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Carreira9 outubro 2026

IA interpreta exames, mas quem percebe quando o resultado não faz sentido?

Interpretação de exames com IA amplia a análise laboratorial, mas resultados inconsistentes ainda exigem contexto clínico e julgamento médico
Por Redação Afya

A inteligência artificial já começou a mudar consistentemente a rotina dos laboratórios clínicos. Sistemas são capazes de validar e liberar automaticamente determinados resultados, identificar padrões, detectar desvios e ajudar a organizar o fluxo de trabalho. Em um ambiente que produz uma quantidade enorme de informações, essa capacidade de processamento pode representar um ganho importante: alguns laboratórios brasileiros chegam a processar cerca de 1 milhão de exames por dia.

O desafio, porém, não está apenas em interpretar o que aparece na tela. Um resultado laboratorial pode sofrer interferências durante a coleta, o transporte ou a análise, ou ainda refletir uma condição fisiológica que não significa necessariamente doença. Para o Dr. Pedro Serrão Morales, especialista em Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, é justamente aí que começa uma das questões mais complexas para a inteligência artificial.

Saiba mais: Medicina e Inteligência Artificial: como a tecnologia está transformando a carreira médica

“Interpretar um resultado laboratorial é relacionar um resultado ao contexto clínico. Já identificar quando ele pode ser enganoso exige reconhecer interferências analíticas, limitações metodológicas e fatores pré-analíticos”, explica.

A diferença parece sutil, mas é fundamental. Uma IA pode reconhecer que determinado valor está fora do intervalo de referência e apresentar possíveis explicações. Reconhecer que aquele número não deve ser interpretado literalmente, entretanto, exige compreender como o resultado foi produzido e o que está acontecendo com o paciente.

Interpretação de exames: quando o número não combina com o paciente

Algumas dessas inconsistências já podem ser identificadas por sistemas automatizados. Hemólise, lipemia, icterícia, contaminação e resultados incompatíveis com outros exames são exemplos de situações em que algoritmos podem funcionar como uma camada adicional de segurança.

Um caso extremo ajuda a entender o potencial dessa tecnologia. Um resultado de potássio muito elevado, por exemplo, pode representar uma alteração clínica grave, mas também pode indicar um problema na própria amostra. O sistema pode sinalizar a anormalidade, mas a decisão sobre o que ela significa depende de uma análise mais ampla.

“Um potássio de 10, por exemplo, que representaria uma hipercalemia extremamente grave e crítica, com risco imediato de morte”, cita Dr. Morales, ao ilustrar um resultado que pode ser considerado improvável ou até incompatível com a vida e, por isso, merece ser questionado antes de simplesmente orientar uma conduta.

A capacidade de fazer esse tipo de julgamento ainda esbarra na qualidade e na disponibilidade dos dados. Informações sobre sintomas, medicamentos, doenças anteriores e evolução clínica nem sempre estão integradas aos sistemas laboratoriais.

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O contexto que o algoritmo pode não enxergar

Quanto mais informações a IA consegue reunir, maior seu potencial para encontrar relações entre diferentes resultados. Mas isso depende de que os dados estejam disponíveis e sejam confiáveis. Na prática, prontuários eletrônicos, sistemas laboratoriais e plataformas de diferentes fabricantes muitas vezes não se comunicam adequadamente.

Esse é um dos motivos pelos quais a interpretação humana continua necessária. O patologista clínico não olha apenas para um resultado isolado: ele precisa avaliar se aquele dado faz sentido diante do conjunto de informações disponíveis.

“Ela tende a funcionar melhor quando há integração entre o prontuário eletrônico, o histórico laboratorial, o sistema de informação laboratorial e os dados clínicos estruturados. Na prática, essas informações geralmente são incompletas ou até indisponíveis para o algoritmo”, afirma.

A questão também envolve o chamado viés de automação, quando uma recomendação tecnológica passa a ser aceita sem questionamento simplesmente porque parece objetiva, sofisticada ou precisa.

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Uma resposta convincente também pode estar errada

Esse risco ganha importância porque sistemas de inteligência artificial podem produzir respostas muito bem estruturadas mesmo quando os dados utilizados são insuficientes ou a conclusão não se aplica àquele paciente.

Para reduzir esse problema, a tecnologia precisa ser encarada como suporte, e não como autoridade final. O profissional deve conhecer as limitações do sistema, verificar sua aplicabilidade e manter a capacidade de questionar aquilo que recebe.

“O principal risco é o viés de automação, quando a recomendação da inteligência artificial é aceita sem análise ou interpretação crítica”, alerta Serrão.

Antes de incorporar uma ferramenta à rotina, portanto, é necessário avaliar se ela foi validada em populações semelhantes às atendidas pela instituição, se apresenta resultados consistentes e reprodutíveis e se seus benefícios foram demonstrados na prática. Também entram nessa equação questões como transparência, segurança, monitoramento contínuo e proteção de dados.

Leia mais: IA na triagem de pacientes: eficiência do sistema ou risco de desumanização?

O laboratório também pode ganhar uma nova camada de segurança

Além de ajudar na interpretação dos exames, a IA pode atuar antes mesmo de um resultado chegar ao médico. O monitoramento em tempo real do controle de qualidade, a identificação precoce de desvios analíticos e a detecção de possíveis erros pré-analíticos estão entre as aplicações consideradas mais promissoras.

Essa transformação também modifica o papel do patologista clínico. Em vez de desaparecer diante da automação, o especialista passa a assumir novas responsabilidades relacionadas à qualidade dos dados, aos riscos dos sistemas e à avaliação do desempenho dos algoritmos.

“O patologista clínico deixa de atuar apenas como intérprete de exames e passa também a ser gestor da qualidade dos dados e da utilização da inteligência artificial”, afirma.

Isso exige conhecimentos que vão além da interpretação tradicional dos exames, incluindo validação de algoritmos, gestão de riscos, ciência de dados e integração clínico-laboratorial.

Saber quando desconfiar pode ser tão importante quanto saber interpretar

No futuro, modelos mais sofisticados poderão reconhecer com maior precisão padrões atípicos e sinalizar resultados que merecem uma investigação adicional. Para isso, porém, será necessário integrar melhor os sistemas, ampliar a qualidade e a representatividade das bases de dados e manter os modelos continuamente avaliados.

A questão, portanto, não é fazer com que a IA tenha uma resposta para cada exame. É fazer com que ela também seja capaz de reconhecer quando os dados não são suficientes para uma conclusão segura.

Para Serrão, esse é justamente o lugar em que a tecnologia deve ocupar na Medicina Laboratorial: “Seu maior valor está em ampliar a capacidade analítica do médico, otimizando tempo para que o patologista clínico possa focar nos resultados que realmente merecem mais atenção, e não substituí-lo”.

No fim, a inteligência artificial pode ser extremamente eficiente para encontrar padrões em milhões de resultados. Mas transformar esses padrões em decisões clínicas continua exigindo algo que nenhum exame consegue medir sozinho: raciocínio, contexto e capacidade de questionar.

O Afya Summit 2026 aconteceu no Parque Ibirapuera, no dia 29 de agosto, reunindo profissionais para discutir como a tecnologia está transformando a prática médica. E o debate continua: acompanhe as próximas discussões e venha descobrir, no Afya Summit do ano que vem, onde o futuro encontra quem vive a medicina.

Autoria

Foto de Redação Afya

Redação Afya

Equipe de Jornalistas da Afya.

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