Um homem de 63 anos entrou em remissão prolongada do HIV após receber um transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas do irmão. A pesquisa publicada na Nature Microbiology na última segunda-feira (13), mostrou que esse é o primeiro caso de “cura funcional” em que a doação foi feita por um irmão do receptor.
A cura funcional ocorre quando o vírus permanece controlado, sem evidências de que possa causar danos à saúde. Esse desfecho é relativamente frequente, sendo observado em aproximadamente 1% a 3% dos indivíduos.
O procedimento foi realizado como tratamento para uma síndrome mielodisplásica, e não como terapia indicada para o HIV. Ainda assim, o relato ganhou destaque por envolver um doador aparentado com mutação genética associada à resistência ao vírus, algo incomum entre os casos já descritos de remissão sustentada.
O que o estudo descreve
Segundo o artigo, o paciente vivia com HIV desde 2006 e foi submetido ao transplante em novembro de 2020, após evolução da doença hematológica. No momento do procedimento, foi confirmado que o irmão doador carregava a mutação homozigótica CCR5Δ32/Δ32, ligada à resistência ao HIV dependente do correceptor CCR5. Depois do transplante, o paciente manteve terapia antirretroviral por 24 meses e, após a interrupção, permaneceu sob acompanhamento regular sem rebote viral detectável.
Os pesquisadores relataram que, cerca de cinco anos após o transplante e três anos após a suspensão dos antirretrovirais, não foram encontrados sinais de vírus replicante nem de DNA viral intacto no sangue ou em biópsias intestinais. O estudo também descreve ausência de respostas celulares específicas contra o HIV e queda gradual dos anticorpos, achados compatíveis com remissão prolongada e que reforçam a possibilidade de cura.
Por que o caso chama atenção
O caso chama atenção não apenas pelo desfecho, mas também pelo tipo de doador. O uso de um irmão HLA-idêntico diferencia este relato de outros marcos já conhecidos na literatura, em que os transplantes geralmente envolveram doadores não aparentados ou outras estratégias de seleção celular. Além disso, a confirmação de quimerismo completo no intestino — um dos principais reservatórios do HIV — foi apontada pelos autores como um dado relevante para entender a eliminação persistente do vírus.
A publicação também reforça uma linha de pesquisa que tenta compreender como o transplante, a substituição do sistema imune e a redução dos reservatórios virais podem levar à remissão. Nos últimos anos, relatos semelhantes ajudaram a ampliar a discussão sobre mecanismos de cura do HIV, embora continuem restritos a situações clínicas muito específicas.
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O que isso muda na prática
Apesar da repercussão, o transplante de medula não é considerado uma estratégia aplicável à maior parte das pessoas que vivem com HIV. Trata-se de um procedimento complexo, caro e de alto risco, reservado a pacientes com neoplasias hematológicas ou outras condições graves que já tenham indicação formal para transplante. Especialistas e entidades da área destacam que esses casos funcionam mais como prova de conceito para futuras terapias curativas do que como modelo de tratamento em larga escala.
Na prática, o caso amplia o conhecimento sobre remissão sustentada do HIV e pode orientar novas pesquisas em cura funcional, terapia gênica e estratégias de redução de reservatórios virais. Para a assistência cotidiana, porém, o tratamento antirretroviral segue sendo a base do cuidado, com eficácia consolidada no controle da infecção e na prevenção de progressão da doença.
Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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