Logotipo Afya
Anúncio
Cardiologia30 janeiro 2026

Finerenona e rigidez arterial em pacientes com diabetes tipo 2 e DRC

Finerenona em DM2 e DRC: estudo FIVE-STAR avalia rigidez arterial, biomarcadores cardiorrenais e confirma redução da albuminúria com segurança clínica.
Por Ivson Braga

A finerenona é um antagonista não esteroidal do receptor mineralocorticoide indicado no tratamento da doença renal crônica em pacientes diabéticos tipo 2 (DM2), reduzindo a progressão da doença renal crônica (DRC) e o risco de eventos cardiovasculares maiores. Essa indicação é baseada nas evidências dos ensaios FIDELIO-DKD e FIGARO-DKD. Evidências mais recentes (FINEARTS-HF) ampliaram a indicação para a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada/levemente reduzida. Mesmo diante desse cenário positivo de benefícios cardiorrenais, ainda não se conhecem todos os mecanismos fisiopatológicos protetores relacionados a esses resultados. 

O estudo FIVE-STAR (Effects of finerenone on arterial stiffness and cardiorenal biomarkers in patients with type 2 diabetes and chronic kidney disease: a randomised placebo-controlled mechanistic trial (FIVE-STAR) | Cardiovascular Diabetology | Springer Nature Link) avaliou dois possíveis mecanismos envolvidos na proteção cardiorrenal da finerenona: (1) a rigidez arterial, medida pelo cardio-ankle vascular index (CAVI), e (2) alterações em biomarcadores cardiorrenais em pacientes com DM2 e DRC. 

Foram incluídos 101 pacientes de 13 centros no Japão com DM2 e DRC (TFG entre 25 e <90 mL/min/1,73 m² e relação albumina/creatinina urinária (RACU) entre 30 e < 3500 mg/g). Outros desfechos secundários relacionados a biomarcadores renais e análises exploratórias de proteômica foram avaliados. A idade mediana foi  de 73 anos, composta a maioria de homens (66%), a taxa de filtração glomerular estimada basal de 56,2 mL/min/1,73 m² e alta taxa de uso de inibidores de SGLT2 (64%). A maioria dos pacientes tinham longa história de diabetes, bom controle glicêmico e elevada prevalência de comorbidades cardiovasculares, como hipertensão arterial e dislipidemia. Os participantes receberam finerenona (dose ajustada conforme função renal) ou placebo por 24 semanas. 

A rigidez arterial avaliada pelo CAVI não apresentou diferença significativa entre os grupos. A rigidez basal foi semelhante, com mediana de 9,5 tanto no grupo finerenona quanto no grupo placebo. Após 24 semanas, a mudança ajustada do CAVI foi de −0,023 no grupo finerenona (IC95% −0,299 a 0,254) e de 0,011 no grupo placebo (IC95% −0,245 a 0,267). A diferença entre os grupos foi de −0,057 (IC95% −0,428 a 0,314), sem significância estatística.  

Leia também: Eficácia e segurança cardiovascular da finerenona

Em relação a relação albumina/creatinina urinária, a finerenona apresentou benefícios consistentes. Na semana 12, a redução proporcional da RACU foi maior no grupo finerenona, com razão entre os grupos de 0,706 (IC95% 0,504 a 0,989; p=0,043). Na semana 24, essa diferença se manteve, com razão de 0,709 (IC95% 0,506 a 0,994; p=0,046), correspondendo a uma redução relativa de aproximadamente 29% da albuminúria em comparação ao placebo. Além disso, uma redução de pelo menos 30% da RACU foi observada em 68,8% dos pacientes tratados com finerenona, frente a 45,8% no grupo placebo, resultando em um odds ratio de 2,593 (IC95% 1,124 a 5,987; p=0,026). 

A taxa de filtração glomerular estimada apresentou queda precoce e mais pronunciada no grupo finerenona com diferenças estatisticamente significativas ao longo do seguimento. Apesar disso, não houve aumento concomitante de biomarcadores urinários de lesão tubular aguda, e os demais biomarcadores renais avaliados não diferiram significativamente entre os grupos.  

A pressão arterial sistólica reduziu-se de forma mais acentuada no grupo finerenona, com diferença média de −6,1 mmHg em relação ao placebo ao final de 24 semanas (IC95% −12,1 a −0,1; p<0,05). Observou-se também aumento discreto dos níveis séricos de potássio no grupo finerenona em comparação ao placebo, sem repercussões clínicas relevantes. 

A análise proteômica exploratória identificou alterações nominais na expressão de 11 proteínas circulantes associadas a inflamação, remodelamento tecidual e doença cardiovascular. Entre essas, seis proteínas apresentaram redução e cinco aumento no grupo finerenona em comparação ao placebo. Entretanto, essas diferenças não permaneceram significativas após correção para múltiplas comparações, 

Em relação à segurança, a presença de eventos adversos graves foi semelhante entre os grupos, ocorrendo em 9,8% dos pacientes tratados com finerenona e em 10,0% daqueles que receberam placebo. Não foram registrados casos de lesão renal aguda nem episódios de hipercalemia associados a hospitalização ou óbito. 

Apesar do resultado neutro sobre a rigidez arterial, diferentemente de dados experimentais de outros antagonistas mineralocorticoides clássicos, importante destacar que a idade mediana > 70 anos pode justificar uma rigidez arterial permanente, o uso concomitante de inibidores de SGLT2 pode limitar algum ganho vascular adicional e o tempo de seguimento curto pode justificar a não identificação de benefícios. O trabalho não mostrou uma correlação entre mudanças no CAVI e na RACU e a análise proteômica gera hipótese da participação de vias não hemodinâmicas (via anti-inflamatórias e antifibróticas). 

No mais, os efeitos sobre a albuminúria e função renal estão condizentes com as principais evidências já publicadas sobre a nefroproteção da finerenona. Ao não se demonstrar benefícios sobre a rigidez arterial, o desafio de se buscar respostas mecanicistas da ação da medicação continuam.  

 

Autoria

Foto de Ivson Braga

Ivson Braga

Redator em cardiopapers

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Cardiologia