Garantir uma comunicação clara é parte essencial de um bom atendimento médico. Mas quando o paciente é surdo ou tem deficiência auditiva parcial, esse desafio ganha nuances importantes — e exige preparo, empatia e criatividade. A boa notícia é que, com pequenas adaptações, a consulta pode ser tão produtiva quanto qualquer outra.
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Passo a passo
- O primeiro passo é o olhar
Mantenha-se de frente para o paciente, em ambiente bem iluminado (sem luz atrás de você). Isso facilita a leitura labial e a observação de expressões faciais — elementos fundamentais para quem se comunica em Libras. Fale de modo natural, sem exagerar no volume ou articular de forma forçada. O tom calmo e claro é sempre mais eficaz.
- Use gestos, expressões e recursos visuais
Mesmo que você não saiba Libras, gestos e expressões ajudam muito.
Aponte para partes do corpo, desenhe, escreva palavras simples — tudo isso pode complementar a comunicação verbal. Evite, porém, depender totalmente de acompanhantes; o ideal é conversar diretamente com o paciente, mantendo sua autonomia e privacidade.
- Quando possível, conte com um intérprete
A presença de um intérprete de Libras é garantida por lei (Lei Brasileira de Inclusão – 13.146/2015) e deve ser oferecida sempre que houver disponibilidade. Mas se o serviço não contar com esse apoio, há várias soluções práticas e tecnológicas para aproximar médico e paciente.
- Tecnologia a favor da comunicação
Ferramentas digitais e até recursos de IA podem transformar o atendimento:
- Hand Talk App – traduz textos e falas para Libras por meio de avatares 3D.
- VLibras – ferramenta gratuita do governo que converte português (texto e áudio) para Libras.
- Ava e Google Live Transcribe – legendam em tempo real a fala do médico, convertendo-a em texto na tela.
- Helpvox Connect – conecta o consultório a intérpretes de Libras por videoconferência.
Esses recursos não substituem o intérprete humano, mas podem reduzir barreiras quando ele não está disponível.
- Pergunte, confirme e simplifique
- Use frases curtas, perguntas diretas e sempre confirme a compreensão.
- Peça para o paciente repetir as orientações principais ou demonstrar o que entendeu.
- Evite jargões médicos complexos e prefira uma linguagem simples e visual.
- Cuidados com o ambiente e a postura
Pequenas mudanças no consultório fazem diferença:
- Luz natural e ausência de ruídos de fundo.
- Sinalização visual nas áreas comuns.
- Recepcionistas treinados para cumprimentar em Libras básica ou acionar intérpretes.
- Campainhas com alertas luminosos em vez de sonoros.
Mais do que equipamentos, o que comunica acolhimento é a atitude inclusiva de toda a equipe.
- O que evitar
- Falar olhando para o computador ou escrevendo.
- Gritar ou articular de forma exagerada.
- Usar termos como “surdo-mudo” (prefira “pessoa surda”).
- Tratar o paciente como incapaz ou dependente de familiares.
Respeito e naturalidade são o caminho mais seguro.
- Quer se preparar melhor?
Aprender o básico de Libras é um investimento em empatia.
Existem cursos gratuitos e apps que ensinam sinais do dia a dia e expressões médicas simples.
Dominar até mesmo o alfabeto manual já facilita muito a comunicação.
E nas teleconsultas?
A lógica é a mesma: câmera bem posicionada, iluminação adequada e fala pausada.
Ative legendas automáticas e, se possível, conte com um intérprete na chamada.
Para pacientes com deficiência auditiva parcial, fones de ouvido e microfones direcionais podem melhorar a compreensão. Mesmo a distância, a comunicação acessível é possível — e necessária.
Em resumo
Ser médico acessível é ser médico completo. Com empatia, preparo e tecnologia, o cuidado com pacientes surdos ou com deficiência auditiva se torna mais humano, seguro e inclusivo — como deve ser toda boa prática médica.
Autoria

Ester Ribeiro
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