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Cardiologia22 janeiro 2026

Score metabólico para resistência à insulina e incidência de doença cardiovascular

Meta-análise avaliou o METS-IR como preditor de doença cardiovascular, coronariana e AVC, destacando risco aumentado e relação dose-resposta.

A doença cardiovascular (DCV) é a principal causa de mortalidade no mundo, responsável por aproximadamente 17,9 milhões de óbitos anuais. Entre os fatores de risco metabólicos, a resistência à insulina (RI) ocupa papel central, promovendo disfunção endotelial, inflamação e aterosclerose. Tradicionalmente, a avaliação da RI depende da dosagem de insulina em jejum e do índice HOMA-IR, o que limita sua aplicabilidade na prática clínica. 

Para contornar essa limitação, foram propostos índices substitutos não dependentes da insulina, como o índice triglicerídeo-glicose (TyG), o índice triglicerídeo-glicose-índice de massa corporal (TyG-BMI) e o metabolic score for insulin resistance (METS-IR), que utiliza glicemia, triglicerídeos, HDL e índice de massa corporal (IMC). O METS-IR demonstrou boa correlação com o método padrão-ouro (clamp hiperinsulinêmico euglicêmico) e boa capacidade preditiva para obesidade visceral, diabetes incidente e rigidez arterial. 

Apesar de evidências crescentes de associação entre METS-IR e DCV em estudos de coorte, não havia até então uma metanálise que quantificasse de forma sistemática essa relação. Assim, o presente estudo teve como objetivo avaliar a associação entre níveis basais de METS-IR e a incidência de DCV, doença arterial coronariana (DAC) e acidente vascular cerebral (AVC) em adultos sem DCV prévia, bem como explorar a relação dose-resposta entre o METS-IR e estes desfechos. 

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Métodos 

Esta revisão sistemática e meta-análise foi conduzida conforme as diretrizes PRISMA 2020 e registrada no PROSPERO. Foram pesquisadas as bases PubMed, EMBASE, Cochrane Library e Web of Science até 2 de agosto de 2025, sem restrições de idioma. Foram incluídos estudos de coorte (prospectivos ou retrospectivos) que: avaliaram o METS-IR basal (utilizando a fórmula ln[92 x Glicose) + Triglicerídeos] x IMC / ln[HDL]) em adultos sem DCV prévia, relataram incidência de DCV, DAC ou AVC e apresentaram hazard ratios (HR) ajustados por potenciais confundidores. A qualidade dos estudos foi avaliada através da escala Newcastle-Ottawa (NOS). 

Resultados 

Após triagem de 674 estudos relevantes obtidos através da busca inicial, foram incluídos 8 estudos de coorte, totalizando 437.283 participantes sem DCV no início do acompanhamento, provenientes da China (5 estudos), Coreia do Sul (2) e Irã (1). O tempo médio de seguimento variou de 1,98 a 17,9 anos, e a idade média dos participantes de 39 a 60 anos. A qualidade metodológica foi elevada (escores NOS entre 6 e 9). Todos os estudos ajustaram as análises por idade, sexo, tabagismo, hipertensão, diabetes e perfil lipídico. 

A presença de METS-IR elevado foi associado a um aumento de 65% no desfecho composto de DCV, DAC e AVC. Cada aumento de 1 desvio-padrão (DP) no METS-IR aumentou em 16% o risco de DCV. A análise de dose-resposta sugeriu que o risco de DCV se acelera com METS-IR acima de 40,6. 

Já na análise isolada de DAC, a presença de METS-IR elevado aumentou em 82% o risco deste desfecho, enquanto cada aumento de 1 DP no índice elevou em 18% o risco de DAC. Quanto à associação com AVC, por sua vez, houve aumento de 47% no risco na presença de METS-IR elevado e elevação de 13% no risco do desfecho para aumento de 1 DP no índice. 

As análises de sensibilidade confirmaram a robustez dos achados, e as correções para possível viés de publicação mantiveram a significância dos resultados. 

Conclusões 

Esta meta-análise demonstrou que níveis elevados de METS-IR estão associados a aumento significativo na incidência de DCV, DAC e AVC, com padrões não lineares de risco — especialmente pronunciados para DAC. Os valores críticos identificados podem servir futuramente como limiares clínicos de alerta para intensificação de estratégias preventivas. O METS-IR pode se constituir em um marcador independente e robusto de risco para doença cardiovascular, doença arterial coronarianae acidente vascular cerebral, mesmo em populações sem DCV prévia. 

Os resultados são consistentes com meta-análises prévias que relacionaram outros índices de RI, como HOMA-IR e TyG, à ocorrência de eventos cardiovasculares, mas o METS-IR apresenta vantagens práticas por dispensar a dosagem de insulina e utilizar parâmetros laboratoriais rotineiros. 

Os achados sustentam a avaliação de incorporação do METS-IR em estratégias de triagem e manejo metabólico, especialmente em contextos com recursos limitados. Futuras pesquisas devem validar esses resultados em outras populações e investigar o impacto de intervenções que reduzam o METS-IR sobre a prevenção de eventos cardiovasculares. 

Autoria

Foto de Fernando Giuffrida

Fernando Giuffrida

Graduação em Medicina (1999) - Universidade Federal de São Paulo; Residência Médica em Clínica Médica e Endocrinologia (2002) - Universidade Federal de São Paulo; Titulo de Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia-SBEM (2002); Doutorado em Ciências (2008) - Universidade Federal de São Paulo; Pós-Doutorado no Joslin Diabetes Center/Harvard Medical School (2017-2019).VÍNCULOS ATUAIS: Preceptor do Programa de Residência Médica em Endocrinologia do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia (CEDEBA), Salvador-BA; Professor Adjunto da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e orientador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGFARMA) da mesma instituição; Professor do Curso de Medicina do Centro Universitário Dom Pedro II (UNIDOMPEDRO), Salvador-BA; Professor do Curso de Medicina da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), Salvador-BA; Professor Colaborador e Orientador do Programa de Pós-Graduação em Endocrinologia da UNIFESP.

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