Sou nefrologista há uma década. Nesse período, perdi a conta de quantas vezes atendi amigos — e amigos de amigos — que precisavam de um especialista em rins e simplesmente não encontravam um a centenas de quilômetros de onde viviam.
Muitos não eram pacientes sem acesso ao sistema de saúde, leigos ou sem recursos. Tinham médicos disponíveis, encaminhamentos, exames em mãos e acesso à informação. O que faltava era alguém capaz de interpretar aqueles exames com a especificidade que a nefrologia exige. E essa pessoa, muitas vezes, estava a uma viagem de avião de distância.
A desigualdade médica nas regiões remotas do Brasil
Ao pesquisar números sobre essa realidade, percebi que o problema ultrapassa a nefrologia e atinge diversas especialidades.
O Brasil conta atualmente com 10.133 nefrologistas ativos para uma população estimada em 212,6 milhões de habitantes. Em teoria, isso representaria uma média razoável de 4,77 especialistas por 100 mil pessoas — caso esses profissionais estivessem distribuídos de maneira minimamente equilibrada pelo território nacional.
Mas não estão.
Cerca de 71% desses especialistas — 7.190 médicos — concentram-se na região Sudeste. Enquanto isso, a região Norte possui apenas 272 nefrologistas para mais de 18 milhões de habitantes, uma disponibilidade até 26 vezes menor do que a observada nas regiões mais favorecidas.
Escassez médica no interior impacta diagnóstico e tratamento
Segundo a Demografia Médica do CFM de 2024, 77% da população brasileira vive em municípios do interior, mas apenas 48% dos médicos atuam nessas áreas.
Nas capitais, a média chega a 7,03 médicos por mil habitantes. No interior, esse número despenca.
O problema, portanto, não é a falta de médicos no Brasil. É a ausência de médicos nos lugares onde eles são mais necessários.
Como a falta de especialistas agrava doenças crônicas
As consequências clínicas dessa desigualdade são diretas.
Na nefrologia, por exemplo, a ausência de especialistas na atenção primária e secundária impede o rastreamento precoce de pacientes com hipertensão e diabetes — principais causas da doença renal crônica.
Muitos pacientes só conseguem acessar atendimento especializado quando a doença já evoluiu para insuficiência renal terminal, frequentemente em situação de urgência e necessitando de diálise imediata.
Entre 2019 e 2024, o tratamento dialítico em estágio avançado consumiu mais de R$ 22 bilhões do orçamento do SUS — um custo que poderia ser significativamente reduzido com prevenção ambulatorial especializada.
O atraso diagnóstico também afeta outras especialidades
Essa realidade se repete em diferentes áreas da medicina.
- glaucoma diagnosticado apenas quando o campo visual já está comprometido;
- insuficiência cardíaca descompensada em pacientes sem acesso prévio a ecocardiograma especializado;
- doenças neurológicas identificadas tardiamente por ausência de especialistas.
O atraso no diagnóstico não é apenas uma fatalidade clínica. Muitas vezes, é uma fatalidade geográfica.
Telemedicina em áreas remotas pode reduzir desigualdades no acesso
É nesse contexto que a telemedicina em áreas remotas deixa de ser conveniência e passa a representar uma necessidade estrutural.
A prática está regulamentada pela Lei 14.510/2022 e pela Resolução CFM nº 2.314/2022, que autorizam o exercício da medicina mediado por tecnologias digitais para assistência, educação, pesquisa e promoção da saúde.
A telemedicina pode ocorrer:
- de forma síncrona, em tempo real;
- de forma assíncrona, por mensagens e envio de informações sem simultaneidade.
Crescimento da telemedicina no Brasil
Os números mostram uma expansão acelerada.
Entre 2023 e 2024, os agendamentos de teleconsultas cresceram 57%, alcançando cerca de 3 milhões de atendimentos no último ano — aproximadamente 270 mil consultas por mês.
Além disso, levantamento de 2025 apontou que 68% das instituições de saúde já oferecem algum serviço de telemedicina.
Os limites da telemedicina no atendimento médico
Apesar do avanço, o atendimento presencial continua sendo o padrão de referência.
A própria regulamentação estabelece que a telemedicina não substitui o dever constitucional de garantir assistência presencial dentro dos princípios do SUS de integralidade, universalidade e equidade.
Em doenças crônicas ou condições que exigem acompanhamento prolongado, a resolução determina consultas presenciais em intervalos máximos de 180 dias.
O médico também mantém autonomia para indicar avaliação presencial sempre que considerar necessário.
Segurança, ética e LGPD na telemedicina
Existe ainda uma dimensão ética importante.
A efetividade da telemedicina depende do uso de plataformas seguras, interoperáveis e compatíveis com a LGPD.
Telemedicina realizada sem prontuário adequado, sem consentimento correto ou em plataformas inseguras não representa inovação. Representa precarização do atendimento.
O que a telemedicina realmente pode transformar
A telemedicina não resolve sozinha a má distribuição médica no Brasil. Isso exige políticas públicas, incentivo à fixação de especialistas no interior, residências descentralizadas e investimento estrutural contínuo.
Mas ela já consegue algo importante: reduzir a distância entre o paciente e o especialista.
Hoje, essa distância deixou de ser medida apenas em quilômetros. Passou a ser medida em acesso — a uma conexão, a uma plataforma e a um médico do outro lado da tela.
Não se trata de aderir a toda novidade sem critério, nem de resistir por inércia ao que já demonstrou valor.
Como dizia meu professor na faculdade: “não seja o primeiro a usar algo, mas também não seja o último”.
Na telemedicina em áreas remotas, para muitos pacientes, o último já chegou tarde demais.
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Autoria

Ester Ribeiro
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