Um estudo, publicado na última quinta-feira (27) no periódico Lancet, chamou atenção para um fator de risco da desnutrição infantil. Segundo a pesquisa, o aumento crescente da temperatura no Brasil pode estar impactando o crescimento das crianças.
O estudo incluiu mais de 6 milhões de crianças entre 1 e 5 anos com acompanhamento nutricional registrado no SISVAN entre 2008 e 2017 e apontou que cada aumento de 1°C na temperatura ambiente acima de 26°C está associado a uma maior chance de desnutrição infantil.
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Grupo de risco
Os dados mostram que as associações com baixo peso e baixa estatura foram ligeiramente mais altas em crianças das regiões Norte e Nordeste, bem como naquelas que vivem em áreas rurais ou em municípios com maior índice de privação. Crianças cujas mães se autodeclararam pretas, pardas ou indígenas também apresentaram risco maior de desnutrição quando expostas a temperaturas mais elevadas.
De acordo com a UNICEF, cerca de 30% das crianças indígenas do Brasil são afetadas por desnutrição crônica. Entre os ianomâmis, o percentual supera 80%. Meninas e meninos indígenas têm mais de duas vezes mais risco de morrer antes de completar 1 ano do que as outras crianças brasileiras.
Essa nova perspectiva destacada pela pesquisa demonstra que a temperatura interage de maneira intensa quando o assunto é desigualdades socioeconômicas.
Impactos no peso e crescimento
Segundo os resultados do estudo, os impactos do aumento da temperatura não são imediatos. A análise mostrou que diferentes formas de desnutrição reagem à exposição ao calor em tempos distintos, com efeitos que podem se acumular ao longo de várias semanas.
No caso do baixo peso e da desnutrição aguda, as consequências surgem rapidamente, geralmente entre a mesma semana da exposição e até três semanas depois. Já o atraso no crescimento segue outra dinâmica: o risco aumenta de forma mais tardia e está associado à exposição prolongada ao calor.
Em relação aos recortes populacionais, os dados apontam maior prevalência de baixo peso e desnutrição aguda entre meninas, enquanto o atraso no crescimento foi mais frequente entre meninos. Entre eles, 10,40% apresentaram déficit de crescimento. Já entre as meninas, 4,22% estavam abaixo do peso e 5,90% tinham desnutrição aguda.
No recorte por raça e etnia, a situação mais grave foi identificada entre crianças indígenas, com 6,72% abaixo do peso e 26,65% com atraso no crescimento. Entre crianças pretas, 5,86% apresentaram desnutrição aguda e 9,32% tinham déficit de crescimento.
Medidas de saúde ainda são necessárias
O estudo destaca que a temperatura influencia o estado nutricional infantil, com efeitos mais intensos em populações pobres e socialmente marginalizadas. Esse cenário evidencia uma questão de injustiça ambiental, em que o clima intensifica desigualdades já existentes.
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Para os autores, é importante fortalecer o monitoramento nutricional, especialmente durante e após períodos de temperaturas elevadas. Além disso, políticas de combate à pobreza podem funcionar como estratégias de adaptação às mudanças climáticas.
Autoria
Gabriela Costa
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