Sr. João comparece à primeira consulta no ambulatório acadêmico, diagnosticado recentemente com cirrose hepática e cheio de recordações ruins trazidas por seus tios, vitimados pela doença, decidiu tomar algumas providências.
A verdade é que, exceto por uma certa fadiga que bate às vezes, ele se sente bem, mas com tantos exames alterados, a família custa a acreditar e o pressiona a buscar atendimento médico. O interno do sexto ano está afiado, fazendo cursinho preparatório para a residência, tem na ponta da língua todas as complicações da doença, decorou todos os mnemônicos e já pôde participar do cuidado de alguns indivíduos com cirrose durante seus estágios na terapia intensiva e na enfermaria.
A consulta leva mais de uma hora, o paciente reconhece a dedicação e o potencial do futuro doutor, mas ao final a impressão que fica é decepcionante. Basicamente, o que ele deve fazer a partir daquele momento: interromper o consumo de bebida alcoólica, cessar o tabagismo, praticar atividade física por pelo menos 150 minutos por semana – de preferência alternando atividade aeróbica e resistida -, ingerir ao menos 2 litros de água por dia, reduzir o aporte de sal para no máximo 9 gramas e consumir 25 a 35 gramas de fibras diariamente, evitar ultraprocessados e moderar o consumo de alimentos ricos em gorduras saturadas ou carboidratos simples, usar protetor solar, evitar o uso de telas antes de se deitar, desenvolver, se possível, práticas espirituais e buscar uma atitude mais positiva diante das coisas. O estudante, muito satisfeito, pontua concisamente em sua anamnese nota 10: “Oriento MEV”.
Sr. João não retorna mais.

O que fazer diante dessa situação?
Transformar velhos hábitos é um tremendo problema, convencer outra pessoa a fazê-lo, um desafio ainda maior. Hoje somos capazes de distinguir com mais clareza do que nunca o impacto de certos comportamentos em nossa saúde, podemos orientar com alguma precisão científica modificações de estilo de vida capazes de revolucionar a perspectiva de nossos pacientes.
Temos uma razoável noção dos elementos que compõem uma dieta saudável, quanto de exercício fazer, que comportamentos particularmente nocivos evitar; sabemos até que conjunto de práticas tornam as pessoas mais felizes e satisfeitas consigo mesmas. Se são tão excelentes, por que então nossas orientações raramente surtem o efeito que esperamos?
Quando se trata de táticas de persuasão e motivação, reconhecer os princípios psicológicos que regem o processo de mudança de hábitos é fundamental. Uma referência geral bastante útil é o bestseller Armas da Persuasão, de Roberto Cialdini. Vamos tratar de alguns de seus princípios à luz da prática médica, mas primeiro, dois adendos fundamentais: técnica e moderação.
Sobre a técnica, há de se reconhecer que o abuso de substâncias e outras formas de dependência têm bases fisiopatológicas muito bem definidas. Afirmar, por exemplo, que alguém é incapaz de deixar de consumir álcool, de fumar ou de se envolver em apostas online simplesmente por “falta de força de vontade” é uma tremenda estupidez, limitada apenas a uma das facetas psicológicas da questão. Determinados transtornos exigem abordagens combinadas, seja técnicas psicológicas específicas, como a terapia cognitivo-comportamental, seja estratégias farmacológicas, como antagonistas opioides, inibidores da recaptação de noradrenalina e da serotonina etc.
E mais, é crucial que apresentemos propostas com embasamento científico, sem confundir nossas crenças e predileções pessoais com argumentos técnicos. E aqui uma provocação: faz sentido entulharmos nossos pacientes com diretivas nutricionais complexas quando as evidências clínicas mais robustas apontam para apenas alguns poucos elementos essenciais?
Sobre a moderação, com quanta facilidade despejamos um caminhão de recomendações para nossos pacientes, não é mesmo? Como médicos, precisamos identificar o grau de abertura e disposição de cada indivíduo às mudanças pretendidas, precisamos também elencar prioridades. Qual aspecto comportamental exige mais atenção neste caso em particular? É a bebida? É o cigarro? É a alimentação? Nada impede de darmos orientações diversificadas, mas, na maioria das vezes, é preciso ter foco no que mais importa.
O risco de nos excedermos nessas situações é desmotivar o indivíduo que procura por ajuda, transtornado por tantas ordens, metas e temores, incorrendo numa ruptura precoce do vínculo médico-paciente
Dito o óbvio, passemos pelos pontos mais pertinentes suscitados pelo autor:
- Coerência e compromisso: gostamos de ser coerentes. Para uma pessoa que pretende viver mais e melhor, certos comportamentos são absolutamente incoerentes, demonstrar essa relação conflituosa pode provocar uma abertura importante. Identificar o que motiva cada pessoa, quais suas pretensões e seus receios, é o primeiro passo para destacar essa dinâmica. Da mesma forma, o estabelecimento de compromissos para consigo e, principalmente, para com o próximo – o médico, a esposa, o filho -, auxilia no início e na sustentação das mudanças de hábito. Firmar pequenos compromissos pode levar a compromissos maiores, de forma geral, quanto mais específicos e explícitos, melhor.
- Autoridade: a consulta médica é uma ocasião especial, muitas vezes a única oportunidade de tratar com seriedade de certas questões. Em geral, o paciente está ali por reconhecer um problema, talvez não o maior deles, mas algum problema. Aqui, o médico está revestido de autoridade especial. Quando usada com sabedoria, essa posição pode provocar drásticas transformações. Isso começa desde a forma com que recebemos os pacientes, nosso vestuário, nossa linguagem – verbal e não verbal -, nossos argumentos… Todo esse arcabouço reforça a autoridade que deve ser aplicada a favor da saúde dos que confiam em nosso trabalho, mesmo que ao fim estejamos recomendando rigorosamente a mesma coisa que a esposa do cidadão tem dito há anos.
- Afinidade: somos propensos a acolher aqueles de quem gostamos. Ser empático e compreensivo com a dor de cada paciente é um conceito batido por uma razão: ele funciona. A afinidade entre as partes otimiza os resultados de qualquer intervenção comportamental. Este breve ensaio não estaria completo sem afirmar que o poder da personalidade do terapeuta – seja médico, psicólogo, nutricionista – é um dos elementos mais decisivos no processo de persuasão e motivação. Ocorre que atendemos indivíduos muito diferentes entre si, por vezes com características e posicionamentos que não nos agradam nem um pouco. Situações assim demandam que exercitemos nossa paciência e nossa capacidade imaginativa, que será tão maior quanto nossa bagagem cultural e existencial, para tratarmos aquela pessoa, nem sempre tão afável, com a dignidade que merece.
O autor ainda aborda outros princípios, como a reciprocidade, a prova social e a escassez, que também podem ser aproveitados em cenários específicos.
Conhecer e dominar essas técnicas são a chave para uma prática clínica mais eficiente e satisfatória, para que preservemos o nosso hábito de buscar o melhor para cada paciente.
Autoria

Filipe Fernandes Justus
Conteudista de Gastroenterologia do Whitebook e Portal Afya. Médico especializado em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo HC-FMUSP. Atua em ensino médico e assistência ambulatorial e hospitalar.
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