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Cardiologia2 julho 2026

Escore de sangramento para pacientes com trombose relacionada a câncer

Novo escore ONCO-DOAC BLEED estima o risco de sangramento em pacientes com câncer, TEV e uso de anticoagulantes orais diretos.

Pacientes com câncer tem tido aumento da sobrevida no mundo todo, porém, o tromboembolismo venoso (TEV) continua sendo complicação comum, grave e com tratamento desafiador, já que esses pacientes têm alto risco de recorrência de TEV e de sangramento durante o uso de anticoagulantes. 

A estratificação do risco de sangramento nesses pacientes é limitada. Alguns escores já foram propostos, como o CAT-BLEED e o Perform, porém são complexos, com validação externa limitada e poder discriminativo modesto.  

Assim, foi desenvolvido um novo escore para predição de risco de sangramento em pacientes com TEV associado a câncer que estão em tratamento com anticoagulantes orais diretos (DOAC). Esse escore foi desenvolvido a partir de uma coorte de pacientes do mundo real (registro COMMAND VTE) e foi realizada sua validação externa. Abaixo seguem os principais pontos deste estudo. 

Veja também: Mecanismos e tratamentos nos pacientes oncológicos com trombose venosa profunda

trombose relacionada a câncer

Métodos do estudo e população envolvida 

O Registro COMMAND VTE é uma coorte retrospectiva multicêntrica que incluiu 5197 pacientes com TEV agudo sintomático em 31 centros do Japão entre 2015 e 2020. Desses, 1166 tinham câncer ativo no momento do diagnóstico, estavam em uso de DOAC e foram incluídos na análise.  

O desfecho primário foi ocorrência de sangramento maior durante o uso de DOAC, definido pelos critérios da ISTH: sangramento fatal, sintomático em área ou órgão crítico, queda ≥ 2 g/dL ou com necessidade de transfusão de ≥ 2 unidades de concentrados de hemácias. Pacientes que receberam trombolíticos foram excluídos. 

A validação foi realizada em duas coortes de estudos multicêntricos, abertos e randomizados com pacientes do Japão. O ONCO DVT comparou uso de edoxabana por 3 ou 12 meses em pacientes com TEV profundo distal isolado em pacientes com câncer e o ONCO PE comparou uso de rivaroxabana por 6 ou 18 meses em pacientes com câncer e tromboembolismo pulmonar (TEP) agudo de baixo risco. Para validação externa foram utilizados 779 pacientes, sendo 601 do ONCO-DVT e 178 do ONCO-PE. 

Para desenvolver o escore de risco foram escolhidas 22 variáveis com base na sua relevância clínica e relatos de sangramento. Foi feita análise univariada em relação ao risco de sangramento maior e as que tiveram significância estatística foram submetidas a análise multivariada.  

Cada variável tinha valor de 1 ponto e para avaliar a performance do escore, a incidência cumulativa de sangramento foi estimada para cada pontuação. Os pacientes foram estratificados em 3 categorias de risco: baixo (0 pontos), intermediário (1 ponto) e alto (≥ 2 pontos). Além disso, foi avaliada a capacidade discriminativa e a performance do escore comparada a outros.  

Resultados  

Dos 1166 pacientes com TEV que receberam DOAC, 127 tiveram sangramento maior e 1039 não tiveram. Pacientes com sangramento tinham mais doença renal crônica (DRC), história de sangramento maior, câncer metastático e anemia do que os sem sangramento. Também tendiam a ter mais baixo peso e maior utilização de anti-inflamatórias não esteroidais (AINEs) e inibidores de bomba de próton (IBP). 

Em relação ao câncer, pacientes com sangramento maior tinham mais câncer de trato gastrointestinal superior (TGIS) e de útero. Cânceres de pulmão e hematológicos foram os menos frequentes em pacientes com sangramento maior.  

As variáveis associadas a sangramento maior na análise univariada foram: idade ≥ 75 anos, IMC ≤ 18,5kg/m2, história de sangramento maior, DRC, anemia, uso de AINEs, câncer metastático, câncer terminal, de TGIS, pancreático e uterino. A análise multivariada encontrou os seguintes fatores como preditores independentes de sangramento: história de sangramento maior, DRC, uso de AINEs, câncer metastático, câncer de TGIS, pancreático e de útero. 

O escore ONCO-DOAC BLEED foi calculado com a somas dos pontos, sendo que cada variável valia 1. A incidência de sangramento em 1 ano nos pacientes de baixo risco foi de 5,7%, nos de risco intermediário de 8,9% e nos de alto risco de 21,2%. O poder discriminativo desses escore foi maior comparado aos escores já existentes. 

Na coorte de validação, 53 pacientes de 779 tiveram sangramento maior e 726 não tiveram. Houve aumento da incidência cumulativa de sangramento maior ao longo das categorias, com maior incidência no alto risco. A capacidade discriminatória do escore na coorte de validação foi semelhante a de outros escores testados. 

Comentários e conclusão 

Esse estudo desenvolveu um escore de risco de sangramento em pacientes com TEV em uso de DOAC simples e fácil de aplicar. Ele integra características tanto do paciente e das medicações em uso quanto do tipo de câncer e seu status.  

Esse escore teve performance discriminatória moderada e melhor estratificação de risco de sangramento comparado aos outros escores, sugerindo melhora modesta mas consistente na estratificação de risco.  

A avaliação do risco de sangramento auxilia na decisão  em relação a continuação da medicação, ajuste de dose ou suspensão dos DOAC, facilitando a anticoagulação no longo prazo nos pacientes com TEV e câncer, uma população com peculiaridades importantes. Ao identificar pacientes de alto risco, esses podem ser seguidos mais de perto, com ajuste de medicações concomitantes e otimização de seu tratamento. 

Uma limitação importante é que este estudo foi realizado em pacientes japoneses, havendo necessidade de validação em outras populações. Além disso, pacientes com TEP e TVP proximal foram excluídos de uma das coortes, o que gera uma coorte de possível menor risco e com diferenças na calibração do escore. Assim, a performance do escore pode ser diferente em pacientes com TEV de maior risco. Apesar disso, esse escore pode servir como uma ferramenta para decisão terapêutica na prática clínica.  

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

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