Com os avanços das terapias oncológicas e o consequente aumento da sobrevida dos pacientes, o monitoramento do risco cardiovascular passou a ser indispensável desde o diagnóstico da doença. Esse cenário exige que o cardiologista geral saiba agir de forma preventiva e proativa para evitar a interrupção de tratamentos curativos.
Esses desafios foram debatidos em profundidade na masterclass Cardio-oncologia na prática, ministrada pela Dra. Ariane Vieira Scarlatelli Macedo — cardiologista, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, líder do serviço de Cardio-Oncologia da instituição e presidente do Grupo de Trabalho de Cardio-Oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
Assista à masterclass completa: Clique aqui para acompanhar a aula na íntegra e entender como estruturar a vigilância cardiovascular na sua rotina clínica.
Neste post, reunimos os principais insights discutidos pela especialista para você aplicar no consultório.
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Cardio-oncologia: a evolução da área e o impacto na sobrevida do paciente
A cardio-oncologia é a área responsável pela prevenção, monitoramento e tratamento das complicações cardiovasculares associadas ao câncer e às terapias oncológicas.
Tradicionalmente, o cuidado cardiovascular do paciente com câncer estava associado ao diagnóstico e tratamento de complicações cardiovasculares tardias. No entanto, o aumento da sobrevida global dos pacientes oncológicos mudou o foco da especialidade. Hoje, a cardio-oncologia atua de forma preventiva e proativa, identificando o risco antes do início do tratamento e acompanhando o paciente ao longo de toda a jornada.
O objetivo principal é garantir que o paciente possa realizar o tratamento oncológico proposto com a maior segurança possível, minimizando o risco de interrupções nas terapias que possuem potencial curativo.
Quais tratamentos oncológicos podem causar cardiotoxicidade?
Diversas terapias utilizadas no tratamento do câncer estão associadas a efeitos cardiovasculares potencialmente graves. Entre as principais estão:
Antraciclinas e dano cardíaco cumulativo
Diversas terapias utilizadas no tratamento do câncer estão associadas a efeitos cardiovasculares potencialmente graves. O conhecimento dos potenciais efeitos adversos de cada classe é fundamental para que o médico possa planejar a estratégia de monitoramento ideal para cada paciente:
- Antraciclinas e dano cardíaco cumulativo: Medicamentos quimioterápicos tradicionais (como a doxorrubicina) estão associados a uma cardiotoxicidade cumulativa e dose-dependente, que pode comprometer progressivamente a função cardíaca ao longo do tratamento, levando à disfunção ventricular crônica.
- Terapias anti-HER2 e disfunção ventricular: Agentes anti-HER2, como o trastuzumabe (muito utilizado no tratamento do câncer de mama), podem desencadear disfunção ventricular significativa, especialmente em pacientes com fatores de risco cardiovasculares prévios. Apesar de muitas vezes reversível e não dose-dependente, essa complicação exige monitoramento rigoroso.
- Inibidores de VEGF e hipertensão arterial: Os inibidores da angiogênese (Anti-VEGF) podem provocar aumento abrupto da pressão arterial, disfunção vascular e eventos tromboembólicos associados a complicações cardiovasculares.
- Imunoterapia e risco de miocardite: Os inibidores de checkpoint imune (ICI) têm sido associados a complicações imunomediadas importantes. Entre elas está a miocardite, uma intercorrência potencialmente fatal, ainda que rara na rotina clínica.
- Radioterapia torácica e complicações tardias: Seus efeitos colaterais costumam deixar marcas a longo prazo e podem surgir anos após o término do tratamento oncológico, aumentando significativamente o risco de desenvolvimento de:
- Doença arterial coronariana acelerada;
- Valvopatias;
- Pericardite constritiva e fibrose miocárdica.
Estratificação de risco: como identificar pacientes oncológicos com maior risco cardiovascular?
A estratificação de risco antes do início do tratamento oncológico é o primeiro passo para o sucesso do manejo do paciente. Nem todos os indivíduos expostos a terapias cardiotóxicas desenvolverão complicações, e a identificação daqueles com maior vulnerabilidade permite personalizar a intensidade do monitoramento.
A avaliação do risco cardiovascular deve considerar três pilares fundamentais:
Fatores de risco do próprio paciente:
Presença de comorbidades cardiovasculares prévias (como hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo e obesidade) e histórico de doença cardíaca estabelecida.
Características do tratamento oncológico:
A classe dos medicamentos utilizados, a dose planejada (especialmente no caso de antraciclinas) e a associação com radioterapia torácica.
Fatores associados ao tumor:
O próprio câncer pode gerar um estado pró-inflamatório e pró-trombótico sistêmico que aumenta a vulnerabilidade cardiovascular do indivíduo.
Na prática clínica, a monitorização proativa não deve focar apenas no surgimento de sintomas clínicos ou em quedas tardias da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE). A recomendação atual defendida na Masterclass é a incorporação de ferramentas como o strain longitudinal global (SLG) ainda na avaliação basal. Uma redução relativa superior a 15% no SLG em relação ao valor inicial funciona como um biomarcador de imagem para disfunção subclínica, permitindo que o cardiologista adote medidas protetivas antes que o dano miocárdico se consolide.
O papel do cardiologista na condução do paciente oncológico
O seguimento de longo prazo também é parte importante da cardio-oncologia. O risco cardiovascular não desaparece ao final do tratamento oncológico, e muitos pacientes permanecem vulneráveis ao desenvolvimento de complicações cardiovasculares mesmo anos após o encerramento da terapia.
Nesse contexto, estudos recentes sobre reabilitação cardio-oncológica têm demonstrado benefícios importantes, incluindo melhora da capacidade funcional, redução de sintomas e impacto positivo na qualidade de vida de pacientes sobreviventes de câncer.
Esses resultados reforçam que o cuidado cardiovascular do paciente oncológico não deve se limitar ao período da quimioterapia ou da radioterapia. O acompanhamento contínuo permite monitorar sintomas, identificar complicações tardias e reduzir o risco cardiovascular ao longo do tempo.
A cardio-oncologia já faz parte da prática clínica do cardiologista geral. Cada consulta com pacientes em tratamento oncológico ou sobreviventes de câncer é uma oportunidade para identificar fatores de risco, monitorar possíveis sinais de cardiotoxicidade e atuar precocemente diante de complicações cardiovasculares.
Autoria
Ariane Vieira Scarlatelli Macedo
Professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, líder do Serviço de Cardio-Oncologia da Santa Casa de São Paulo e presidente do Grupo de Trabalho de Cardio-Oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
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