O estudo DIGIT-HF (DIGitoxin to Improve Outcomes in Patients with Advanced Chronic Heart Failure) investigou a eficácia da digitoxina em pacientes com insuficiência cardíaca avançada e fração de ejeção reduzida (ICFEr). Este estudo foi apresentado no Congresso Europeu de Cardiologia (ESC 2025).
Os glicosídeos cardíacos, como a digitoxina e a digoxina, são usados há dois séculos para tratar a insuficiência cardíaca (IC). Apesar de seu uso prolongado, a evidência de ensaios randomizados para seus efeitos benéficos na ICFEr existia principalmente de um único estudo, o DIG trial publicado em 1997, que mostrou efeito neutro da digoxina quanto à mortalidade, mas reduziu hospitalizações por piora da insuficiência cardíaca, especialmente em pacientes com sintomas pronunciados e fração de ejeção ventricular esquerda (FEVE) bem diminuída.
A digitoxina, avaliada neste estudo, tem um perfil mais seguro com concentrações sanguíneas mais estáveis mesmo em pacientes com disfunção renal.
Objetivo do estudo
Avaliar se a digitoxina melhora os desfechos em pacientes sintomáticos com ICFEr e com terapia para insuficiência cardíaca otimizada (medicação e dispositivos).
Metodologia
- Ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido em 55 locais na Alemanha, Áustria e Sérvia.
- Critérios de inclusão:
- IC crônica (NYHA II e FEVE ≤ 30% ou NYHA III-IV e FEVE ≤ 40%)
- Terapia otimizada para IC baseada em diretrizes atuais por pelo menos seis meses.
- Critérios de exclusão:
- Uso de amiodarona
- Frequência cardíaca < 60 bpm, exceto de em terapia de ressincronização cardíaca
- Melhora recente (< 2 meses) da IC/FEVE.
- 1212 participantes foram randomizados 1:1 para receber digitoxina ou placebo, além do tratamento padrão e segmento de 6 meses
- A digitoxina foi iniciada na dose de 0,07 mg oral 1 vez ao dia com alvo de concentração sérica de 8 a 18 ng/ml em 6 semanas e titulação cega com 0,05, 0,07 ou 1 mg oral 1 vez ao dia.
- Desfecho primário foi um composto de morte por todas as causas e hospitalização por piora de IC (tempo para o primeiro evento)
- Desfecho secundário hierarquizado: morte por todas as causas (de não inferioridade), número de eventos totais de morte por todas as causas e piora de IC.
Resultados
- A população do estudo incluiu idade média de 66 anos, 20% mulheres, 70% em classe NYHA III ou IV, FEVE média de 29%, 53% de doença isquêmica, frequência cardíaca basal de 74 bpm, 27% de fibrilação atrial, 43% de renais crônicos, 95% em uso de betabloqueador, 93% de bloqueadores do sistema renina-angiotensina, 76% em uso de antagonistas mineralocorticóides, 19% em uso de inibidores de SGLT2, 25% em terapia de ressincronização cardíaca e 64% em uso de dispositivos cardiodesfibriladores.
- O acompanhamento mediano foi de 36 meses.
- O desfecho primário ocorreu em 39.5% dos pacientes no grupo digitoxina e 44.1% no grupo placebo, demonstrando uma redução significativa do risco (HR 0,82; IC 95% [0,69 a 0,98]; p=0.03), com NNT 22. Não houve diferença estatística para os componentes do desfecho primário individualmente.
- O desfecho secundário de não inferioridade quanto a mortalidade por todas as causas foi positivo em favor da digitoxina, demonstrando segurança da medicação.
Os resultados parecem animadores, contudo, o estudo não atingiu poder amostral para os desfechos estipulados e não demonstrou impacto nos desfechos individualmente. Apesar disso os resultados do DIGIT-HF apoiam o uso da digitoxina em pacientes com ICFER bastante sintomáticos em terapia médica otimizada baseada em diretrizes, podendo ser uma opção adicional para esses pacientes, especialmente quando outras terapias recomendadas não podem ser toleradas. Novos ensaios randomizados com maior número de pacientes são necessários.
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