A lista de usos dos medicamentos chamados comumente de canetas emagrecedoras, os agonistas do receptor de GLP-1, vem crescendo além do controle do diabetes tipo 2. Esses medicamentos passaram a ocupar também espaço no tratamento da obesidade e, agora, acumulam evidências e estudos sobre possíveis benefícios cardiovasculares, renais, hepáticos e oncológicos.
De acordo com o Dr. Leandro Lima, clínico médico e editor da Afya, os agonistas de GLP-1 já têm papel estabelecido no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. A classe também acumulou evidências em desfechos cardiovasculares e renais. A classe também é estudada para outras condições, como apneia obstrutiva do sono, doença hepática esteatótica e osteoartrite de quadril e joelhos.

Benefícios cardiovasculares dos análogos de GLP-1
O uso dos agonistas de GLP-1 para benefício cardiovascular é uma das aplicações extra-metabólicas mais bem estabelecidas dessa classe. Um dos principais estudos sobre o efeito cardiovascular da semaglutida é o SUSTAIN-6, ensaio clínico que incluiu participantes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular. Durante o acompanhamento, a semaglutida reduziu em 26% o risco de eventos cardiovasculares maiores, definidos como morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal, em comparação ao placebo.
Para o Dr. Leandro, os dados já têm repercussão na tomada de decisão em determinados perfis de pacientes. “O uso dos agonistas de GLP-1 está bem consolidado nos cenários de obesidade, DM2 e doença cardiovascular estabelecida, principalmente quando há confluência das três entidades”, afirma. Segundo ele, sociedades como a American Heart Association (AHA), a European Society of Cardiology (ESC) e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) já orientam o uso da semaglutida para benefício cardiovascular.
Saiba mais: Agonistas de GLP-1 e redução de risco cardiovascular
Estudo FLOW avaliou efeitos renais da semaglutida
Evidências do estudo FLOW mostraram que o uso de canetas de semaglutida também apresentou efeito protetor sobre a função renal em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. O ensaio mostrou um declínio anual mais lento da TFGe de 1,16 mL/min/1,73 m² no grupo da semaglutida em comparação ao placebo. O risco do desfecho renal primário foi 24% menor no grupo da semaglutida, resultado que reforça a evidência de benefício renal nesse perfil de paciente.
Já em relação à doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), o Dr. Leandro destaca que a perda pronunciada do tecido adiposo, com o uso dos fármacos para obesidade, pode reduzir a esteatose hepática. “As ações diretas do fármaco modulam a imunidade hepática, com demonstração de resolução de esteato-hepatite, sem implicar em agravamento de fibrose em estudos com a tirzepatida e semaglutida, por exemplo”, explica.
Estudos avaliam possíveis efeitos dos GLP-1 no câncer
No campo da oncologia a pesquisa também tem avançado de forma acelerada. Estudos observacionais apresentados no congresso ASCO 2026 encontraram associações entre o uso dos agonistas de GLP-1 e menor incidência de alguns tipos de câncer. Os resultados, porém, não demonstram que os medicamentos previnam tumores nem estabelecem relação de causa e efeito.
Um estudo publicado na revista Annals of Oncology com dados de mais de 229 mil pacientes obesos e não diabéticos, encontrou redução de 41% no risco geral de cânceres associados à obesidade entre usuários da medicação, com reduções ainda maiores em subgrupos específicos, como quase 70% entre homens e 58% no câncer de endométrio.
Apesar disso, o Dr. Leandro alerta que a prevenção oncológica não pode ser buscada, nesse momento, como uma indicação isolada dos análogos do receptor do GLP-1. “Entretanto, há plausibilidade biológica, tendo em vista que há vários tipos de cânceres relacionados à obesidade. No câncer de mama a produção periférica de estrógenos pelo tecido adiposo de fato pode mobilizar crescimento tumoral dependente desse hormônio. A evidência atual é pautada em estudos observacionais e retrospectivos, que estão sujeitos a vieses, de modo que RCTs sobre o tema serão fundamentais antes de sedimentar essa indicação”, explica.
Novas indicações de canetas ainda exigem confirmação científica
Por ora, os dados disponíveis mostram que os benefícios cardiovasculares e renais das canetas já têm evidência robusta o suficiente para influenciar a prática clínica em subgrupos específicos de pacientes. Enquanto isso, os achados em oncologia, ainda que promissores, seguem em estágio mais preliminar e devem ser tratados como hipótese em teste, não como indicação estabelecida.
“Não há indicação para o uso de análogos do receptor de GLP-1 para pacientes que não apresentem nem obesidade nem DM2. Há sim, uma tendência, de pensar nesses medicamentos quando há sobreposição de indicações marginais (sobrepeso + apneia obstrutiva do sono; MASLD + doença coronariana)”, destaca o Dr. Leandro.
O especialista enfatiza que o médico deve, sempre que disponível, se apoiar em estudos robustos, preferencialmente randomizados-controlados e de fase 3, e não em dados de estudos observacionais geradores de hipóteses. “Diante de doenças de alta prevalência populacional, em que há interesse da comunidade científica e da própria indústria farmacêutica, dados dessa natureza são viáveis e esperados”, conclui.
Autoria

Gabriela Costa
Estagiária de conteúdo da Afya. Graduanda em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense.
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