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CardiologiaMAI 2022

Suplementação de cálcio e estenose aórtica

Estudo mostrou que a suplementação de cálcio está ligada à queda da qualidade da função cardíaca com demanda de troca da válvula aórtica.

Por Gabriela Queiroz

Um estudo publicado pela Heart em 25 de abril desse ano, liderado pela equipe de pesquisadores do Dr. Nicholas Kassis da Cleveland Clinic Foundation, Cleveland, Ohio evidenciou que a suplementação oral de cálcio está intimamente relacionada à queda da qualidade da função cardíaca com necessidade de troca da válvula aórtica mais precisamente em pacientes portadores de estenose aórtica moderada a severa.

Dr. Kassis relata que a suplementação de cálcio nessa população não confere nenhum benefício cardíaco, ao contrário, pode promover prejuízo ao coração, principalmente quando essa suplementação não é realmente necessária.

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Suplementação de cálcio e estenose aórtica

Estenose aórtica

A estenose aórtica é a doença cardíaca mais comumente desenvolvida principalmente na população mais idosa, tendo uma prevalência de 2% na população de 65 anos e de 4% na população acima de 85 anos. Essa condição é causada pela calcificação severa e progressiva da válvula ao longo dos anos levando a imobilidade dos folhetos valvares e consequente obstrução do fluxo sanguíneo local, determinando o aumento da mortalidade caso não tratado quando se inicia os sintomas. Como ainda não existe nenhum medicamento eficaz para tratar essa condição, o tratamento cirúrgico é o único indicado com a reposição valvar.

Apesar de ser uma doença típica da população idosa alguns fatores contribuem para o seu desenvolvimento como hipercolesterolemia, tabagismo, hipercalcemia, excesso do hormônio paratireoideo e excesso de vitamina D3. Como atualmente existe um aumento desenfreado do uso de suplementos tanto de vitamina D como cálcio principalmente em mulheres pós-menopausa para prevenção ou tratamento da osteoporose, é necessário um controle maior da função cardíaca nessas pacientes.

Met0dologia do estudo

O estudo em questão incluiu 2.657 pacientes com uma média de 74 anos sendo 42% do sexo feminino com estenose aórtica moderada a severa, selecionados da database do departamento de ecocardiografia da clinica de Cleveland durante os anos de 2008 a 2016 seguidos de uma duração média de 69 meses.

Desses pacientes, 49% não fizeram uso de nenhuma suplementação, 12% suplementaram apenas com vitamina D e 39% suplementaram com cálcio acompanhado ou não de vitamina D.

Os resultados evidenciaram que o risco absoluto de mortalidade por causas cardíacas foi de 13,7 em 1.000 pacientes que fizeram uso de suplementação a base de cálcio com ou sem vitamina D, comparado com 9,6 que fizeram uso apenas de vitamina D e 5,8 que não fizeram uso de nenhuma suplementação. Cirurgia de troca valvar foi realizada em quase metade dos pacientes que suplementaram com cálcio comparado com apenas 11% dos pacientes que não utilizaram nenhum suplemento. Os pacientes que não realizaram a troca valvar tiveram maior risco de mortalidade.

Em uma análise pregressa de ajuste multivariável, o uso de suplementação de cálcio associada ou não a vitamina D estava relacionada a maiores taxas de mortalidade cardíaca, o que não foi observado nos pacientes que fizeram uso apenas de suplementação com vitamina D.

Saiba mais: Avaliação do cálcio coronário ou escores de risco para predição de eventos cardiovasculares e indicação de estatina?

“De acordo com essa ampla amostragem e extenso follow-up demonstrado nesse estudo, a suplementação com cálcio não confere nenhum benefício cardiovascular, mas pelo contrário, reflete um maior risco da necessidade de troca valvar aórtica e aumento dos riscos de mortalidade cardíaca principalmente naqueles pacientes que não se submeteram a cirurgia de correção aórtica”, relata os autores do estudo.

Além disso, o processo de calcificação valvar aórtica acaba entrando em um ciclo vicioso levando a um aumento gradativo da obstrução, uma vez que o desbalanço do metabolismo do fosfato de cálcio aumenta o desenvolvimento da esclerose valvar e da estenose aórtica calcificada, levando também a uma desregulação da função renal e desenvolvimento de hiperparatireoidismo secundário.

É importante também salientar a necessidade de mitigar os fatores de risco com uma alimentação balanceada e uso de medicações que diminuam esses fatores a fim de promover tratamentos menos invasivos a esses pacientes.

Portanto, o uso da suplementação de cálcio deve ser revista e individualizada e quando efetivamente indicada deve-se sempre realizar uma avaliação minuciosa dos fatores de risco cardíacos de cada paciente, principalmente aqueles relacionados à estenose aórtica. Exames de imagem específicos para a visualização de calcificações aórticas devem ser sempre realizados e em pacientes com calcificação valvar e alto risco cardíaco, a suplementação deve ser evitada ou até mesmo contraindicada.

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Referências bibliográficas

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