Era o fim de uma manhã extensa no ambulatório de clínica médica de um hospital público. A sala de espera permanecia cheia, o atraso acumulado ultrapassava uma hora e a equipe demonstrava claros sinais de exaustão. A médica assistente, acompanhada de uma residente do primeiro ano, chamou o próximo paciente: homem de 42 anos, com histórico de dor lombar crônica, múltiplas passagens pelo serviço e registros prévios de conflitos com a equipe.
Desde a entrada na sala, o paciente se mostrou hostil. Em pé, recusou-se a sentar, elevou o tom de voz e passou a reclamar do tempo de espera, questionando a competência da médica e exigindo a prescrição imediata de analgésicos opioides “mais fortes”.

A escalada da violência
Agressividade e desqualificação profissional
Em determinado momento, o paciente afirmou que “se fosse um médico homem, já teria resolvido”, insinuando que a recusa estava relacionada ao gênero da profissional. A médica manteve postura técnica e calma, explicou os limites clínicos e éticos da prescrição solicitada, apresentou alternativas terapêuticas e tentou redirecionar a consulta.
No entanto, a agressividade escalou rapidamente. Surgiram xingamentos, comentários misóginos e ameaças veladas, acompanhadas de gestos bruscos e aproximação física da mesa. A residente, visivelmente constrangida, permaneceu em silêncio, demonstrando insegurança e medo.
O dilema ético imediato
Diante da situação, a médica se viu em um dilema cada vez mais frequente na prática contemporânea: até onde insistir no cuidado quando a própria segurança — física e emocional — está ameaçada? Qual o limite entre acolher o sofrimento do paciente e tolerar violência explícita e agravada por discriminação de gênero?
Violência contra médicas: um problema estrutural
A violência contra profissionais de saúde tem crescido de forma preocupante, com impacto ainda maior sobre mulheres médicas. Além das agressões verbais e físicas, são frequentes episódios de desqualificação profissional, assédio moral e sexual, que se intensificam em contextos de sobrecarga do sistema e frustração dos usuários.
Esses episódios não podem ser naturalizados como “parte do trabalho”. A exposição contínua a esse tipo de violência está associada a burnout, adoecimento mental, redução da qualidade assistencial e abandono da carreira médica.
Limites éticos do cuidado
Segurança também é princípio ético
Do ponto de vista ético, o princípio da beneficência não se sobrepõe ao direito da médica a um ambiente de trabalho seguro. O Código de Ética Médica não exige que o profissional se submeta a risco, humilhação ou violência para garantir o atendimento. Preservar a integridade física e emocional da equipe é condição essencial para o exercício responsável da medicina e do ato de cuidar.
Percebendo que as tentativas de diálogo não surtiram efeito, a médica estabeleceu limites claros: informou que não daria continuidade à consulta diante daquele comportamento e que acionaria a segurança institucional. O atendimento foi interrompido, o paciente retirado da sala e o episódio registrado em prontuário e comunicado à chefia do serviço, conforme protocolo.
Encerrar não é abandonar
Essa decisão, muitas vezes difícil para médicos em formação, deve ser reforçada como legítima. Encerrar um atendimento por motivo de ameaça não configura abandono de paciente. A continuidade do cuidado pode — e deve — ser organizada em outro momento ou por outra equipe, desde que condições seguras sejam fornecidas para um atendimento adequado.
Ceder à violência, ao contrário, reforça comportamentos abusivos e fragiliza a prática médica.
O cuidado após o episódio
Após a saída do paciente, a médica acolheu a residente, validou seus sentimentos e compartilhou experiências semelhantes vividas ao longo da carreira.
Posteriormente, o caso foi discutido em reunião de equipe, transformando o episódio em oportunidade de aprendizado sobre estratégias de desescalada, fluxos institucionais e apoio mútuo.
Humanização também protege quem cuida
Cuidar de quem cuida é parte indissociável da humanização da saúde. Instituições devem oferecer protocolos claros, equipes de segurança treinadas, canais de denúncia e suporte psicológico e jurídico. Para as médicas, reconhecer a violência de gênero e não minimizá-la é passo fundamental para romper ciclos de adoecimento e silenciamento.
Ensinar residentes a identificar, enfrentar e registrar situações de violência é formar profissionais mais conscientes, éticos e preparados para a realidade da medicina.
Humanizar o cuidado não significa aceitar agressões — significa proteger pessoas, inclusive aquelas que estão do outro lado da mesa.
# Este conteúdo foi produzido com o suporte de ferramenta de inteligência artificial (ChatGPT) e revisado pela editora-médica Juliane Braziliano.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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