As evidências no passado sugeriam que a ampliação do tempo de dupla terapia antiplaquetária (DAPT) oferecia benefícios antitrombóticos, principalmente em pacientes de alto risco trombótico e risco hemorrágico não significativo. Com a evolução do tratamento clínico e do surgimento de novos stents, as novas evidências apontam cada vez mais para o contrário: o encurtamento do tempo de DAPT. Entre os stents mais recentes, existem os stents biodegradáveis; além da proposta de redução do risco de trombose, estes oferecem melhor recuperação da função vascular, facilitação para futuras intervenções e redução de artefatos em exames de imagem. O stent Firehawk é um desses stents biodegradáveis que se destaca por possuir hastes ultrafinas, o polímero biodegradável com menor densidade de droga (sirolimus) e reendotelização rápida dentro de 90 dias.
Embora as diretrizes atualmente recomendem 6 a 12 meses de DAPT, não existem evidências claras que mostrem e confirmem a eficácia e segurança de estratégias mais curtas, particularmente em populações com maior risco de sangramento, como a asiática. Pelas características do stent Firehawk, acredita-se que uma menor duração de DAPT seja uma estratégia eficaz e segura. Foi exatamente isso que avaliou o estudo TARGET DAPT.
Métodos do estudo
O estudo TARGET DAPT foi um ensaio clínico randomizado de não inferioridade realizado em 36 centros na China. A pesquisa comparou a estratégia de 3 meses versus 12 meses de DAPT em 2445 pacientes com Síndrome Coronariana Aguda (SCA) sem supra e DAC crônica submetidos à angioplastia com stent Firehawk; 1222 foram randomizados para o grupo de curta duração (3 meses) e 1223 para o regime de duração de DAPT padrão (12 meses). O desfecho primário foi composto por morte por todas as causas, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e sangramento maior (BARC tipo 2, 3 ou 5) aos 18 meses. Entre os desfechos secundários estavam eventos cardiovasculares maiores (MACE) e sangramentos maiores isoladamente.
Os resultados mostraram que a incidência do desfecho primário foi semelhante entre os grupos: 10,1% no grupo de 3 meses versus 10,9% no de 12 meses. A não inferioridade foi estabelecida com uma diferença absoluta de -0,76% (IC unilateral de 97,5%: até 1,70%; p < 0,001). Não houve diferença significativa nos eventos isquêmicos (MACE: 3,5% vs 3,9%; p = 0,54), nem na trombose de stent (p = 0,69). Na análise entre 3 e 18 meses, observou-se uma redução significativa de sangramentos maiores no grupo de 3 meses (2,7% vs 4,4%; p = 0,03). Na avaliação de subgrupo, pacientes com idade maior do que 65 anos e pacientes com disfunção renal tiveram maior benefício na redução de sangramento sem aumento de eventos isquêmicos.
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Principais resultados:
- Estratégia de curta duração de DAPT foi não inferior em relação ao desfecho primário.
- Na análise temporal entre 3 e 18 meses, a estratégia de curta duração foi mais segura.
- O benefício foi maior em pacientes idosos e com disfunção renal.
Alguns pontos foram apontados como limitações pelos próprios autores: 1 – Desenho aberto com risco de vieses; 2 – A pandemia de COVID-19 pode ter prejudicado a adesão e justificar que a adesão ao protocolo de 3 meses foi de apenas 71%; 3 – A população exclusivamente chinesa não permite uma generalização para outras populações; 4 – Pacientes com infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST foram excluídos, pacientes considerados de mais alto risco trombótico.
Mensagem prática
O estudo TARGET DAPT traz como mensagens principais que o tempo menor de DAPT é equivalente em relação a eficácia, além de ser mais seguro, principalmente, em indivíduos em que o risco de sangramento é maior. É mais uma evidência que fortalece o entendimento de que o menos é mais em relação ao tempo de DAPT. No cenário de prática clínica em que o grande problema da DAPT sempre foi a questão de sangramentos, o encurtamento do tempo de DAPT parece ser a conduta com melhor relação risco benefício.
Autoria

Ivson Braga
Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cardiologia pela Universidade de Pernambuco (UPE). Professor universitário e coordenador da Residência em Cardiologia.
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