O paciente é diagnosticado com infecção por Helicobacter pylori, dispepsia crônica, sem úlcera, atrofia ou metaplasia gástrica. Um quadro corriqueiro, sem risco iminente.
O médico, sempre atualizado e encorajado pelos bons resultados dos últimos meses, prescreve o tratamento com antimicrobianos associados à vonoprazana, fundamentado em diretrizes internacionais recentes, que demonstram maior eficácia dos esquemas com bloqueador ácido competitivo de potássio (P-CAB).
Ele explica a conduta com cuidado: orienta a forma correta de uso, comenta os riscos — quase irrisórios — das medicações, reforça a necessidade de controle de erradicação após quatro semanas do término dos antibióticos, destaca a alta resolutividade do esquema e empolga o paciente com a perspectiva de melhora precoce.
A consulta termina bem.
O médico sai satisfeito com suas decisões.
O paciente deixa o consultório seguro e confiante.
A evidência encontra o mundo real
Farmácia local
No balcão, o paciente entrega a receita. O farmacêutico confere os itens e informa o valor com naturalidade:
“São 472 reais, mas com o cartão da farmácia sai por 450. Vai pagar no cartão ou no PIX?”
A decepção é imediata.
Casado, esposa em casa cuidando de três filhos — um deles, ainda bebê, em uso de fórmula especial por alergia à proteína do leite de vaca. Fim de mês. Despesas inesperadas com o carro há menos de duas semanas. Aquele valor representava uma fatia significativa do orçamento familiar.
Ele agradece, diz que voltará outro dia e retoma, de forma irregular, o uso de omeprazol até “as coisas se ajeitarem”. O tempo passa, a receita expira e o constrangimento o impede de retornar à consulta sem ter seguido o tratamento “tão bem explicadinho”.
A poucos quilômetros dali, alheio ao que acontecia fora dos guidelines, o médico seguia sua rotina — cientificamente impecável.
O limite da medicina baseada em evidências
Não é preciso grande esforço para imaginar outros cenários semelhantes.
A medicina baseada em evidências, aliada ao método empírico e à rápida disseminação do conhecimento científico, permite oferecer aos pacientes o que há de mais moderno, preciso e eficaz.
Mas, como todo avanço material, ela traz novos problemas.
Os recursos terapêuticos se multiplicam, enquanto o poder aquisitivo dos pacientes não acompanha o mesmo ritmo. No Brasil:
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cerca de 10% do orçamento familiar é gasto com saúde;
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71% da população utiliza o sistema público como porta de entrada;
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80% das pessoas demonstram preocupação com o acesso aos cuidados em saúde.
Políticas públicas e gestão são fundamentais para reduzir esse descompasso. Ainda assim, a decisão final recai sobre o médico, diante de uma pessoa real, com limites concretos, sentada à sua frente pedindo ajuda.
E essa decisão exige muito mais do que atualização bibliográfica.
Evidência, indivíduo e responsabilidade clínica
Desde 1947, a definição da OMS de saúde como “estado de completo bem-estar físico, mental e social — e não apenas ausência de doença” acrescenta uma responsabilidade imensa ao processo decisório médico.
Ela nos lembra que precisamos individualizar escolhas, para que nossas decisões não terminem por adoecer ainda mais quem confia em nós.
- O tratamento prescrito está adequado às possibilidades reais do paciente?
- Quanto ele está disposto — ou pode — pagar para melhorar?
- O que ele aceitaria perder, em termos de eficácia, para tornar o cuidado viável?
Essas são perguntas difíceis, raramente feitas de forma direta, muitas vezes respondidas nas entrelinhas da entrevista clínica, na subjetividade da relação médico-paciente.
E, diante do arsenal terapêutico disponível hoje, torna-se evidente: não existe resposta universal.
Medicina baseada em evidências não é medicina automática
Praticar medicina baseada em evidências não é aplicar protocolos de forma acrítica, nem escolher sempre o “melhor” tratamento segundo artigos recentes. É integrar evidência científica, experiência clínica e contexto individual.
Isso é o que tradicionalmente chamamos de medicina holística — ou, simplesmente, Medicina: aquela que reconhece o paciente em sua complexidade, para além da doença descrita nos compêndios, sem diletantismo (pseudo)científico.
Paradoxalmente, em uma era de informação abundante, praticar medicina dessa forma parece ter se tornado mais difícil do que imaginávamos.
Autoria

Filipe Fernandes Justus
Conteudista de Gastroenterologia do Whitebook e Portal Afya. Médico especializado em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo HC-FMUSP. Atua em ensino médico e assistência ambulatorial e hospitalar.
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