Cada paciente é único e merece atenção ao que iremos prescrever. Contudo, existem alguns grupos que merecem atenção redobrada.
Ao prescrever medicamentos para populações como idosos, gestantes, crianças e mesmo em questões socioeconômicas, é importante avaliar demandas a fim de garantir a melhor aderência com menor risco de efeitos colaterais e falhas terapêuticas.
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Idosos
O idoso com alguma comorbidade, em especial hipertensão e diabetes, que são tão prevalentes em nosso meio, têm como principal desafio a polifarmácia. Geralmente eles apresentam ou tem indicação do uso simultâneo de vários medicamentos para tratamento da doença e outros relacionados à prevenção primária à depender do seu risco cardiovascular.
Tudo isso aumenta o risco de interações medicamentosas e efeitos colaterais, que muitas vezes são previsíveis e podem ser evitados.
Nos idosos, a capacidade do corpo de metabolizar os medicamentos muda, tornando-os mais vulneráveis a reações adversas, ainda mais se potencializadas pelas interações.
A cada consulta devemos revisar os medicamentos e seguir diretrizes de prescrição que ajudam a diminuir esses riscos. Precisamos considerar a fragilidade, desnutrição, declínio cognitivo, falta de rede de apoio e até depressão como sendo fatores que podem afetar a adesão ao tratamento e o sucesso dele.
Formas de medicamentos mais fáceis de ingerir, combinações no mesmo medicamento e até comprimidos mastigáveis e mais palatáveis, são especialmente úteis.
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Gestantes
Aqui, a segurança do bebê é fundamental. Certos medicamentos comuns, como inibidores da ECA e antagonistas de receptores de angiotensina, devem ser evitados.
Todo tratamento deve ser pensado e ajustado com cuidado, monitorando a pressão arterial da gestante e a saúde do bebê para evitar complicações. Em alguns casos, mesmo com algum risco, o tratamento deve ser realizado por risco ainda maior da doença não tratada durante a gestação.
Uma abordagem próxima ao obstetra com experiência em alto risco e uma equipe multidisciplinar de acordo a necessidade materno-fetal é recomendada para garantir o melhor resultado tanto para a mãe quanto para o bebê.
Crianças
Os médicos que já exercem a paternidade/maternidade sabem que não existe maior desafio do que medicar uma criança doente. Na pediatria, a adesão ao tratamento é desafiadora, especialmente se o medicamento não tiver sabor agradável.
Algumas formas de administração orodispersíveis (dissolvem na boca) ou multiparticuladas podem facilitar. Já existem também opções mais palatáveis – forma líquida – de várias medicações.
A dosagem é outro desafio e deve ser ajustada com base na idade e peso da criança, sempre verificando a segurança dos excipientes (substâncias auxiliares na formulação) para essa faixa etária e sempre usar as diretrizes pediátricas para manejo das doenças.
Para crianças mais velhas, vale a pena explicar também a elas a importância do tratamento e os riscos caso não tome a medicação. Muitas vezes elas podem surpreender seus pais, os ajudando a lembrar da medicação, especialmente quando entendem a necessidade dele para a sua melhora e bem-estar.
Pacientes com comorbidades crônicas
Alguns indivíduos com doenças crônicas, como insuficiência cardíaca e diabetes, insuficiência de algum órgão – como rins ou fígado – exigem cuidados contínuos, e a adesão à longo prazo de um tratamento não curativo pode ser desafiador.
Muitos pacientes, após a estabilização da doença, podem ter que aprender a viver com limitações em relação à alimentação, estilo de vida e mesmo limitações trazidas pela doença.
É importante explicar ao paciente sobre a necessidade de manter o tratamento, mesmo quando ele está sem sintomas e dos retornos com exames para avaliar comprometimentos relacionados à comorbidade ainda não sentidos, mas já avaliados em exames.
Indivíduos de baixa renda
Pacientes com baixa renda podem ter seu tratamento médico afetado por acesso limitado às consultas e exames, mesmo no SUS, já que existe um tempo de espera maior tanto para consultas como para exames diagnósticos e de seguimento.
Precisamos otimizar as consultas e considerar o custo das medicações, sendo honestos e perguntando se será possível adquirir aquele remédio que não tem no SUS com risco de não aderência, caso não tenha condições.
Ainda considerando esses pacientes, muitos não conseguem se deslocar tão regularmente à clínica e hospital pelo preço do transporte, em especial se idosos ou pacientes com dificuldade de locomoção que não podem contar com um transporte público especial. E mesmo seus lares e bairros podem impedir uma vida com mais saúde a se considerar a sua alimentação local e condições para realizar atividade física.
Nesse público, devemos considerar a dificuldade em obter informação médica adequada e barreiras de compreensão pela dificuldade educacional: parte de ser médico é nos fazer entender para melhorar a adesão ao tratamento do paciente.
Para isso existem recursos para indicar ao paciente quais medicamentos ele deve usar (pela cor e quantidade).
Diferenças étnicas
Cada população tem maior risco de determinadas doenças. Como exemplo, pacientes negros tem mais risco de hipertensão arterial grave e doenças cardiovasculares, enquanto caucasianos tem maior risco de câncer de pele e doenças autoimunes.
Devemos levar ainda em conta que a miscigenação brasileira pode mascarar os riscos em pacientes com a cor da pele diferente da maior parte de sua ascensão genética.
Conclusão
A prescrição para populações especiais requer uma abordagem personalizada que leve em conta as necessidades específicas de cada grupo, sempre buscando segurança, eficácia e adesão ao tratamento.
A individualização do tratamento deve considerar não apenas as características biológicas, mas também aspectos psicossociais, como a situação financeira, a educação em saúde e o suporte familiar disponível.
A comunicação entre o paciente e o profissional de saúde é fundamental para garantir que as informações sobre o tratamento sejam compreendidas e que o paciente se sinta confortável para expressar suas preocupações e dúvidas e possamos revisar o tratamento.
O envolvimento do paciente nas decisões sobre seu tratamento pode aumentar a adesão e, consequentemente, melhorar os resultados clínicos.
O trabalho conjunto de profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros, farmacêuticos e outros especialistas, garante que mais aspectos da saúde do paciente sejam abordados.
Ao adotar essa abordagem, é possível melhora a adesão, a qualidade de vida e reduzir as disparidades dos desfechos de saúde entre diferentes populações.
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