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Carreira25 maio 2026

A IA pode falar em nome de pacientes incapacitados em fase terminal?

Entenda como a IA e pacientes terminais levantam debates éticos sobre autonomia, decisões médicas e limites da inteligência artificial no fim da vida

A inteligência artificial pode falar em nome de pacientes incapacitados em fase terminal? Quando o paciente já não consegue mais decidir, a IA pode ajudar a reconstruir suas vontades. Mas até onde essa tecnologia pode ir sem ultrapassar limites éticos?

A medicina é marcada por decisões difíceis — e uma das mais complexas acontece quando o paciente perde a capacidade de se comunicar e alguém precisa decidir por ele.

Intubar ou não? Reanimar ou não? Manter medidas invasivas ou priorizar conforto?

São decisões que deveriam refletir aquilo que o paciente desejaria para si mesmo. O problema é que, muitas vezes, essas respostas simplesmente não estão disponíveis no momento da decisão médica.

IA e pacientes terminais: a inteligência artificial poderia prever escolhas médicas?

A discussão sobre IA e pacientes terminais surge justamente desse vazio: frequentemente não sabemos, com segurança, o que o paciente teria desejado para si próprio.

Ferrario, Gloeckler e Biller-Andorno (2023), em um artigo publicado no Journal of Medical Ethics lembram que representantes legais e familiares têm capacidade limitada de prever com exatidão as preferências reais do paciente, mesmo quando são próximos, além de enfrentarem sofrimento emocional ao fazer esse tipo de escolha em um momento de dor e pressão.

Os autores também destacam que as diretivas antecipadas feitas por alguns pacientes, são importantes, mas algumas vezes costumam ser insuficientes ou inconclusivas quando uma situação clínica exige decisões médicas rápidas e difíceis.

A proposta de usar inteligência artificial nesse contexto vem da discussão sobre frequentemente não sabermos, com segurança, o que o paciente teria desejado para si próprio. O que acontece hoje é tentar reconstruir desejos a partir de informações incompletas, como uma conversa antiga, um comentário solto, uma impressão da família, um formulário mal preenchido.

O que a IA poderia fazer em pacientes terminais?

Antes de tudo, é importante esclarecer: não se trata de uma IA tomando decisões sozinha. A discussão é sobre usar IA como ferramenta de apoio para estimar qual seria a escolha mais provável de uma paciente em uma situação específica, com base em dados clínicos e comportamentais.

Como a IA poderia reconstruir preferências do paciente?

Em ponto de vista publicado no JAMA Internal Medicine em 2024, Brender, Smith e Block (2024) sugerem um cenário em que consultas médicas poderiam ser gravadas por sistemas de voz ambiente e analisadas para identificar falas espontâneas sobre o que realmente importa para o paciente, objetivos de vida, relação com funcionalidade, sofrimento e qualidade de vida.

Os autores também comentam sobre algoritmos capazes de usar dados clínicos e comportamentais para ampliar a compreensão do prognóstico e das preferências em situações de incapacidade. Em vez de depender apenas de um formulário de diretivas antecipadas, a equipe médica e a família poderiam ter acesso à própria voz do paciente dizendo, por exemplo, o que realmente importa para ele.

Isso seria realizado com base não apenas em conversas formais sobre fim de vida, mas também em comentários simples sobre rotina, hobbies, família e autonomia.

Ferrario, Gloeckler e Biller-Andorno (2023) também trazem a ideia de ferramentas de IA usarem informações clínicas, características sociodemográficas e dados mais amplos, como histórico de decisões em saúde, contexto de vida e valores declarados, para estimar qual tratamento aquele paciente provavelmente aceitaria ou recusaria em alguns cenários.

Na prática clínica, nós já fazemos esse exercício quando conversamos com a família, tentamos entender quem era aquele paciente, como ele vivia, o que valorizava, o que provavelmente consideraria aceitável ou inaceitável para a própria vida.

O que a inteligência artificial promete, em teoria, é tornar esse processo mais estruturado, menos intuitivo e menos dependente de memórias ou da carga emocional do momento.

IA e pacientes terminais: prever não significa conhecer

Preferências em saúde não são objetos fixos e estáveis. Elas mudam ao longo do tempo e são afetadas por contexto, experiência, adaptação, medo, esperança, espiritualidade, vínculo familiar e pelo próprio processo de adoecimento.

O que um paciente diz que aceitaria hoje pode não ser o que aceitaria diante da realidade de uma doença.

O limite ético da inteligência artificial no fim da vida

Ferrario, Gloeckler e Biller-Andorno (2023) chamam a atenção para o fato de existir um viés que surge quando tentamos imaginar nosso eu do futuro e antecipar como reagiríamos a cenários de incapacidade ou dependência. Nem sempre somos bons em prever o que nós mesmos desejaríamos no futuro.

Isso bagunça um pouco a ideia de que ferramentas de IA seriam fiéis à autonomia do paciente. Porque, se a preferência humana é dinâmica, e algumas vezes contraditória, o algoritmo apenas está estimando uma probabilidade e não descobrindo uma verdade sobre o paciente.

Outro ponto é que um sistema pode gerar uma recomendação bem calibrada, com números, porcentagens e linguagem objetiva. Isso costuma passar uma sensação de confiança, mas um resultado estatisticamente convincente ainda pode estar eticamente errado ou inadequado do ponto de vista clínico.

O risco da confiança excessiva na inteligência artificial

Brender, Smith e Block (2024) também alertam para o perigo de médicos e familiares acabarem depositando confiança excessiva em uma ferramenta, tendo dificuldade em contrariar uma recomendação de um algoritmo mesmo quando ela parece não fazer sentido à luz do caso real.

Os autores usam como exemplo a analogia de motoristas que seguem o aplicativo de navegação até um caminho ruim, assim como clínicos também podem se tornar excessivamente obedientes a sistemas que parecem saber mais do que realmente sabem.

Como a IA pode ajudar sem substituir decisões humanas?

A inteligência artificial poderia ajudar a equipe a chegar mais preparada para uma conversa difícil, poderia oferecer mais contexto quando não há diretivas antecipadas, poderia organizar informações dispersas, ou até servir como um espelho, trazendo à tona incoerências entre o que está sendo proposto e o que aquele paciente talvez valorizasse.

Mas a decisão continua sendo uma construção humana, relacional, clínica e ética.

IA e pacientes terminais: o maior desafio talvez seja humano

Hoje, estamos começando a perguntar sob quais condições isso poderia ser aceitável, como evitar danos, como preservar a autonomia do paciente, como reduzir vieses, como não aprofundar desigualdades e quem deve ter a palavra final.

Nesse ponto Ferrario, Gloeckler e Biller-Andorno (2023) e Brender, Smith e Block (2024) defendem a ideia de que a IA pode ampliar, mas não substituir, o papel de familiares, representantes e profissionais. E, talvez, o maior valor da IA nessa discussão não seja prever a escolha, mas nos fazer conversar sobre algo que ainda falamos pouco: o fim da vida.

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Autoria

Foto de Juliana Karpinski

Juliana Karpinski

Editora médica assistente de Carreira da Afya. Médica e Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). MBA em Gestão Estratégica pela UFPR.

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Referências bibliográficas

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