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Cardiologia26 novembro 2025

ACLS AHA 2025: tratamento de arritmias

Veja recomendações do ACLS AHA 2025 para arritmias: taquicardias, FA/flutter, cardioversão, adenosina, bradicardia e marcapasso.
Por Isabela Abud Manta

As diretrizes do ACLS orientam a abordagem das principais emergências cardiovasculares em adultos, incluindo o tratamento das taquiarritmias e bradiarritmias.

No contexto das arritmias, a conduta depende principalmente de três pontos:

  • presença ou ausência de instabilidade hemodinâmica;
  • tipo de arritmia identificada;
  • necessidade de cardioversão, medicação ou marcapasso.

Neste artigo, resumimos os principais pontos sobre o tratamento das arritmias no ACLS, com foco em taquicardias de complexo largo, taquicardias de complexo estreito, fibrilação atrial, flutter atrial e bradicardias.

Arritmia no esforço tem significado prognóstico? 

Imagem de DC Studio/freepik

Taquicardias de complexo largo

As taquicardias de complexo largo são aquelas com frequência cardíaca maior que 150 bpm e QRS maior ou igual a 0,12 segundo.

Podem ter origem ventricular ou supraventricular, como nos casos de:

  • bloqueio de ramo;
  • condução por feixe anômalo;
  • marcapasso ventricular.

A conduta depende da estabilidade hemodinâmica. Em pacientes estáveis, há tempo para realizar ECG, obter acesso venoso e considerar tratamento medicamentoso. Já nos pacientes instáveis, geralmente está indicada cardioversão elétrica sincronizada imediata.

Os principais critérios de instabilidade são:

  • hipotensão;
  • alteração aguda do nível de consciência;
  • sinais de choque;
  • dor torácica sugestiva de isquemia;
  • insuficiência cardíaca aguda.

Taquicardia de complexo largo monomórfica

Na taquicardia de complexo largo monomórfica, com complexos semelhantes entre si, a presença de instabilidade indica cardioversão elétrica sincronizada imediata com carga de 100 J.

Se o paciente estiver estável, podem ser consideradas manobras vagais ou adenosina, pela possibilidade de taquicardia supraventricular com bloqueio de ramo, feixe anômalo ou marcapasso ventricular. Caso não haja sucesso, a cardioversão elétrica sincronizada também é recomendada.

Em alguns casos, pode-se considerar medicação endovenosa, como amiodarona, procainamida ou sotalol. A amiodarona é uma das medicações mais utilizadas, na dose de 150 mg em 10 minutos, podendo ser repetida se necessário. Após a reversão do ritmo, deve ser mantida na dose de 1 mg/min por 6 horas.

Apesar do uso frequente, a amiodarona pode causar hipotensão e piorar o quadro clínico.

Taquicardia ventricular polimórfica e torsades de pointes

Na taquicardia ventricular polimórfica, com complexos QRS diferentes entre si, recomenda-se choque dessincronizado, ou seja, desfibrilação imediata com carga máxima do aparelho, pois essa arritmia é considerada hemodinâmica e eletricamente instável.

As principais causas incluem:

  • intervalo QT longo, congênito ou induzido por medicamentos;
  • isquemia miocárdica;
  • taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica;
  • QT curto;
  • causas mais raras.

Nos casos de QT longo, como torsades de pointes, recomenda-se magnésio endovenoso para reduzir a chance de recorrência, além da correção de eletrólitos, especialmente hipocalemia.

Quando a taquicardia não está relacionada a QT longo, recomenda-se tratar a causa e considerar medicações para reduzir recorrência, como betabloqueadores, lidocaína ou amiodarona.  

Taquicardias de complexo estreito 

As taquicardias de complexo estreito incluem taquicardia sinusal, flutter atrial, fibrilação atrial, taquicardias supraventriculares e outras taquicardias atriais.

Na maioria dos casos, essas arritmias são estáveis, permitindo a realização de ECG, obtenção de acesso venoso e administração de medicações.

Quando há instabilidade hemodinâmica, está indicada cardioversão elétrica sincronizada imediata, geralmente com carga de 100 J nas taquicardias supraventriculares.

Taquicardia supraventricular regular

Nos pacientes estáveis com taquicardia supraventricular, o tratamento inicial deve ser feito com manobras vagais. A taxa de reversão é de cerca de 20% a 30%, podendo chegar a 50% com a manobra vagal modificada.

Se a arritmia for regular, de QRS estreito, e não houver resposta à manobra vagal, está indicada adenosina, na dose inicial de 6 mg, podendo ser repetida na dose de 12 mg.

A adenosina tem maior taxa de sucesso em:

  • taquicardia por reentrada nodal AV;
  • taquicardia por reentrada AV;
  • algumas taquicardias atriais.

Em casos de flutter atrial ou fibrilação atrial, a adenosina geralmente não reverte a arritmia, mas pode bloquear temporariamente o nó AV e ajudar no diagnóstico do ritmo.

A administração deve ser feita em bolus rápido, seguida de flush de soro e elevação do membro. Deve-se ter cuidado em pacientes asmáticos, pelo risco de broncoespasmo. Pacientes com acesso venoso central ou transplantados cardíacos devem receber dose menor.

Caso o paciente não tenha resolução da arritmia com a medicação ou tenha contraindicação a ela, pode-se considerar CVE sincronizada. Outra opção é a utilização de betabloqueadores, diltiazem ou verapamil endovenosos. Porém, cuidado com efeito adverso de hipotensão e com pacientes com possam ter disfunção ventricular, nos quais essas medicações são contraindicadas.

Fibrilação atrial e flutter atrial no ACLS

A FA é um ritmo atrial desorganizado como consequência de múltiplos circuitos de reentrada no átrio. Já o flutter atrial é mais organizado, causado por um macrocircuito de reentrada atrial.

Na fibrilação atrial e no flutter atrial com alta resposta ventricular e instabilidade, está indicada cardioversão elétrica sincronizada imediata, com carga de 200 J em desfibriladores bifásicos. É importante esclarecer se a arritmia é causa da instabilidade ou consequência de algum outro quadro, como sepse por exemplo.

Quando a FA ou o flutter têm menos de 48 horas, pode-se considerar reversão do ritmo. Em arritmias com duração superior, prefere-se controle de frequência devido ao risco de eventos tromboembólicos, especialmente em pacientes sem anticoagulação.

Controle de frequência e controle de ritmo

O controle de frequência pode ser feito com:

  • metoprolol;
  • esmolol;
  • diltiazem;

Já o controle de ritmo pode incluir:

  • amiodarona;
  • procainamida;

A amiodarona também pode auxiliar no controle de frequência em pacientes com disfunção ventricular, nos quais outras medicações podem ser contraindicadas. A digoxina é menos usada pelo maior tempo para início de ação.

Doses de medicações endovenosas

As doses recomendadas das medicações endovenosas são:

  • Metoprolol: 2,5-5mg em 2 minutos. Pode ser repetido até 3 vezes. 
  • Esmolol: 500mcg/kg em 1 minuto. Manutenção de 50-300mcg/kg/min 
  • Diltiazem: 0,25mg/kg em 2 minutos. Manutenção de 5-10mg/h 
  • Verapamil: 0,075-0,15mg/kg em 2 minutos. Pode ser repetido em 30 minutos. Manutenção de 0,005mg/kg/min. 
  • Amiodarona: 300mg em 1 hora. Manutenção de 10-50mg/h por 24 horas 
  • Digoxina: 0,25mg, pode ser repetida até máximo de 1,5mg em 24 horas. 

Bradicardias no ACLS

A bradicardia é definida como frequência cardíaca menor que 50 batimentos por minuto. Pode ser um achado normal em adultos saudáveis, atletas e durante o sono.

Na prática clínica, o paciente pode se apresentar de três formas:

  • assintomático;
  • sintomático;
  • instável.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • tontura;
  • turvação visual;
  • alteração do nível de consciência;
  • desconforto torácico;
  • insuficiência cardíaca;
  • hipotensão;
  • síncope.

Antes de iniciar o tratamento, é importante investigar causas reversíveis, como isquemia, hipóxia e distúrbios eletrolíticos. Também deve-se avaliar se a bradicardia decorre de alteração primária do sistema de condução.

Tratamento da bradicardia sintomática

Se houver comprometimento hemodinâmico, a medicação inicial é atropina, na dose de 1 mg. A dose pode ser repetida a cada 3 a 5 minutos, até o máximo de 3 mg.

Caso o paciente persista instável, podem ser utilizadas medicações endovenosas em bomba de infusão, como:

  • epinefrina: 2-10 mcg/min;
  • dopamina: 5-20 mcg/kg/min.

Outra opção é o marcapasso transcutâneo, especialmente enquanto o marcapasso transvenoso não está disponível.

O marcapasso transcutâneo é efetivo, mas costuma ser doloroso e geralmente exige analgesia potente, podendo requerer sedação.

Em pacientes com bradicardia instável por bloqueio atrioventricular de alto grau e sem acesso venoso, o marcapasso transcutâneo deve ser considerado desde o início.

Se uma causa reversível for corrigida e houver recuperação do ritmo e da frequência cardíaca, o paciente pode não necessitar de medicações ou dispositivos adicionais. Caso não haja causa reversível ou não ocorra recuperação, deve-se solicitar avaliação especializada para definir necessidade de marcapasso definitivo.

Conclusão

O tratamento das arritmias no ACLS depende de uma avaliação rápida da estabilidade hemodinâmica, da identificação do tipo de ritmo e da escolha adequada entre cardioversão, medicações e marcapasso.

Nas taquiarritmias, a presença de instabilidade geralmente indica cardioversão elétrica imediata. Já nos pacientes estáveis, há tempo para realizar ECG, obter acesso venoso, avaliar a largura do QRS e considerar manobras vagais, adenosina, antiarrítmicos ou controle de frequência, conforme o ritmo identificado.

Nas bradiarritmias, a prioridade é reconhecer sintomas, investigar causas reversíveis e iniciar atropina quando houver comprometimento hemodinâmico. Se a instabilidade persistir, epinefrina, dopamina ou marcapasso transcutâneo podem ser necessários até avaliação definitiva.

 

Este conteúdo foi atualizado em: 30/06/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

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