Um paciente recebeu pela primeira vez uma terapia genética experimental desenvolvida para rejuvenescer células envelhecidas. O marco foi destacado em reportagem publicada pela revista científica Nature e representa o início dos testes clínicos em humanos de uma abordagem que busca restaurar funções celulares perdidas com o envelhecimento.
O tratamento está sendo avaliado em um estudo clínico de fase 1 conduzido pela Life Biosciences e tem como foco inicial pacientes com glaucoma, uma das principais causas de perda irreversível da visão no mundo. Batizada de ER-100, a terapia utiliza uma estratégia conhecida como reprogramação epigenética parcial, que busca restaurar características celulares associadas à juventude sem alterar o DNA das células.
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Como funciona a terapia
O tratamento utiliza um vetor viral modificado para transportar instruções genéticas até células ganglionares da retina, responsáveis por transmitir informações visuais ao cérebro. Essas instruções levam à produção de três proteínas capazes de reativar mecanismos celulares relacionados à regeneração e ao funcionamento saudável dos tecidos.
Os genes introduzidos permanecem sob controle de um sistema regulável por medicamento. Dessa forma, sua atividade pode ser ativada ou interrompida conforme a administração de um antibiótico específico, oferecendo uma camada adicional de segurança durante o estudo.
A expectativa dos pesquisadores é que a técnica ajude a restaurar neurônios do nervo óptico, estruturas que normalmente não possuem capacidade significativa de regeneração após serem danificadas.
Segundo o oftalmologista Pedro Hélio Estevam Ribeiro Júnior, o principal diferencial da terapia está justamente na mudança de paradigma proposta pela abordagem. “O tratamento do glaucoma sempre esteve ancorado na redução da pressão intraocular, seja por colírios, laser ou cirurgia. A terapia ER-100 rompe esse paradigma ao focar diretamente nas células ganglionares da retina, buscando restaurar sua capacidade de regeneração”, explica.
De acordo com o especialista, a tecnologia utiliza fatores de transcrição capazes de “reprogramar” o relógio biológico das células. “Em vez de apenas proteger uma célula que está morrendo, a proposta é devolver a ela características mais jovens, permitindo a regeneração dos axônios e, potencialmente, a recuperação da função visual perdida”, afirma.
Por que o glaucoma foi escolhido
O glaucoma provoca lesões progressivas no nervo óptico e pode levar à cegueira permanente. Embora os tratamentos atuais consigam controlar fatores de risco, como a pressão intraocular elevada, eles não conseguem reparar os danos já instalados.
Por isso, terapias capazes de restaurar células lesionadas representam uma das áreas mais promissoras da pesquisa oftalmológica. O estudo prevê o acompanhamento de cerca de 18 participantes ao longo de cinco anos para avaliar segurança, tolerabilidade e possíveis efeitos sobre a função visual.
Além do glaucoma, os pesquisadores também investigam aplicações para a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NAION), condição para a qual ainda não existem tratamentos aprovados na prática clínica.
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Potencial e desafios da tecnologia
Pesquisas anteriores em modelos animais mostraram resultados promissores, incluindo regeneração neuronal e melhora da visão. No entanto, especialistas destacam que a transição para seres humanos envolve desafios complexos.
Um dos principais pontos de atenção é a segurança do processo de reprogramação celular. Segundo Dr. Pedro Hélio, conteudista de Oftalmologia da Afya, existe o risco teórico de que as células percam sua identidade original ou passem a se multiplicar de forma descontrolada. “O grande desafio desta fase inicial é garantir que o rejuvenescimento celular aconteça de forma controlada e estável, sem desencadear alterações indesejadas”, explica.
Outro obstáculo está relacionado à própria anatomia humana. Enquanto o nervo óptico de modelos animais é relativamente curto, nos seres humanos as células regeneradas precisariam reconstruir conexões extremamente complexas ao longo de todo o trajeto visual. “Fazer com que esses axônios encontrem o caminho correto até seus alvos cerebrais ainda é uma grande incógnita da neurobiologia”, afirma.
Também existe preocupação com a resposta imunológica aos vetores virais utilizados para transportar o material genético. Embora o olho seja considerado um ambiente relativamente protegido do ponto de vista imunológico, processos inflamatórios podem comprometer a eficácia e a segurança da terapia.
O que essa tecnologia pode representar para o futuro
Caso os estudos confirmem segurança e eficácia, os impactos podem ir muito além da Oftalmologia.
Para o Dr. Pedro Hélio, a aprovação de terapias baseadas em reprogramação epigenética poderá transformar a forma como a medicina encara doenças neurodegenerativas. “Deixaremos de tratar glaucoma e neuropatias ópticas apenas como doenças mecânicas ou vasculares e passaremos a vê-las também como processos relacionados à perda de informação epigenética. Isso muda completamente a lógica terapêutica”, afirma.
O especialista destaca ainda que a retina e o nervo óptico são extensões diretas do sistema nervoso central. Por isso, o sucesso da técnica poderia abrir caminho para futuras aplicações em doenças como Alzheimer, Parkinson e até lesões da medula espinhal.
“Se conseguirmos demonstrar que é possível regenerar células nervosas com segurança, estaremos diante de uma prova de conceito capaz de influenciar diversas áreas da medicina regenerativa”, avalia.
Por fim, ele ressalta que acompanhar pacientes submetidos a esse tipo de tratamento exigirá novas ferramentas diagnósticas. Exames de imagem de alta resolução e sistemas de inteligência artificial deverão desempenhar papel importante para monitorar se a recuperação funcional observada corresponde, de fato, à regeneração celular esperada.
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