Quando foi a última vez que você dormiu bem? Ou melhor, quando foi a última vez que você dormiu entre 7 e 9 horas por noite da mesma forma que costuma orientar seus pacientes? Precisou parar e pensar um pouco nessa resposta? Você deveria ler esse texto.

Dados estatísticos do impacto do sono na performance
Entre todos os pilares da qualidade de vida, o sono costuma ser o primeiro a ser deixado de lado, e isso já começa lá no início da nossa rotina profissional, durante a graduação, residência e os primeiros anos de formados.
As longas e imprevisíveis jornadas de trabalho dos médicos, com o acúmulo de plantões de 12 ou 24 horas seguidas, resultam em mais consequências do que só cansaço físico, aumenta também o risco de erros. Médicos com comprometimento moderado do sono tiveram 53% mais chances de relatar erros clínicos significativos. Quando o comprometimento do sono é alto, esse risco aumentou para 96%, e entre os que apresentaram nível muito alto de privação do sono, o número chegou a ser 97% maior.
Esses dados fazem parte de um estudo com mais de 11 mil médicos publicado no JAMA (2020) e reforçam que a falta de sono está diretamente ligada ao burnout e à queda na realização profissional. Esse mesmo estudo destacou que médicos de emergência que cumprem cinco turnos noturnos consecutivos têm queda expressiva no desempenho cognitivo, maior propensão a erros e maior tempo para realizar procedimentos críticos, como a intubação.
Déficits em memória visual, concentração, vigilância, destreza operatória e até a capacidade para interpretar eletrocardiogramas também são afetados em médicos em treinamento com problemas de sono.
Em outra publicação (2020), a Academia Americana de Medicina do Sono reforçou que a privação de sono devido a turnos de trabalho, alta carga de trabalho, longas jornadas, interrupções do sono e sono insuficiente para recuperação têm sido apontadas como fatores associados a uma probabilidade quatro vezes maior de burnout entre médicos.
Além disso, quando o sono é deixado em segundo plano, as consequências também levam a alterações de humor, aumento da sonolência, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração, desorientação, redução da empatia e satisfação profissional. E o quanto isso pode, ou já tem afetado no dia a dia do seu plantão? No atendimento aos seus pacientes?
Recomendações para melhorar a qualidade do sono
Sabemos que dormir 8 horas por noite, nem sempre é algo viável, mas os cuidados com o sono devem fazer parte da sua rotina como parte da saúde física geral. A seguir, reforçamos algumas orientações simples que podem melhorar a qualidade do sono (CHEST, 20219). Talvez muitas delas você já tenha orientado seus pacientes, mas lembre-se de que quem cuida também precisa se cuidar:
- Procure dormir entre 7 a 9 horas por noite
- Vá para a cama apenas quando estiver cansado.
- Levante-se da cama se não estiver com sono.
- Defina um horário fixo para despertar.
- Evite cochilos
- Pratique exercícios regularmente
- Evite álcool antes de dormir.
- Limite a exposição à luz intensa à noite.
- Deixe seu quarto silencioso e relaxante. Mantenha o ambiente confortável e fresco.
- Procure tratamento se houver preocupações com distúrbios do sono.
Além desses cuidados individuais, transformar culturas de ambientes de trabalho, rever escalas, incentivar conversas sobre exaustão e reconhecer que saúde mental e física são parte da competência profissional também são estratégias que deveriam começar a fazer parte das discussões sobre o assunto na medicina.
Cuide-se!
Adotar uma higiene do sono adaptada à nossa rotina médica não é algo fácil, mas procure considerar o fato de que uma boa qualidade de sono é um recurso de empatia com pacientes e colegas e também de segurança profissional. Deixar de dormir em função do trabalho não é sinal de força, de resistência ou de vocação, e ainda pode ter um custo muito alto para o nosso próprio cuidado.
Autoria

Juliana Karpinski
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