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Carreira19 outubro 2026

Até onde automatizar decisões irreversíveis em crianças?

Na Pediatria, variabilidade, desenvolvimento e vulnerabilidade tornam especialmente delicado delegar à IA decisões com consequências permanentes
Por Redação Afya

Uma decisão médica pode ser baseada em dados, protocolos e probabilidades, mas, quando envolve uma criança, existe um elemento que torna qualquer automatização mais complexa: a variabilidade. Idade, peso, fase do desenvolvimento, condições clínicas e particularidades individuais podem mudar completamente a interpretação de um mesmo dado, e também o caminho mais seguro para o tratamento.

É justamente por isso que a pediatra Dra. Vanessa do Nascimento defende cautela quando a inteligência artificial participa de decisões que podem produzir consequências difíceis de reverter. Na infância, segundo ela, a margem para erros pode ser menor, especialmente entre recém-nascidos e lactentes.

“A principal característica da Pediatria é exatamente o fato de os pacientes não seguirem um modelo específico. Na criança, tudo depende da idade, do peso e das condições da criança”, afirma.

Essa variabilidade também explica por que um protocolo, embora importante, nem sempre determina sozinho a conduta. O pediatra pode reconhecer que uma recomendação não se aplica integralmente àquele paciente e adaptar a decisão a partir do contexto clínico.

Saiba mais: Como aplicar a tomada de decisão compartilhada na consulta médica

Quando o protocolo não conta toda a história

A inteligência artificial pode avançar na interpretação de exames e dados, mas a questão central é saber se o modelo consegue considerar as inúmeras variáveis presentes em um paciente pediátrico.

“Às vezes, a gente usa os protocolos em Pediatria, mas sai do protocolo exatamente por estar avaliando e ter aquela autonomia de olhar e ver uma indicação que pode não se encaixar”, explica Dra. Vanessa.

Essa capacidade de perceber nuances ganha ainda mais importância quando uma decisão pode deixar marcas permanentes. Crianças têm uma longa expectativa de vida pela frente e, portanto, uma conduta inadequada pode comprometer etapas futuras do desenvolvimento.

Para a pediatra, recém-nascidos e lactentes merecem atenção especial por serem pacientes mais vulneráveis e mais suscetíveis às consequências de erros.

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Precisão estatística não substitui contexto

Mesmo que uma IA alcance alta precisão, isso não significa que consiga compreender integralmente cada situação individual. Antes de permitir que um algoritmo participe de uma decisão potencialmente irreversível, Dra. Vanessa considera fundamental avaliar quanto o modelo consegue compreender a variabilidade das situações pediátricas.

“Para situações irreversíveis, o critério que a gente tem que ter é exatamente esse: se o modelo aplicado vai ser capaz de avaliar todas as nuances e variáveis possíveis a ponto de a indicação ser a mais precisa possível”, pontua.

E existe uma segunda pergunta: o que acontece quando justamente aquela variável decisiva não é captada pelo sistema?

Essa é uma das razões pelas quais a presença do médico permanece essencial. Para a especialista, quando há um profissional responsável pela decisão, ele precisa ser capaz de analisar criticamente a recomendação da tecnologia e determinar se ela realmente se aplica à criança.

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A criança também deve participar da decisão

A discussão sobre autonomia não desaparece porque o paciente é menor de idade. Pelo contrário: conforme a capacidade de compreensão aumenta, a participação da criança ou do adolescente nas decisões sobre o próprio tratamento também deve ser estimulada.

“Cada vez mais a gente caminha na Medicina para que os pacientes tenham autonomia sobre seus tratamentos”, afirma a pediatra. Isso também vale para crianças e adolescentes, respeitando seu nível de maturidade e compreensão.

Nesse cenário, a tecnologia não deveria afastar o paciente do processo decisório. Ao contrário, deve ser utilizada como apoio, enquanto médico, família e paciente constroem a decisão de forma contextualizada.

No limite, a questão não é simplesmente se a inteligência artificial consegue acertar, mas se ela consegue compreender o suficiente para participar de uma decisão que pode mudar para sempre a vida de uma criança. Antes de automatizar esse tipo de escolha, é preciso conhecer as limitações do modelo, avaliar as consequências de seus possíveis erros e preservar a responsabilidade humana.

O debate integrou o Afya Summit 2026, realizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo, no dia 29 de agosto, reunindo profissionais para discutir os limites e as possibilidades da tecnologia na Medicina. Para continuar acompanhando essas conversas sobre o futuro do cuidado, fica o convite para o Afya Summit do ano que vem.

Autoria

Foto de Redação Afya

Redação Afya

Equipe de Jornalistas da Afya.

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