O médico do futuro não será apenas aquele que domina o conhecimento técnico. A essa altura, isso provavelmente já não é novidade para você. Já abordamos aqui no Portal Afya alguns conteúdos que mostram o quanto a carreira médica vem deixando de ser construída apenas a partir de especialidades bem delimitadas e passando a abrir espaço, ainda que de forma lenta, para atuações mais híbridas, que aproximam diferentes campos do conhecimento.
Durante a graduação, vemos esse movimento de maneira tímida, quando temas de humanidades em disciplinas de ética, comunicação e história da medicina começam a dividir espaço com conteúdos tradicionais e mais valorizados entre os estudantes, como fisiologia, farmacologia e protocolos clínicos.
O problema é que, muitas vezes, essas áreas seguem sendo tratadas como disciplinas complementares, isoladas no currículo, feitas apenas para completar horas formativas e pouco vistas como produção de conhecimento científico relevante para a prática e para a pesquisa em saúde.
Um ponto de vista publicado na JAMA por Jain, Zamanian e Krishnan, em 2025, propõe uma mudança mais estrutural nesse modelo e defende a formação dupla em medicina e humanidades médicas, ou, de forma mais ampla, humanidades da saúde, com a figura do clinician-scholar.
A proposta não seria apenas nos tornarmos médicos mais empáticos ou com melhor comunicação, mas profissionais preparados para formular novas perguntas científicas e construir respostas mais direcionadas para os problemas complexos da saúde. Nesse modelo, compreender contexto, cultura, história e ética deixa de ser um extra e passa a fazer parte do próprio método científico ensinado aos futuros médicos.
Como explicam Jain, Zamanian e Krishnan, assim como educadores médicos utilizam abordagens das humanidades para melhorar o ensino e a relação com o paciente, médicos pesquisadores também podem recorrer a essas metodologias para produzir ciência. Com isso, as humanidades deixam de ser secundárias na formação e na pesquisa e passam a posicionar esses profissionais como centrais na inovação em saúde.
O cuidado em saúde não cabe apenas nos protocolos
A complexidade do cuidado em saúde hoje vai muito além do que está nas diretrizes e nos protocolos. Estamos vivenciando novos desafios da profissão, como a incorporação de tecnologias como inteligência artificial, o crescimento da desinformação em saúde, a crise de confiança nas instituições científicas e as desigualdades estruturais dos sistemas de saúde.
Por mais que tentemos, esses desafios dificilmente serão resolvidos apenas com ensaios clínicos, novos medicamentos ou diretrizes.
Esses fatores estão mudando o acesso, a qualidade do cuidado e os desfechos clínicos. Também vão além do conhecimento técnico com o qual temos contato durante a formação médica. Eles exigem do médico ferramentas que pertencem às humanidades, como compreensão de contexto, leitura crítica da realidade social, análise histórica e capacidade de dialogar com diferentes públicos.
Contexto social, cultura e adesão ao tratamento
Na prática clínica, ao realizarmos um atendimento em uma UBS de periferia ou em um hospital público de grande porte, por exemplo, lidamos diariamente com problemas que são mais profundos do que diagnósticos e prescrições. Eles envolvem a realidade e as dificuldades de cada paciente.
A adesão ao tratamento, a forma como a doença é entendida, o impacto da cultura local, da renda, da escolaridade e da desinformação interferem no cuidado, assim como qualquer outra decisão clínica tomada por nós.
O mesmo vale para a pesquisa em saúde. Entender os erros diagnósticos, por exemplo, não é apenas uma questão de acurácia técnica, mas também envolve processos cognitivos, comunicação em equipe, cultura institucional e relações hierárquicas. Sabemos, na prática, que nem todos os erros são apenas questões de precisão técnica.
Os autores do artigo também ilustram o quanto entender por que determinadas populações não aderem a programas de rastreamento envolve não só o conhecimento médico da epidemiologia, mas também bases de antropologia, sociologia e compreensão histórica daquela população.
Pesquisa e carreira médica fora do consultório e do plantão
A trajetória mais comum do médico no Brasil ainda segue o roteiro da graduação, residência e, para alguns, mestrado ou doutorado. Durante a construção da carreira, somos pouco estimulados à formação híbrida ou interdisciplinar.
O que o artigo de Jain, Zamanian e Krishnan sugere, e que faz sentido para a realidade médica brasileira, é investir na integração entre medicina e humanidades como estratégia para construir carreiras mais preparadas e que não fiquem limitadas à universidade.
Há espaço para o médico com formação mais ampla atuar na gestão em saúde, no empreendedorismo, na formulação de políticas públicas, na indústria, em organizações internacionais, na educação médica e na inovação e desenvolvimento de tecnologias.
Saiba mais: Mudando a tradição? Os caminhos da nova geração de médicos.
Vale reforçar que dar voz às humanidades em momento algum significa abandonar a medicina baseada em evidências, mas reconhecer seus limites e ampliar suas possibilidades de impacto na saúde.
Talvez a contribuição mais importante dessa discussão seja mudar a ideia de que as humanidades servem apenas para nos humanizar como médicos. Elas também podem gerar métodos, rigor analítico, pensamento crítico e inovação científica.
#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.
Autoria

Juliana Karpinski
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