Ao terminar a faculdade, a médica estava ansiosa para começar a trabalhar, mas ainda sem experiência prática. Procurou um grande serviço de organização de UBS em São Paulo e encontrou uma unidade precisando de médico. A vaga se tornou seu primeiro emprego.
Menos de dois meses depois, foi aprovada na residência médica e deixou o local, abrindo novamente a lacuna da falta de médicos na UBS para parte daqueles pacientes.
A história individual ajuda a ilustrar um problema estrutural da saúde pública brasileira.
Entre 2022 e 2024, um terço dos médicos da Atenção Primária à Saúde deixou seu posto de trabalho. A taxa média de rotatividade foi de 33,9%, segundo estudo da Umane e do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.
Na prática, é como se o paciente trocasse de médico justamente quando começava a criar vínculo com ele.
Por que os médicos na UBS permanecem tão pouco tempo?
Na Atenção Primária, vínculo importa. E ele demora para ser construído.
É preciso pelo menos um ano para que o médico conheça profundamente o paciente — e para que o paciente reconheça aquele profissional como “o seu médico”.
Quanto maior esse vínculo:
- maiores os acertos clínicos;
- menor o risco de erro;
- melhor a adesão ao tratamento;
- maior a satisfação do paciente.
Quando a rotatividade se torna frequente, os efeitos aparecem rapidamente:
- a hipertensão deixa de ser controlada;
- o diabetes segue descompensado;
- a gestante perde referência de acompanhamento;
- pacientes deixam de procurar atendimento.
Médicos na UBS: por que tantos profissionais vão embora?
Não existe uma única resposta. O problema começa antes mesmo da chegada à UBS.
Formação médica distante da Atenção Primária
A formação médica no Brasil ainda é construída em torno do hospital universitário, da especialidade, do procedimento. A Atenção Primária raramente ocupa o centro do currículo.
Muitos médicos chegam à UBS sem ter sido formados para ela, assim como eu no início da carreira, chegamos sem conhecimento, sem experiência.
A fragmentação da formação aparece como uma das principais causas de rotatividade já identificadas na literatura, ao lado da precarização do vínculo de trabalho, do estilo de gestão autoritário, da ausência de vínculo com a comunidade e das más condições de trabalho.
Contratos frágeis dificultam permanência
O contrato precariza antes de a relação se firmar. Boa parte dos médicos nas UBS trabalha sob vínculos frágeis com contratos temporários, terceirizações, ausência de plano de carreira.
Quando a estabilidade não existe, o profissional não planeja para longo prazo. E sem planejamento de longo prazo, o vínculo com o território não se forma.
A estrutura da UBS influencia diretamente a permanência médica
A localização importa e muito.
Diferenças entre as próprias UBS foram responsáveis por mais de 10% da variância no desligamento dos médicos. Contextos e características dos serviços, como localização em bairros periféricos com indicadores sociais mais baixos, estão associados à maior rotatividade.
O que pesa no dia a dia?
A UBS mal equipada, com segurança precária, longe do transporte público e sem retaguarda para casos complexos cobra um preço concreto de quem trabalha lá todos os dias.
A desigualdade regional também é gritante. A rotatividade é maior em estados com menor PIB per capita. Maranhão e Paraíba lideram os índices de evasão, enquanto Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal, com maior poder econômico, registram as menores taxas de saída.
O paciente que mais precisa está onde o médico tem mais razões para ir embora. A carreira tem teto e visibilidade baixa. Na medicina especializada, existe progressão percebida, um caminho de qualificação técnica, reconhecimento por pares, possibilidade de atuação em múltiplos ambientes.
Na Atenção Primária, essa trajetória muitas vezes precisa ser construída quase que individualmente. Sem perspectiva de crescimento dentro da função, o médico começa a olhar para fora.
O impacto da rotatividade dos médicos na UBS
A rotatividade não é só um problema do médico que sai. É um problema de saúde pública. A Atenção Primária deve rastrear doenças, diagnosticar, tratar e acompanhar portadores de condições crônicas. ]
A UBS precisa saber quem são os hipertensos do território e ir atrás deles, assim como é feito com as gestantes. Isso exige memória institucional local.
O grande centro não consegue fazer isso mas a cada saída, reinicia o ciclo. Novo médico, nova adaptação, nova curva de aprendizado do território. E enquanto o sistema se reorganiza, os pacientes esperam ou simplesmente deixam de procurar.
O que pode melhorar a permanência dos médicos na UBS?
Investimento em formação específica
Investir em formação específica é inegociável. A residência em Medicina de Família e Comunidade é o caminho mais direto para formar médicos que escolheram a Atenção Primária — e que chegam à UBS com ferramentas reais para exercê-la.
A Lei 15.233/2025 reconfigurou incentivos para a especialidade, passando a premiar diretamente a escolha da Medicina de Família e Comunidade nas provas de residência, numa lógica de promover a formação especializada nessa área considerada estratégica à saúde pública.
Incentivos financeiros para formação na APS
A Portaria GM/MS nº 10.193/2026, publicada em janeiro deste ano, instituiu incentivo financeiro adicional de custeio para municípios com equipes de saúde integradas a programas de residência na APS.
O valor é de R$ 8.000 por residente de medicina, repassado mensalmente ao município. A lógica é direta: aproximar a formação do serviço e criar condições para que o residente já conheça o território antes de ser o responsável por ele.
Vínculos mais estáveis para médicos na UBS
Vínculos mais estáveis como política, não como exceção. O movimento em direção à contratação CLT para médicos do Mais Médicos com estabilidade, previsibilidade e plano de carreira, aponta para o que pesquisas consistentemente mostram: o vínculo empregatício seguro é um dos fatores mais associados à permanência. Não é o único, mas é estruturante.
Melhor infraestrutura faz diferença
Infraestrutura e condições de trabalho não são luxo. Estudos indicam que fatores modificáveis como investimento em infraestrutura e condições de trabalho têm papel relevante na permanência dos médicos nas UBS.
Uma sala adequada, equipamentos funcionais, sistema de informação que não trava, apoio administrativo suficiente: esses elementos não são conforto mas são pré-requisito para que o médico consiga exercer sua função no tempo hábil, sem atrasos.
Gestão que escuta retém mais médicos
Gestão que escuta é gestão que retém. O estilo de gestão autoritário aparece repetidamente como fator de saída na literatura.
O inverso também é verdadeiro: ambientes onde o médico tem voz, onde os protocolos fazem sentido clínico, onde há reconhecimento do trabalho realizado, tendem a ser ambientes onde as pessoas ficam. Isso não depende de lei federal mas depende de quem coordena a UBS no dia a dia.
Tecnologia pode reduzir sobrecarga dos médicos na UBS
A tecnologia pode ajudar se for bem utilizada. Ferramentas de registro clínico mais ágeis, sistemas de apoio à decisão, teleconsultoria para casos complexos: quando bem implementadas, essas soluções reduzem a sobrecarga administrativa e ampliam a capacidade resolutiva do médico na Atenção Primária.
Um profissional que consegue resolver mais com o que tem tende a sentir menos a pressão de migrar para estruturas com mais recursos.
O que nunca pode ser perdido na Atenção Primária
Nenhuma política de retenção funciona se o próprio médico não reconhecer o valor da Atenção Primária.
A prática clínica na UBS está entre as mais complexas da medicina. Conhecer uma família ao longo dos anos, acompanhar doenças crônicas e entender os fatores sociais que afetam a saúde exige uma competência que não se aprende apenas em livros.
O médico que permanece na UBS não é aquele que “não teve opção”. É aquele que escolheu a longitudinalidade do cuidado.
E talvez fazer esse entendimento chegar mais cedo — ainda na graduação e na residência — seja uma das estratégias mais duradouras para fortalecer os médicos na UBS.
*Dados atualizados em abril de 2026. Inclui estudo Umane/FGV-Ibre 2025, Portaria GM/MS nº 10.193/2026 e Lei 15.233/2025.)
Autoria

Ester Ribeiro
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