Na sessão de Atualizações em Cardiologia do ACP 2026, em São Francisco, seis ensaios recentes chamaram atenção por seu potencial de mudar condutas em antitrombose, hipertensão, doença isquêmica crônica e intervenção coronária: AQUATIC, API-CAT, BEDMED, WARRIOR, STOPDAPT-3 e TARGET DAPT. Em comum, eles reforçam uma cardiologia menos guiada por intensificação automática e mais por seleção do paciente certo, no momento certo.
AQUATIC: aspirina tardia em anticoagulado crônico pode fazer mal
O AQUATIC incluiu 872 pacientes com síndrome coronariana crônica, angioplastia prévia há mais de seis meses, alto risco aterotrombótico e uso prolongado de anticoagulação oral. Aspirina 100 mg/dia foi comparada com placebo. O estudo foi interrompido precocemente após mediana de dois anos por excesso de mortalidade no grupo aspirina. O desfecho de eficácia ocorreu em 16,9% com aspirina versus 12,1% com placebo, e sangramento maior foi mais frequente com aspirina (10,2% versus 3,4%). Para a prática, o estudo favorece anticoagulação isolada na fase tardia desses pacientes, salvo outra indicação clara de antiagregação.
API-CAT: apixabana reduzida é opção após 6 meses no câncer associado à TEV
O API-CAT avaliou 1.766 pacientes com câncer ativo e tromboembolismo venoso proximal tratados previamente por pelo menos seis meses. Na fase de extensão por 12 meses, apixabana 2,5 mg duas vezes ao dia foi não inferior à dose de 5 mg para recorrência de TEV (2,1% versus 2,8%) e reduziu sangramento clinicamente relevante (12,1% versus 15,6%). Embora seja um estudo de interface com cardio-oncologia, seu efeito prático é importante para a cardiologia hospitalar e ambulatorial: em pacientes oncológicos selecionados, a manutenção em dose reduzida passa a ser uma estratégia plausível para equilibrar recorrência e sangramento.
BEDMED: cronoterapia não reduziu eventos cardiovasculares
O BEDMED testou se tomar anti-hipertensivos à noite protege mais do que pela manhã. Em 3.357 adultos hipertensos acompanhados por mediana de 4,6 anos, o uso noturno não reduziu morte nem eventos cardiovasculares maiores. O desfecho primário ocorreu a 2,3 por 100 pacientes-ano no grupo noite e 2,4 por 100 pacientes-ano no grupo manhã, sem diferença também em quedas, fraturas, glaucoma ou declínio cognitivo. A principal implicação clínica é abandonar a prescrição universal de horário noturno: o melhor horário passa a ser o que melhora adesão e tolerabilidade.
WARRIOR: INOCA segue como fronteira terapêutica difícil
O WARRIOR randomizou 2.476 mulheres com suspeita de INOCA para terapia intensiva com estatina de alta intensidade, IECA ou BRA em dose máxima tolerada e aspirina, versus cuidado usual. Em cinco anos, não houve redução significativa do primeiro MACE: 17,84% no grupo intensivo e 16,17% no grupo controle. Os eventos foram fortemente influenciados por hospitalizações por dor torácica. O resultado é neutro, mas relevante: confirma que INOCA não é condição benigna, embora ainda falte uma estratégia padronizada capaz de modificar desfechos. O recado prático é manter controle rigoroso de fatores de risco, mas com expectativa realista e maior individualização.
STOPDAPT-3: retirar aspirina imediatamente após PCI ainda é cedo demais
O STOPDAPT-3 comparou monoterapia imediata com prasugrel versus dupla antiagregação com aspirina e prasugrel em 5.966 pacientes japoneses submetidos à intervenção coronária percutânea, a maioria com síndrome coronariana aguda ou alto risco hemorrágico. Em 30 dias, a monoterapia não foi superior para reduzir sangramento maior (4,47% versus 4,71%) e mostrou sinais de maior risco isquêmico precoce, com mais revascularização não planejada e mais trombose subaguda de stent. Portanto, a retirada da aspirina já no pós-PCI imediato não deve substituir a dupla antiagregação no primeiro mês, sobretudo em cenários agudos.
TARGET DAPT: DAPT abreviada pode funcionar em contexto selecionado
O TARGET DAPT randomizou 2.445 pacientes tratados com stent Firehawk para três versus 12 meses de dupla antiagregação. O desfecho composto de morte, infarto, AVC e sangramento maior em 18 meses foi semelhante entre os grupos (10,1% versus 10,9%), estabelecendo não inferioridade da estratégia curta. Na análise de 3 a 18 meses, houve menos sangramento maior com três meses de DAPT. O estudo apoia a abreviação da DAPT em plataformas contemporâneas e pacientes bem selecionados, mas a extrapolação deve considerar tipo de stent, perfil isquêmico e risco de sangramento.
Em síntese, os trabalhos discutidos no ACP 2026 convergem para uma mensagem prática: simplificar tratamento quando isso reduz dano sem sacrificar eficácia. AQUATIC e API-CAT refinam a anticoagulação; BEDMED encerra uma controvérsia comum; WARRIOR lembra que INOCA ainda exige melhor fenotipagem; e STOPDAPT-3 e TARGET DAPT ajudam a individualizar a duração da antiagregação após PCI.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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