Um documento publicado em março de 2026 pelo Annals of Internal Medicine merece atenção. O texto “Fostering Support and Inclusion for Physicians, Postgraduate Trainees, and Medical Students With Disabilities”, publicado pelo American College of Physicians (ACP), mapeou as barreiras que ainda impedem a plena inclusão de pessoas com deficiência na medicina e propôs recomendações para tornar escolas médicas, programas de treinamento e o exercício da profissão mais acessíveis.
A leitura desconforta porque, enquanto a medicina avança em protocolos e tecnologia, uma questão permanece mal resolvida: quem pode, de fato, ser médico?
O capacitismo institucional na medicina
A medicina brasileira tem um problema que raramente aparece nos debates de educação médica: o capacitismo institucional. Não o explícito — esse, ao menos, é identificável. O problema mais resistente é o implícito: embutido em currículos sem previsão de adaptação, em hospitais-escola com estruturas físicas intransponíveis, em bancas de residência que não oferecem acomodações razoáveis e em professores que simplesmente nunca pensaram sobre o assunto.
Até 2019, havia apenas 512 médicos com deficiência registrados no Brasil — em um país com 45 milhões de pessoas vivendo essa realidade. Não se trata de falta de vocação ou capacidade. Trata-se de um sistema que filtra essas pessoas antes mesmo que cheguem ao jaleco.
Uma pesquisa analisou os editais de ingresso de 249 instituições brasileiras em 2022 e encontrou que 86,3% não reservavam vagas para pessoas com deficiência em seus processos seletivos.
O que o ACP diz sobre médicos com deficiência
O documento afirma que uma força de trabalho médica que inclua pessoas com deficiência é componente fundamental para a redução de disparidades em saúde. Esse argumento desloca a discussão de uma narrativa de bondade — incluir porque é justo — para uma questão de competência clínica e equidade assistencial.
A lógica é direta: médicos com deficiência tendem a atender melhor pacientes com deficiência, já que a experiência vivida gera competência clínica e empática que nenhum currículo tradicional consegue ensinar. No Brasil, são estimadas 18,6 milhões de pessoas com deficiência — quase 9% da população.
E há outro dado que deveria incomodar: a Lei Brasileira de Inclusão determina que é dever do Estado assegurar à pessoa com deficiência atenção integral, em todos os níveis de complexidade, pelo SUS, com acesso universal e igualitário. A pergunta que fica é como garantir esse cuidado excluindo essas pessoas da possibilidade de serem os médicos que o oferecem.
Barreiras à inclusão vão além da acessibilidade física
É tentador reduzir o problema à acessibilidade física — rampas, elevadores, banheiros adaptados. Isso é importante, mas insuficiente. Pesquisas evidenciam barreiras arquitetônicas, comunicacionais, tecnológicas, atitudinais e pedagógicas enfrentadas por estudantes com deficiência no ensino superior.
Também é preciso trabalhar com aquele professor que nunca precisou adaptar uma aula, ou com o preceptor que subtrai oportunidades ou desestimula um residente por achar que ele “vai ter dificuldade”. Não se trata de esperar que ele faça tudo igual, no mesmo tempo e independentemente das circunstâncias. Trata-se de pensar que, assim como todos temos dificuldades diante de diferentes problemas, é necessário ajudá-lo a dar o seu melhor.
Há casos que mostram o que é possível quando a instituição decide encarar o problema. Existem relatos de professores que desenvolveram novos métodos de ensino para alunas com perda auditiva grave, criando abordagens inovadoras de ausculta — e a experiência foi transformadora para todos os envolvidos. A inclusão, quando levada a sério, não apenas acomoda: força a instituição a repensar seus métodos e, muitas vezes, a melhorá-los para todos.
O papel de médicos, preceptores e gestores
Se você é médico formado, preceptor, professor, gestor de residência ou membro de comissão curricular, a pergunta é direta: quando foi a última vez que você pensou ativamente sobre as barreiras que existem no seu espaço de atuação? Há algum aluno com deficiência precisando de ajuda e apoio agora?
O documento do ACP propõe recomendações concretas — acomodações razoáveis nos processos seletivos, adaptações pedagógicas, proteção contra discriminação e representação de pessoas com deficiência nas instâncias de decisão. Nada disso acontece sozinho. Depende de médicos que decidam que o tema importa.
A medicina que exclui sistematicamente pessoas com deficiência se afasta da diversidade da própria população que atende. No Brasil, quem está nessa conversa? A resposta, por enquanto, é: poucos. E talvez o primeiro passo seja simplesmente admitir que ela precisa começar.
#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.
Autoria

Ester Ribeiro
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