Logotipo Afya
Anúncio
Carreira10 abril 2026

Caso clínico: Como lidar com uma violência no ambulatório?

Durante uma consulta ambulatorial, a agressividade de um paciente coloca em risco a médica e expõe limites éticos do cuidado

Era o fim de uma manhã extensa no ambulatório de clínica médica de um hospital público. A sala de espera permanecia cheia, o atraso acumulado ultrapassava uma hora e a equipe demonstrava claros sinais de exaustão. A médica assistente, acompanhada de uma residente do primeiro ano, chamou o próximo paciente: homem de 42 anos, com histórico de dor lombar crônica, múltiplas passagens pelo serviço e registros prévios de conflitos com a equipe.

Desde a entrada na sala, o paciente se mostrou hostil. Em pé, recusou-se a sentar, elevou o tom de voz e passou a reclamar do tempo de espera, questionando a competência da médica e exigindo a prescrição imediata de analgésicos opioides “mais fortes”.

A escalada da violência

Agressividade e desqualificação profissional

Em determinado momento, o paciente afirmou que “se fosse um médico homem, já teria resolvido”, insinuando que a recusa estava relacionada ao gênero da profissional. A médica manteve postura técnica e calma, explicou os limites clínicos e éticos da prescrição solicitada, apresentou alternativas terapêuticas e tentou redirecionar a consulta.

No entanto, a agressividade escalou rapidamente. Surgiram xingamentos, comentários misóginos e ameaças veladas, acompanhadas de gestos bruscos e aproximação física da mesa. A residente, visivelmente constrangida, permaneceu em silêncio, demonstrando insegurança e medo.

O dilema ético imediato

Diante da situação, a médica se viu em um dilema cada vez mais frequente na prática contemporânea: até onde insistir no cuidado quando a própria segurança — física e emocional — está ameaçada? Qual o limite entre acolher o sofrimento do paciente e tolerar violência explícita e agravada por discriminação de gênero?

Violência contra médicas: um problema estrutural

A violência contra profissionais de saúde tem crescido de forma preocupante, com impacto ainda maior sobre mulheres médicas. Além das agressões verbais e físicas, são frequentes episódios de desqualificação profissional, assédio moral e sexual, que se intensificam em contextos de sobrecarga do sistema e frustração dos usuários.

Esses episódios não podem ser naturalizados como “parte do trabalho”. A exposição contínua a esse tipo de violência está associada a burnout, adoecimento mental, redução da qualidade assistencial e abandono da carreira médica.

Limites éticos do cuidado

Segurança também é princípio ético

Do ponto de vista ético, o princípio da beneficência não se sobrepõe ao direito da médica a um ambiente de trabalho seguro. O Código de Ética Médica não exige que o profissional se submeta a risco, humilhação ou violência para garantir o atendimento. Preservar a integridade física e emocional da equipe é condição essencial para o exercício responsável da medicina e do ato de cuidar.

Percebendo que as tentativas de diálogo não surtiram efeito, a médica estabeleceu limites claros: informou que não daria continuidade à consulta diante daquele comportamento e que acionaria a segurança institucional. O atendimento foi interrompido, o paciente retirado da sala e o episódio registrado em prontuário e comunicado à chefia do serviço, conforme protocolo.

Encerrar não é abandonar

Essa decisão, muitas vezes difícil para médicos em formação, deve ser reforçada como legítima. Encerrar um atendimento por motivo de ameaça não configura abandono de paciente. A continuidade do cuidado pode — e deve — ser organizada em outro momento ou por outra equipe, desde que condições seguras sejam fornecidas para um atendimento adequado.

Ceder à violência, ao contrário, reforça comportamentos abusivos e fragiliza a prática médica.

O cuidado após o episódio

Após a saída do paciente, a médica acolheu a residente, validou seus sentimentos e compartilhou experiências semelhantes vividas ao longo da carreira.

Posteriormente, o caso foi discutido em reunião de equipe, transformando o episódio em oportunidade de aprendizado sobre estratégias de desescalada, fluxos institucionais e apoio mútuo.

Humanização também protege quem cuida

Cuidar de quem cuida é parte indissociável da humanização da saúde. Instituições devem oferecer protocolos claros, equipes de segurança treinadas, canais de denúncia e suporte psicológico e jurídico. Para as médicas, reconhecer a violência de gênero e não minimizá-la é passo fundamental para romper ciclos de adoecimento e silenciamento.

Ensinar residentes a identificar, enfrentar e registrar situações de violência é formar profissionais mais conscientes, éticos e preparados para a realidade da medicina.

Humanizar o cuidado não significa aceitar agressões — significa proteger pessoas, inclusive aquelas que estão do outro lado da mesa.

# Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Relacionamento Médico-Paciente