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Carreira16 maio 2026

Caso clínico: IA no limite do cuidado paliativo pediátrico

Entenda como a IA pode apoiar decisões em cuidados paliativos sem substituir o julgamento clínico, a ética médica e o cuidado humano.

Helena, 7 anos, tinha uma doença neuromuscular degenerativa avançada, múltiplas internações por insuficiência respiratória e dependência crescente de suporte ventilatório. Nas últimas semanas, a equipe já havia reconhecido que o foco do cuidado era paliativo, com prioridade para conforto, controle de sintomas e preservação da dignidade da criança.

O pai, engenheiro, passara a utilizar com frequência ferramentas de inteligência artificial para buscar artigos, simular prognósticos e organizar perguntas para as reuniões clínicas.

A mãe, exausta, alternava momentos de aceitação e culpa. Ambos depositavam enorme confiança no médico assistente, um pediatra experiente, conhecido pela competência técnica e pela habilidade em conduzir conversas difíceis.

Quando a IA entra nas decisões em cuidados paliativos

Em uma tarde, após nova piora clínica, o pai chegou ao leito com o celular em mãos e disse que uma plataforma de IA indicava “chance relevante de reversão” caso Helena fosse submetida a intubação, antibióticos de amplo espectro e transferência para terapia intensiva. Mostrou gráficos, percentuais e uma síntese de literatura produzida em segundos. Em seguida, perguntou, de forma direta, se a equipe estava “desistindo cedo demais”.

A residente, surpreendida, começou a rebater tecnicamente as informações. O ambiente ficou tenso. O médico assistente interrompeu a discussão, pediu que todos se sentassem e propôs retomar a conversa com calma.

O verdadeiro dilema: esperança, tecnologia e proporcionalidade terapêutica

O dilema não estava apenas no conflito entre uma recomendação algorítmica e o juízo clínico. O verdadeiro impasse era mais delicado: como acolher uma família que usa IA como instrumento de esperança sem permitir que uma ferramenta opaca, descontextualizada e incapaz de captar singularidades do sofrimento conduza decisões potencialmente desproporcionais e incoerentes com a realidade da paciente?

Ao mesmo tempo, rejeitar de modo defensivo a tecnologia poderia soar arrogante, romper vínculo e transformar a reunião em disputa de autoridade.

O papel do médico diante da inteligência artificial

O pediatra começou reconhecendo algo essencial: o esforço daquela família era uma forma de amor. Disse que buscar informação não era um erro e que a tecnologia pode, de fato, ampliar acesso ao conhecimento, apoiar comunicação e organizar dados, desde que usada com discernimento e sem perda da dimensão humana do cuidado. Essa visão é coerente com a leitura atual de que a incorporação de tecnologia pode tornar a assistência mais eficiente e humanizada, mas não substitui o médico nem a relação clínica.

IA trabalha com probabilidades, não com singularidades

Depois, fez o movimento mais importante da consulta: recolocou Helena no centro.

Explicou que modelos de IA trabalham com bancos de dados, probabilidades e padrões populacionais. No entanto, uma análise individualizada de cada paciente não é possível. Modelos de IA não examinam a criança, não percebem sofrimento refratário, não captam valores familiares em toda a sua complexidade e não assumem responsabilidade moral pelas consequências da conduta. Disse com clareza que, naquele contexto, intubação e escalonamento invasivo poderiam até prolongar o processo de morrer sem oferecer benefício proporcional em termos de recuperação global, conforto ou qualidade de vida.

Recordou que o dever ético do médico é agir com o máximo de zelo, utilizar o melhor do progresso científico em benefício do paciente e guardar respeito absoluto à dignidade humana.

Como integrar IA e cuidado paliativo de forma ética

Não se tratava, portanto, de ser “contra” a IA. Ao contrário: o médico propôs integrar a ferramenta de maneira ética. Pediu ao pai que compartilhasse o material obtido, revisou com a família os dados apresentados e mostrou os limites das respostas automatizadas: ausência de contexto clínico completo, possível uso de referências inadequadas, extrapolação indevida de cenários curativos para situações paliativas e falsa precisão estatística.

Explicou que a tecnologia pode apoiar a formulação de perguntas, mas a decisão médica continua exigindo deliberação prudente, comunicação transparente e responsabilidade profissional indelegável. O Código de Ética Médica estabelece que cabe ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos, usar os meios cientificamente reconhecidos pelas principais sociedades médicas em benefício do paciente e preservar sua liberdade profissional diante de imposições que prejudiquem a correção do trabalho.

Em seguida, o pediatra conduziu a conversa para um terreno mais honesto e mais humano: “O que vocês mais temem agora?” A mãe chorou e respondeu que tinha medo de que Helena sentisse falta de ar e de que, no futuro, eles pensassem não ter feito tudo. O pai admitiu que a IA lhe dava uma sensação de controle em meio ao caos. A partir daí, a reunião mudou de eixo. Em vez de discutir apenas procedimentos, passaram a discutir objetivos de cuidado.

O que significa “fazer tudo” no fim da vida?

O médico explicou que “fazer tudo” não significa necessariamente lançar mão de toda tecnologia disponível, mas fazer tudo o que é adequado para aliviar sofrimento, proteger a criança de intervenções fúteis e acompanhar a família com presença real.

Foi pactuado um plano claro: tratamento rigoroso de sintomas, possibilidade de suporte não invasivo para conforto, critérios objetivos para reavaliação e registro detalhado das decisões no prontuário. Também se combinou que dúvidas trazidas por ferramentas de IA seriam sempre acolhidas e analisadas em conjunto, sem ironia, mas sem terceirização da responsabilidade clínica. A residente, ao final, compreendeu uma lição decisiva: o médico experiente não disputa com a tecnologia nem se submete a ela; ele a enquadra eticamente, traduz seus limites e protege o paciente do uso acrítico de promessas técnicas.

IA pode apoiar, mas não substituir o cuidado humano

Esse caso ensina que, em cuidados paliativos pediátricos, a IA pode ser útil como instrumento de apoio informacional, mas jamais como árbitro do melhor interesse da criança.

Quando a tecnologia ameaça eclipsar a escuta, o vínculo e a proporcionalidade terapêutica, cabe ao médico restaurar o sentido do cuidado. A boa prática aqui não está em vencer o algoritmo, mas em impedir que ele ocupe o lugar da consciência clínica.

#Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

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Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

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