros plantões ou nas enfermarias.
Condições pediátricas mais frequentes por faixa etária
Menores de 1 ano
Em neonatos e lactentes, as situações mais frequentes incluem febre sem foco, infecções respiratórias, como bronquiolite e pneumonia, gastroenterite e convulsões febris. Também é necessário manter atenção para cardiopatias congênitas quando houver queixa cianótica ou sopro.
Crianças de 1 a 4 anos
Nessa faixa etária, são comuns infecções respiratórias, gastroenterite, traumas menores, intoxicações acidentais e exantemas.
Crianças de 5 a 9 anos
Entre 5 e 9 anos, o interno deve estar preparado para reconhecer e conduzir casos de asma, pneumonia, dor abdominal aguda, traumas, como fraturas e contusões, e alguns distúrbios neurológicos.
Maiores de 10 anos
Em crianças maiores e adolescentes, ganham relevância os traumas mais graves, apendicite, patologias crônicas, como asma e diabetes, e condições psiquiátricas emergentes, como ansiedade, depressão e agitação.
Criança com febre
A febre é uma das apresentações mais comuns na prática pediátrica. O ponto principal, nesses casos, é avaliar o risco, não apenas medir a temperatura.
Ao final do estágio em pediatria, o interno deve ser capaz de:
- Avaliar o estado geral, incluindo bradicardia ou taquicardia, perfusão e responsividade.
- Diferenciar febre sem sinais de alarme de situações que exigem investigação imediata.
- Decidir sobre investigação, incluindo hemograma, PCR, urina e hemoculturas.
- Avaliar início de antibiótico empírico e necessidade de encaminhamento.
Dificuldade respiratória em pediatria
Remick et al. (2026) destacam a importância da preparação técnica adequada ao fim da formação, considerando as diferenças fisiológicas entre crianças e adultos, que tornam a avaliação respiratória pediátrica particularmente específica.
No atendimento pediátrico, o interno deve observar tiragens, gemência, batimento de asa nasal, uso de musculatura acessória, saturação e padrão respiratório.
Também deve ser capaz de:
- Reconhecer casos de insuficiência respiratória aguda, incluindo disfunção respiratória progressiva, cianose ou palidez, crepitações, agitação, taquicardia e evolução para hipoxemia grave.
- Organizar o raciocínio sindrômico em padrão restritivo ou obstrutivo.
- Conhecer as condutas iniciais em bronquiolite, asma e pneumonia.
- Avaliar critérios de gravidade, priorizando avaliação, estabilização imediata e necessidade de transferência.
Vômitos, diarreia e desidratação
Além do manejo do vômito e da diarreia, o interno deve saber avaliar os sinais clínicos e classificar o grau de desidratação como leve, moderado ou grave.
Os sinais de desidratação incluem alteração do nível de consciência, olhos fundos e secos, ausência de lágrimas, mucosa oral seca, sede excessiva ou incapacidade de beber, sinal da prega lentificado, pulso fraco, rápido ou ausente e redução da diurese.
Também deve ser capaz de:
- Indicar corretamente a terapia de reidratação oral.
- Reconhecer casos de choque hipovolêmico.
- Saber os critérios para hidratação venosa.
Dor abdominal e abdome agudo pediátrico
A dor abdominal é um sintoma comum na pediatria, mas tem diagnóstico diferencial amplo. Já o abdome agudo em crianças é uma emergência caracterizada por histórico de dor súbita e intensa, frequentemente associada a sinais de acometimento de órgãos abdominais, como vômitos ou parada de eliminação de gases e fezes.
Nesses casos, o interno deve ter habilidade para:
- Diferenciar dor funcional de sinais de abdome agudo.
- Reconhecer sinais de irritação peritoneal, como redução importante do peristaltismo, tensão aumentada da parede abdominal, dor provocada por manobras, dor à descompressão brusca ou à percussão, entre outros.
- Considerar diagnósticos cirúrgicos e avaliar necessidade de encaminhamento imediato.
Crescimento, desenvolvimento e puericultura
Nem todas as competências em pediatria estão ligadas à emergência. Uther et al. (2016) mostraram que apenas 11% dos estudantes relataram ter visto consulta de puericultura e apenas 21% observaram casos de puberdade anormal durante os estágios de pediatria no internato.
Por isso, é importante que o interno tenha alguma experiência prática durante a formação com:
- Avaliação de curvas de crescimento.
- Reconhecimento de atrasos no desenvolvimento, como dificuldades na fala, desordens na esfera social-emocional, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, dificuldades de aprendizagem e dificuldades intelectuais, entre outros.
- Identificação de sinais de puberdade precoce ou tardia.
Trauma pediátrico e situações críticas
Mesmo que o hospital não seja especializado, grande parte das crianças será atendida inicialmente em serviços médicos gerais. Por isso, o interno também deve saber:
- Aplicar princípios de estabilização inicial, seguindo o protocolo XABCDE para estabilização das funções vitais.
- Reconhecer sinais de trauma grave, como alterações no nível de consciência no momento do trauma, perda de sangue visível ou dor intensa, dificuldade respiratória ou sinais de comprometimento neurológico.
#Texto otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.
Autoria

Juliana Karpinski
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