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Carreira20 janeiro 2026

Aprenda a se comunicar melhor com pacientes surdos durante a consulta

Com empatia, preparo e tecnologia, o cuidado com pacientes surdos ou com deficiência auditiva se torna mais humano, seguro e inclusivo
Por Ester Ribeiro

Garantir uma comunicação clara é parte essencial de um bom atendimento médico. Mas quando o paciente é surdo ou tem deficiência auditiva parcial, esse desafio ganha nuances importantes — e exige preparo, empatia e criatividade. A boa notícia é que, com pequenas adaptações, a consulta pode ser tão produtiva quanto qualquer outra.

Leia mais: Desafios silenciosos: médicas surdas contam sobre os desafios da profissão

paciente com surdez

 Passo a passo

  1. O primeiro passo é o olhar

Mantenha-se de frente para o paciente, em ambiente bem iluminado (sem luz atrás de você). Isso facilita a leitura labial e a observação de expressões faciais — elementos fundamentais para quem se comunica em Libras. Fale de modo natural, sem exagerar no volume ou articular de forma forçada. O tom calmo e claro é sempre mais eficaz.

  1. Use gestos, expressões e recursos visuais

Mesmo que você não saiba Libras, gestos e expressões ajudam muito.
Aponte para partes do corpo, desenhe, escreva palavras simples — tudo isso pode complementar a comunicação verbal. Evite, porém, depender totalmente de acompanhantes; o ideal é conversar diretamente com o paciente, mantendo sua autonomia e privacidade.

  1. Quando possível, conte com um intérprete

A presença de um intérprete de Libras é garantida por lei (Lei Brasileira de Inclusão – 13.146/2015) e deve ser oferecida sempre que houver disponibilidade. Mas se o serviço não contar com esse apoio, há várias soluções práticas e tecnológicas para aproximar médico e paciente.

  1. Tecnologia a favor da comunicação

Ferramentas digitais e até recursos de IA podem transformar o atendimento:

  • Hand Talk App – traduz textos e falas para Libras por meio de avatares 3D.
  • VLibras – ferramenta gratuita do governo que converte português (texto e áudio) para Libras.
  • Ava e Google Live Transcribe – legendam em tempo real a fala do médico, convertendo-a em texto na tela.
  • Helpvox Connect – conecta o consultório a intérpretes de Libras por videoconferência.

Esses recursos não substituem o intérprete humano, mas podem reduzir barreiras quando ele não está disponível.

  1. Pergunte, confirme e simplifique
  • Use frases curtas, perguntas diretas e sempre confirme a compreensão.
  • Peça para o paciente repetir as orientações principais ou demonstrar o que entendeu.
  • Evite jargões médicos complexos e prefira uma linguagem simples e visual.
  1. Cuidados com o ambiente e a postura

Pequenas mudanças no consultório fazem diferença:

  • Luz natural e ausência de ruídos de fundo.
  • Sinalização visual nas áreas comuns.
  • Recepcionistas treinados para cumprimentar em Libras básica ou acionar intérpretes.
  • Campainhas com alertas luminosos em vez de sonoros.

Mais do que equipamentos, o que comunica acolhimento é a atitude inclusiva de toda a equipe.

  1. O que evitar
  • Falar olhando para o computador ou escrevendo.
  • Gritar ou articular de forma exagerada.
  • Usar termos como “surdo-mudo” (prefira “pessoa surda”).
  • Tratar o paciente como incapaz ou dependente de familiares.

Respeito e naturalidade são o caminho mais seguro.

  1. Quer se preparar melhor?

Aprender o básico de Libras é um investimento em empatia.
Existem cursos gratuitos e apps que ensinam sinais do dia a dia e expressões médicas simples.
Dominar até mesmo o alfabeto manual já facilita muito a comunicação.

 E nas teleconsultas?

A lógica é a mesma: câmera bem posicionada, iluminação adequada e fala pausada.
Ative legendas automáticas e, se possível, conte com um intérprete na chamada.
Para pacientes com deficiência auditiva parcial, fones de ouvido e microfones direcionais podem melhorar a compreensão. Mesmo a distância, a comunicação acessível é possível — e necessária.

 

Em resumo

Ser médico acessível é ser médico completo. Com empatia, preparo e tecnologia, o cuidado com pacientes surdos ou com deficiência auditiva se torna mais humano, seguro e inclusivo — como deve ser toda boa prática médica.

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Editora médica na Afya. Médica pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Camp), com residência médica em Clínica Médica e Nefrologia pelo Hospital Santa Marcelina (2016). Além da atuação na Afya, também atenda em consultório particular e clínica de diálise.

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