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Cardiologia1 junho 2026

É possível tratar cardiotoxicidade sem suspender o tratamento para câncer?

Assista à masterclass Cardio-oncologia na prática com a Dra. Ariane Macedo e aprenda a monitorar a cardiotoxicidade e reduzir riscos no tratamento do câncer.

Com os avanços das terapias oncológicas e o consequente aumento da sobrevida dos pacientes, o monitoramento do risco cardiovascular passou a ser indispensável desde o diagnóstico da doença. Esse cenário exige que o cardiologista geral saiba agir de forma preventiva e proativa para evitar a interrupção de tratamentos curativos. 

Esses desafios foram debatidos em profundidade na masterclass Cardio-oncologia na prática, ministrada pela Dra. Ariane Vieira Scarlatelli Macedo — cardiologista, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, líder do serviço de Cardio-Oncologia da instituição e presidente do Grupo de Trabalho de Cardio-Oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). 

Assista à masterclass completa: Clique aqui para acompanhar a aula na íntegra e entender como estruturar a vigilância cardiovascular na sua rotina clínica. 

Neste post, reunimos os principais insights discutidos pela especialista para você aplicar no consultório. 

Cardio-oncologia: a evolução da área e o impacto na sobrevida do paciente 

cardio-oncologia é a área responsável pela prevenção, monitoramento e tratamento das complicações cardiovasculares associadas ao câncer e às terapias oncológicas. 

Tradicionalmente, o cuidado cardiovascular do paciente com câncer estava associado ao diagnóstico e tratamento de complicações cardiovasculares tardias. No entanto, o aumento da sobrevida global dos pacientes oncológicos mudou o foco da especialidade. Hoje, a cardio-oncologia atua de forma preventiva e proativa, identificando o risco antes do início do tratamento e acompanhando o paciente ao longo de toda a jornada. 

O objetivo principal é garantir que o paciente possa realizar o tratamento oncológico proposto com a maior segurança possível, minimizando o risco de interrupções nas terapias que possuem potencial curativo. 

Quais tratamentos oncológicos podem causar cardiotoxicidade? 

Diversas terapias utilizadas no tratamento do câncer estão associadas a efeitos cardiovasculares potencialmente graves. Entre as principais estão: 

Antraciclinas e dano cardíaco cumulativo 

Diversas terapias utilizadas no tratamento do câncer estão associadas a efeitos cardiovasculares potencialmente graves. O conhecimento dos potenciais efeitos adversos de cada classe é fundamental para que o médico possa planejar a estratégia de monitoramento ideal para cada paciente: 

  • Antraciclinas e dano cardíaco cumulativo: Medicamentos quimioterápicos tradicionais (como a doxorrubicina) estão associados a uma cardiotoxicidade cumulativa e dose-dependente, que pode comprometer progressivamente a função cardíaca ao longo do tratamento, levando à disfunção ventricular crônica. 
  •  Terapias anti-HER2 e disfunção ventricular: Agentes anti-HER2, como o trastuzumabe (muito utilizado no tratamento do câncer de mama), podem desencadear disfunção ventricular significativa, especialmente em pacientes com fatores de risco cardiovasculares prévios. Apesar de muitas vezes reversível e não dose-dependente, essa complicação exige monitoramento rigoroso. 
  •  Inibidores de VEGF e hipertensão arterial: Os inibidores da angiogênese (Anti-VEGF) podem provocar aumento abrupto da pressão arterial, disfunção vascular e eventos tromboembólicos associados a complicações cardiovasculares. 
  •  Imunoterapia e risco de miocardite: Os inibidores de checkpoint imune (ICI) têm sido associados a complicações imunomediadas importantes. Entre elas está a miocardite, uma intercorrência potencialmente fatal, ainda que rara na rotina clínica. 
  •  Radioterapia torácica e complicações tardias: Seus efeitos colaterais costumam deixar marcas a longo prazo e podem surgir anos após o término do tratamento oncológico, aumentando significativamente o risco de desenvolvimento de: 
    1. Doença arterial coronariana acelerada; 
    2. Valvopatias; 
    3. Pericardite constritiva e fibrose miocárdica. 

Estratificação de risco: como identificar pacientes oncológicos com maior risco cardiovascular? 

A estratificação de risco antes do início do tratamento oncológico é o primeiro passo para o sucesso do manejo do paciente. Nem todos os indivíduos expostos a terapias cardiotóxicas desenvolverão complicações, e a identificação daqueles com maior vulnerabilidade permite personalizar a intensidade do monitoramento. 

A avaliação do risco cardiovascular deve considerar três pilares fundamentais: 

Fatores de risco do próprio paciente:  

Presença de comorbidades cardiovasculares prévias (como hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo e obesidade) e histórico de doença cardíaca estabelecida. 

Características do tratamento oncológico:  

A classe dos medicamentos utilizados, a dose planejada (especialmente no caso de antraciclinas) e a associação com radioterapia torácica. 

Fatores associados ao tumor:  

O próprio câncer pode gerar um estado pró-inflamatório e pró-trombótico sistêmico que aumenta a vulnerabilidade cardiovascular do indivíduo. 

Na prática clínica, a monitorização proativa não deve focar apenas no surgimento de sintomas clínicos ou em quedas tardias da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE). A recomendação atual defendida na Masterclass é a incorporação de ferramentas como o strain longitudinal global (SLG) ainda na avaliação basal. Uma redução relativa superior a 15% no SLG em relação ao valor inicial funciona como um biomarcador de imagem para disfunção subclínica, permitindo que o cardiologista adote medidas protetivas antes que o dano miocárdico se consolide. 

O papel do cardiologista na condução do paciente oncológico 

O seguimento de longo prazo também é parte importante da cardio-oncologia. O risco cardiovascular não desaparece ao final do tratamento oncológico, e muitos pacientes permanecem vulneráveis ao desenvolvimento de complicações cardiovasculares mesmo anos após o encerramento da terapia. 

Nesse contexto, estudos recentes sobre reabilitação cardio-oncológica têm demonstrado benefícios importantes, incluindo melhora da capacidade funcional, redução de sintomas e impacto positivo na qualidade de vida de pacientes sobreviventes de câncer. 

Esses resultados reforçam que o cuidado cardiovascular do paciente oncológico não deve se limitar ao período da quimioterapia ou da radioterapia. O acompanhamento contínuo permite monitorar sintomas, identificar complicações tardias e reduzir o risco cardiovascular ao longo do tempo. 

A cardio-oncologia já faz parte da prática clínica do cardiologista geral. Cada consulta com pacientes em tratamento oncológico ou sobreviventes de câncer é uma oportunidade para identificar fatores de risco, monitorar possíveis sinais de cardiotoxicidade e atuar precocemente diante de complicações cardiovasculares. 

Autoria

Foto de Ariane Vieira Scarlatelli Macedo

Ariane Vieira Scarlatelli Macedo

Professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, líder do Serviço de Cardio-Oncologia da Santa Casa de São Paulo e presidente do Grupo de Trabalho de Cardio-Oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

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