Todos os médicos percebem a mesma qualidade de vida? Quais especialidades vivem melhor? Quem concentra mais estresse: quem se formou há pouco ou o colega veterano de plantão? E ganhar mais faz diferença de fato para o bem-estar ou existe um ponto a partir do qual a renda deixa de produzir o mesmo efeito?
Foi isso que Gobbo Jr. e colaboradores, do Centro de Pesquisa da Afya, buscaram medir. O resultado é o Afya MedQoL Index, publicado no BMJ Open em 2025, instrumento brasileiro específico para médicos, ancorado em Teoria de Resposta ao Item (TRI) e calibrado com o Modelo de Resposta Graduada de Samejima.
A seguir, revisamos os principais aspectos metodológicos e os achados com maior interesse para a prática e a carreira médica.

Como o Afya MedQoL avaliou a qualidade de vida dos médicos
Os pesquisadores partiram de uma limitação conhecida na literatura sobre burnout: os instrumentos disponíveis são, em sua maioria, provenientes de populações genéricas, como WHOQOL-Bref, ou destinados a construtos específicos, como o Maslach. Além disso, apresentam menor capacidade de discriminar diferenças entre especialidades, tipos de contrato e faixas de renda.
Faltava uma escala breve que avaliasse simultaneamente qualidade de vida pessoal, apoio institucional e estresse percebido entre médicos brasileiros.
A pesquisa nacional, transversal e online foi realizada entre 2 de julho e 6 de agosto de 2024, com médicos ativos nos 27 Conselhos Regionais e nas cinco macrorregiões. A amostra final reuniu 2.005 respondentes completos, dos quais 56% eram mulheres, com idade média de 38,5 anos.
Construção e validação psicométrica
A construção psicométrica foi um dos pontos centrais do trabalho. Os pesquisadores partiram de um banco de 40 itens em escala Likert de cinco pontos e dividiram a amostra ao meio para validação cruzada: 1.002 participantes foram destinados à análise fatorial exploratória e 1.003, à confirmatória.
Os itens foram calibrados com um GRM multidimensional e ponderados por pós-estratificação de acordo com as margens do Censo Demográfico Médico de 2025, considerando sexo, macrorregião e faixa etária. O escore global foi analisado pela escala de Fisher, alinhado às variáveis de maior precisão de medição.
Dos 40 itens iniciais, permaneceram 13, distribuídos em três fatores:
- F1 — Qualidade de Vida
- F2 — Apoio Institucional
- F3 — Estresse Percebido
O que a validação psicométrica mostrou
O modelo confirmatório de 13 itens atendeu aos critérios de Hu e Bentler, com CFI de 0,987 e RMSEA de 0,050, além de invariância estrita entre sexo e quartis de ano de graduação.
As cargas padronizadas variaram de 0,57 a 0,85. A confiabilidade marginal do composto foi de ρ=0,82, enquanto a validade convergente com o WHOQOL-Bref foi forte, com correlações entre 0,55 e 0,73. A maior concordância ocorreu no domínio psicológico, com r=0,65.
Não houve diferencial relevante entre região, raça/etnia, gênero ou idade, permitindo a comparação entre grupos sem evidência de viés estrutural na escala.
O resultado é um instrumento curto e robusto, com potencial para vigilância em larga escala e testagem adaptativa computadorizada.
Três achados sobre qualidade de vida que interessam ao médico
1. Estresse percebido foi o fator que mais diferenciou os médicos
O fator Estresse Percebido foi o que mais contribuiu para a variância observada.
As mulheres apresentaram pontuação 5,6 pontos maior em Estresse Percebido do que os homens (d=0,28). Os autores relacionam o resultado a fatores estruturais, entre eles a distribuição desigual do trabalho doméstico não remunerado e a maior exposição a trabalho emocional e microagressões relacionadas às mulheres.
O estresse também diminuiu quase linearmente conforme aumentava o tempo desde a graduação. A pontuação caiu de 56,8 entre quem se formou depois de 2022 para 40,7 entre médicos que concluíram a faculdade antes de 2008, configurando efeito de coorte moderado (η²=0,07).
Os dados, portanto, apontam maior concentração de estresse entre médicos em início de carreira.
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2. Apoio institucional apresentou ampla desigualdade
O domínio Apoio Institucional teve a menor média e a maior dispersão entre os três fatores avaliados.
Os itens com maior capacidade de discriminação foram o tratamento não punitivo de erros e o acesso a suporte formal de saúde mental, relacionados à chamada “cultura justa” e ao apoio à “segunda vítima”.
Clínicas privadas ambulatoriais e serviços de telemedicina apresentaram pontuações de 5 a 7 pontos superiores às de hospitais públicos, onde os autores identificaram maior presença de restrições burocráticas e culturas punitivas.
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3. Renda melhora o bem-estar até atingir um platô
Um dos achados de maior interesse foi a relação entre renda e qualidade de vida dos médicos.
O bem-estar aumentou conforme a renda até aproximadamente R$ 25 mil mensais, equivalente a cerca de US$ 5 mil no estudo, e depois se estabilizou.
Abaixo desse ponto, cada R$ 1 mil adicionais de renda correspondeu a aumento de 0,68 ponto no índice global e redução de 0,76 ponto no estresse. Acima dele, o ganho tornou-se praticamente nulo, inferior a 0,3 ponto a cada R$ 1 mil.
O platô permaneceu mesmo após ajustes para carga horária, tamanho da família e especialidade, com deslocamentos de no máximo ±R$ 1 mil.
Outro ponto observado foi a associação entre carga clínica e qualidade de vida. A cada 10 horas clínicas adicionais por semana, o índice global caiu em quase 2 pontos.
Acima do teto de renda identificado, os resultados indicam que aumentos salariais têm menor efeito quando comparados ao controle da carga horária e ao investimento institucional. No cálculo apresentado pelos autores, reduzir 10 horas de trabalho por semana correspondeu a aproximadamente 1,9 ponto adicional de qualidade de vida, enquanto um aumento salarial de R$ 10 mil representou cerca de 0,9 ponto.
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Quais especialidades apresentaram maior qualidade de vida?
As especialidades predominantemente ambulatoriais lideraram o ranking de bem-estar.
Dermatologia (+8,2), Oftalmologia (+6,9) e Radiologia/Patologia (+5,5) apresentaram resultados acima da média. No outro extremo ficaram Medicina de Família (−4,9), áreas cirúrgicas (−3,6) e Obstetrícia/Ginecologia (−1,5).
Considerando o cenário de trabalho, clínica privada (+6,6) e telemedicina (+5,4) também apresentaram resultados superiores aos observados em hospitais públicos, unidades básicas de saúde e hospitais privados.
Os próprios autores ressaltam uma limitação metodológica importante: cirurgia esteve levemente sobrerrepresentada, enquanto Medicina de Família foi sub-representada na amostra, com 4,8% dos participantes ante 9,4% no censo. A diferença exige cautela na extrapolação dos resultados, especialmente para médicos que trabalham em áreas rurais.
O que os resultados do Afya MedQoL indicam
As recomendações que emergem do estudo incluem priorizar programas de redução de estresse para mulheres e médicos em início de carreira e limitar a jornada clínica em torno de 60 horas semanais, já que, acima desse patamar, o estudo encontrou aumento de aproximadamente 9 pontos no estresse.
Também são propostas culturas organizacionais não punitivas, com apoio institucional ao profissional envolvido em eventos adversos, incluindo o chamado suporte à “segunda vítima”, e a integração do rastreamento de saúde mental às iniciativas de bem-estar ocupacional.
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Limitações do estudo
O desenho transversal não permite estabelecer causalidade. A pesquisa também foi realizada online, o que introduz possibilidade de viés de autosseleção, embora a ponderação tenha produzido pouca alteração nas médias.
Outras limitações incluem a dependência de autorrelato e a ausência de construtos da psicologia positiva, como propósito e fluxo.
Os autores indicam estudos longitudinais e validação de versões traduzidas como próximos passos para o Afya MedQoL.
#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.
Autoria

Ester Ribeiro
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