A revolução da Inteligência Artificial (IA) já faz parte da realidade. Usamos essa tecnologia e contribuímos para seu avanço, mesmo sem perceber. Trata-se de uma transformação em andamento, cujos impactos ainda não são totalmente conhecidos.
Enquanto algumas pessoas já tiveram suas rotinas profundamente modificadas, outras observam cada nova aplicação com uma mistura de receio e entusiasmo. A cada inovação, porém, a discussão se repete: toda tecnologia traz soluções, mas também cria novos problemas. E, com ela, volta a pergunta: a IA poderia substituir o ser humano?
Até aqui, a resposta tem sido não. Ainda que seja possível reduzir a participação humana em determinadas tarefas, continuará sendo necessária uma mente capaz de definir objetivos, interpretar contextos e tomar decisões — ou formular o prompt, se preferir.
IA na Medicina: apoio à decisão clínica
A Medicina enfrenta essas mesmas questões. Grandes instituições médicas já contam com áreas dedicadas ao estudo da IA, frequentemente produzindo pesquisas que geram debate.
Um exemplo é o artigo publicado recentemente no NEJM, que avalia modelos preditivos por machine learning, baseados em dados clínicos e demográficos. Segundo o estudo, essas ferramentas podem ajudar médicos, cuidadores e familiares no processo de decisão sobre a possibilidade de um paciente desejar ou não ser submetido a manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP).
Modelos preditivos nos cuidados de fim de vida
O tema é sensível e controverso. No entanto, a análise exige atenção aos limites metodológicos do próprio estudo.
Prova de conceito, não substituição do médico
Trata-se de um estudo de prova de conceito e de uma análise exploratória. Embora compare modelos de IA com decisões tomadas por pessoas, o objetivo não é substituir o julgamento humano, mas oferecer apoio ao processo decisório.
A responsabilidade final continua sendo do médico. Familiares e cuidadores também mantêm papel central na decisão. Esse ponto aparece no título do artigo e é reforçado ao longo do trabalho. Ainda assim, é provável que a divulgação pública do tema nem sempre destaque essa limitação com a mesma clareza.
Manchetes mais chamativas tendem a simplificar a discussão. No entanto, a ciência costuma avançar de forma gradual, com etapas longas de validação antes que seus resultados possam ser aplicados de maneira ampla na prática clínica.
O risco de delegar decisões humanas às máquinas
O estudo é relevante, mas a ideia central não é inédita: trata-se de mais uma ferramenta tecnológica capaz de tornar processos mais eficientes e liberar tempo para outras tarefas.
Por outro lado, como ocorreu com outras tecnologias que modificaram nossa memória, atenção e forma de interpretar informações, a IA também pode levar à delegação excessiva de funções cognitivas. Nos cuidados de fim de vida, esse risco é especialmente importante, pois decisões clínicas exigem não apenas dados, mas também julgamento, contexto e sensibilidade humana.
O papel do médico diante da IA
Diante desse cenário, cabe aos médicos fortalecer sua formação técnica, cultural e científica. Mais do que operar novas ferramentas, será necessário interpretar seus limites e aplicar seus resultados com responsabilidade.
Nos cuidados de fim de vida, o médico deve continuar atuando como mediador entre as necessidades humanas, as evidências científicas e as novas tecnologias.
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Autoria

Filipe Fernandes Justus
Conteudista de Gastroenterologia do Whitebook e Portal Afya. Médico especializado em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo HC-FMUSP. Atua em ensino médico e assistência ambulatorial e hospitalar.
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