Segundo o Guia Prático de Alimentação da Criança de 0 a 5 Anos, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o leite materno é a primeira escolha para a alimentação do lactente, com recomendação de aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida. No entanto, para a prática clínica pediátrica e neonatal, o uso apropriado dos substitutos do leite materno também precisa ser discutido.
Embora as fórmulas infantis sejam produtos regulamentados e fundamentais em situações específicas, sua indicação exige critérios clínicos bem definidos, e seu preparo demanda rigor técnico para evitar complicações nutricionais e microbiológicas.
Os substitutos de leite materno devem ser utilizados quando houver indicação médica, incluindo contraindicações à amamentação, doenças metabólicas específicas e situações em que o leite materno não esteja disponível ou seja insuficiente após avaliação clínica.
Ainda de acordo com a SBP, as fórmulas seguem requisitos mínimos de identidade, qualidade, perfil nutricional e segurança, e são designadas conforme as necessidades de cada faixa etária: fórmulas infantis de partida (para lactentes do nascimento até seis meses), fórmulas infantis de seguimento (a partir dos seis meses) e fórmulas infantis de primeira infância (de um a três anos). A composição nutricional de cada fórmula deve conter apenas nutrientes também presentes no leite materno, e não são indicados leite de vaca desnatado ou semidesnatado a crianças abaixo de 2 anos de idade.
Segundo a Dra. Larissa Pires, neonatologista e editora do Portal Afya, a decisão de complementar a alimentação deve ser clínica e individualizada. “Em um recém-nascido saudável, com boa pega, deglutição efetiva, hidratação preservada, eliminações adequadas e ganho ponderal satisfatório, a percepção materna de ‘pouco leite’ geralmente não constitui, isoladamente, indicação para iniciar fórmula. A complementação deve ser considerada quando existem sinais objetivos de ingestão inadequada ou uma condição clínica que não pode ser resolvida apenas com correções do manejo”, explica.
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Diagnósticos equivocados podem levar a complementações desnecessárias
A principal dificuldade que os médicos encontram é diferenciar intercorrências transitórias de uma necessidade real de complementação. A percepção materna de baixa produção de leite, isoladamente, não deve ser interpretada como diagnóstico de insuficiência de lactação.
“A pega, o posicionamento, a sucção, a deglutição, o comportamento do bebê durante a mamada e as condições das mamas podem fornecer muito mais informação do que simplesmente perguntar à mãe quantas vezes o bebê mama”, destaca a Dra. Larissa.
Para a especialista, outro erro é interpretar mamadas muito frequentes como necessariamente indicativas de baixa produção. Recém-nascidos podem apresentar períodos de mamadas muito frequentes por razões fisiológicas.
Preparo inadequado continua sendo um desafio de segurança alimentar
Além da indicação clínica, o preparo correto da fórmula é um dos principais pontos de atenção para pediatras e neonatologistas. A Anvisa ressalta que as fórmulas infantis em pó não são produtos estéreis, o que torna indispensável a adoção de medidas rigorosas de higiene durante a manipulação, a reconstituição e o armazenamento.
Entre os erros mais frequentes estão a diluição incorreta, o uso de água inadequada, a higienização insuficiente de mamadeiras e utensílios e o reaproveitamento de sobras após a mamada.
A Dra. Larissa destaca que o preparo inadequado da fórmula infantil pode representar riscos nutricionais, metabólicos e microbiológicos para bebês e crianças. “A fórmula em pó não é um produto estéril e, depois de reconstituída, oferece condições favoráveis à multiplicação bacteriana, principalmente quando permanece por tempo prolongado em temperatura ambiente ou é manipulada de forma inadequada”, afirma.
Do ponto de vista metabólico, a diluição excessiva reduz a densidade energética e a oferta de nutrientes, enquanto o excesso de pó aumenta a osmolaridade e a carga de solutos, com potencial sobrecarga renal, especialmente em lactentes jovens. Por isso, a Anvisa recomenda seguir rigorosamente a proporção entre água e pó indicada pelo fabricante, utilizando exclusivamente o dosador fornecido na embalagem e preparando a fórmula imediatamente antes do consumo.
Prematuros exigem estratégia nutricional específica
Na neonatologia, a hierarquia de escolha do alimento é um princípio consolidado. O leite da própria mãe permanece como primeira opção; quando indisponível, o leite humano pasteurizado de banco de leite deve ser priorizado para prematuros e recém-nascidos de muito baixo peso, conforme orientações da SBP e da Organização Mundial da Saúde.
A fórmula infantil ocupa papel importante quando o leite humano não está disponível ou quando há necessidades nutricionais específicas que não podem ser atendidas adequadamente apenas com leite materno ou leite de banco. Nesses casos, o objetivo assistencial deve ser garantir a nutrição sem abandonar estratégias de proteção da lactação, como ordenha e manutenção do estímulo mamário.
Entretanto, a introdução precoce e desnecessária de fórmula pode reduzir o estímulo mamário e comprometer a manutenção da lactação. “O ideal é nunca introduzir fórmulas sem um plano de proteção da lactação. Quando a complementação é realmente necessária, deve-se, sempre que possível, manter o estímulo das mamas por meio de amamentação ou ordenha, para que a necessidade temporária de complemento não se transforme em redução progressiva da produção”, pontua a neonatologista.
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Vigilância sanitária e prática clínica
Outro aspecto relevante é o monitoramento de alertas sanitários. Em 2022, a Anvisa recolheu cinco marcas de fórmulas infantis por suspeita de contaminação por bactérias, reforçando que prematuros e recém-nascidos constituem o grupo de maior vulnerabilidade para infecções associadas à contaminação desses produtos.
Mais do que recomendar o aleitamento materno, os pediatras e neonatologistas precisam lidar de forma adequada com as dificuldades de amamentação e reconhecer, com critérios objetivos, quando a suplementação realmente se faz necessária.
A Dra. Larissa destaca que o pediatra precisa entender que proteger o aleitamento não significa apenas dizer para a mãe que o leite materno é o melhor alimento. Significa remover, junto com ela, os obstáculos que estão impedindo que esse aleitamento aconteça. “Quando a suplementação é realmente necessária, o plano deve proteger simultaneamente a nutrição do bebê e a produção materna”, afirma a médica.
Nesse contexto, o Agosto Dourado reforça uma mensagem voltada também aos profissionais: a promoção do aleitamento não se limita à informação, mas depende de assistência estruturada, avaliação clínica criteriosa e uso racional dos substitutos do leite materno quando houver indicação baseada em evidências.
Autoria

Gabriela Costa
Estagiária de conteúdo da Afya. Graduanda em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense.
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