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Saúde30 janeiro 2026

Afastamentos do trabalho por transtornos mentais disparam no Brasil

Dados do INSS e da ANAMT indicam crescimento acelerado de licenças por ansiedade, depressão e burnout, com impacto clínico, social e econômico
O número de trabalhadores afastados por transtornos mentais no Brasil cresceu 79% em apenas dois anos, impulsionado principalmente por quadros de ansiedade, depressão e burnout. Os dados são de um levantamento recente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com base em registros do INSS, e revelam um cenário que vai além do aumento de diagnósticos: apontam para um sofrimento psíquico cada vez mais intenso no contexto laboral e social.
Entre 2023 e 2025, o total de licenças concedidas por transtornos mentais passou de 219,8 mil para 393,6 mil. Os transtornos ansiosos responderam por 86% dos afastamentos e tiveram crescimento de 92% no período. Já os episódios depressivos aumentaram 71%, chegando a uma média de um trabalhador afastado por depressão a cada três minutos. Os afastamentos por burnout, síndrome diretamente associada ao trabalho, praticamente triplicaram.
Do ponto de vista clínico, o avanço acelerado desses números levanta um debate central para a psiquiatria: o quanto esse crescimento reflete maior reconhecimento e busca por ajuda e o quanto ele expressa, de fato, um agravamento das condições de saúde mental associadas ao trabalho contemporâneo.
Segundo o psiquiatra Dr. Eduardo Aratangy, os dois fenômenos caminham juntos. “Nos últimos anos, mais pessoas passaram a buscar apoio profissional, em parte pela redução do estigma em torno dos transtornos psiquiátricos. Ao mesmo tempo, há uma percepção clara de aumento da tensão no ambiente de trabalho”, afirma. Para ele, fatores como a hiperconectividade, as exigências profissionais que extrapolam o horário de expediente e o impacto da inteligência artificial, percebida por muitos como ameaça à estabilidade profissional, têm papel relevante nesse agravamento do sofrimento psíquico.

Mulheres e trabalhadores de meia-idade concentram os afastamentos

O perfil dos afastamentos chama atenção. As mulheres concentraram 68% das licenças concedidas por transtornos mentais, enquanto a faixa etária mais atingida foi a de 40 a 49 anos, com cerca de 125 mil afastamentos.
Na avaliação de Aratangy, trata-se de grupos vulneráveis por razões distintas, mas igualmente estruturais. “As mulheres, de modo geral, ganham menos, precisam trabalhar mais para obter reconhecimento, estão mais expostas a diferentes formas de assédio e, frequentemente, acumulam uma dupla jornada entre trabalho e responsabilidades domésticas”, explica.
Já entre trabalhadores de meia-idade, o adoecimento aparece fortemente associado à insegurança profissional. “Pessoas acima dos 40 anos convivem com a pressão da concorrência de profissionais mais jovens, com maior familiaridade com novas tecnologias e que, muitas vezes, aceitam salários menores”, observa o psiquiatra. No consultório, esse contexto se traduz em quadros de ansiedade persistente, depressão com prejuízo funcional e sintomas relacionados ao estresse crônico, como insônia, fadiga intensa e dificuldades de concentração.

Do sofrimento esperado ao adoecimento mental

O crescimento expressivo dos afastamentos por burnout reforça a necessidade de diferenciar o sofrimento psíquico esperado – reações emocionais diante das demandas do trabalho – do adoecimento mental que exige intervenção clínica e afastamento. A linha entre esses dois estados, segundo Aratangy, é ultrapassada quando a carga de tensão excede a capacidade de adaptação do indivíduo.
“O adoecimento surge quando a pressão supera a capacidade de ‘processamento’ da pessoa”, explica. Além de metas excessivas, jornadas prolongadas e demandas fora do horário de trabalho, ele destaca a redução progressiva de atividades sociais e de lazer fora do ambiente digital como um fator de risco importante. “Do ponto de vista técnico, identificamos o adoecimento quando há prejuízo funcional: surgem sintomas ansiosos ligados diretamente ao trabalho, como medo de ir ao ambiente profissional, além de estafa, insônia, sintomas depressivos e dificuldade de relaxar mesmo em outras atividades”.
O impacto desse cenário também é econômico. Apenas em 2024, os benefícios concedidos pelo INSS por transtornos mentais custaram cerca de R$ 954 milhões. E os dados ainda subestimam o problema, já que consideram apenas trabalhadores formais afastados por mais de 15 dias.
Diante desse quadro, especialistas defendem que a prevenção precisa ir além de ações superficiais de bem-estar. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir a gestão dos riscos psicossociais nas empresas, é considerada um avanço, mas sua efetividade depende de mudanças concretas na organização do trabalho, nas metas e nas relações profissionais.
O aumento dos afastamentos por transtornos mentais funciona, assim, como um alerta inequívoco: sem espaços reais de escuta, prevenção e cuidado, o sofrimento psíquico tende a se acumular até se tornar insustentável, para trabalhadores, empresas e para o próprio sistema de saúde.

Autoria

Foto de Roberta Santiago

Roberta Santiago

Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.

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