O estresse tem impacto maior do que a renda na qualidade de vida dos médicos brasileiros, segundo um estudo inédito publicado no BMJ Open. O levantamento, baseado no Índice Afya MedQoL, mostra que jornadas extensas elevam significativamente o desgaste, enquanto aumentos salariais têm efeito limitado no bem-estar.
Aplicado a mais de 2 mil médicos em todo o país, o estudo identificou que trabalhar mais de 60 horas semanais está diretamente associado a níveis mais altos de estresse, enquanto rendas acima de R$ 25 mil mensais pouco alteram a percepção de qualidade de vida.

Estresse é o principal fator que impacta a qualidade de vida médica
Os resultados indicam que o estresse percebido é o principal determinante da qualidade de vida dos médicos.
Profissionais com jornadas superiores a 60 horas por semana apresentaram níveis de estresse 8,8 pontos maiores em comparação àqueles que trabalham até 44 horas.
Além disso, o estudo mostra que:
- o estresse tende a diminuir com o tempo de carreira;
- médicos mais experientes relatam maior controle da agenda;
- fatores como gênero, fase profissional e cultura organizacional influenciam diretamente essa percepção.
Segundo o Dr. Marcelo Gobbo, um dos autores do estudo, o estresse funciona como um “termômetro sensível” do bem-estar médico.
Dinheiro melhora a qualidade de vida — mas só até certo ponto
A renda mensal também influencia o bem-estar, mas com um limite claro. O estudo identificou o fenômeno chamado de “saciação de renda”:
- até cerca de R$ 25 mil mensais, há melhora progressiva na percepção de qualidade de vida;
- acima desse valor, aumentos financeiros têm impacto mínimo no bem-estar.
Na prática, isso sugere que, após atingir um nível de conforto material, fatores como controle do tempo, autonomia profissional, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho passam a ser mais relevantes do que o aumento da renda.
Ambiente de trabalho influencia diretamente o bem-estar
Outro ponto importante do estudo é o impacto do ambiente de trabalho na qualidade de vida dos médicos.
Os dados mostram que:
- médicos que atuam em clínicas privadas ou telemedicina apresentam até 7 pontos a mais de bem-estar;
- profissionais de hospitais públicos, UBS e hospitais privados tradicionais têm índices próximos ou abaixo da média.
Esse achado reforça a importância de fatores organizacionais, como carga de trabalho, estrutura de atendimento, suporte institucional e segurança psicológica.
Diferenças entre especialidades médicas
O estudo também identificou variações relevantes entre especialidades.
Apresentaram melhores índices de qualidade de vida a Dermatologia, Oftalmologia e Radiologia.
Já especialidades com maior carga assistencial e pressão operacional, como Medicina de família, áreas cirúrgicas, ginecologia e obstetrícia apresentaram pontuações mais baixas.
O que é o Índice Afya MedQoL
O Afya MedQoL é o primeiro indicador nacional desenvolvido para medir de forma estruturada a qualidade de vida dos médicos.
O índice:
- é composto por 13 itens selecionados a partir de 40 indicadores
- utiliza uma escala de 0 a 100 pontos
- avalia três dimensões principais:
- qualidade de vida pessoal
- suporte institucional
- estresse percebido
No primeiro levantamento, a pontuação geral foi de 67,2, indicando um nível intermediário de bem-estar entre os médicos brasileiros.
Um retrato mais completo da qualidade de vida médica
Diferente de análises isoladas sobre burnout ou ansiedade, o MedQoL propõe uma visão multidimensional da qualidade de vida, integrando saúde mental, condições de trabalho, relações profissionais e aspectos sociais e financeiros.
Por ter caráter longitudinal, o índice permitirá acompanhar mudanças ao longo do tempo e identificar tendências na carreira médica.
O que o estudo indica para a prática médica
Os dados reforçam uma mensagem importante: qualidade de vida na medicina não depende apenas de renda.
Fatores como carga horária, organização do trabalho, autonomia profissional e ambiente institucional têm impacto direto no bem-estar.
Para muitos médicos, isso significa que reduzir a jornada pode ser mais eficaz para a saúde mental do que aumentar a renda.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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