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Radiologia10 junho 2026

Atualização 2026 da Sociedade de Radiologia para embolização prostática arterial

Hiperplasia prostática benigna pode ser tratada com embolização prostática em pacientes selecionados, com menor impacto sexual e recuperação rápida.

A hiperplasia prostática benigna, ou HPB, aparece com frequência na rotina de quem cuida de homens mais velhos, podendo acometer até 70% dos homens entre 60 e 69 anos, e até 80% daqueles com 70 anos ou mais. Os sintomas urinários baixos, como frequência, noctúria, urgência, jato fraco e sensação de esvaziamento incompleto, podem piorar sono, humor, produtividade, sexualidade e qualidade de vida.  

Nesse sentido, o documento “Society of Interventional Radiology (SIR) 2026 Practice Guidance Document for Prostatic Artery Embolization”, publicado em **2026** no **Journal of Vascular and Interventional Radiology**, teve por objetivo atualizar orientações práticas sobre embolização das artérias prostáticas, ou PAE, para tratamento de sintomas urinários atribuídos à HPB. O texto revisa seleção de pacientes, técnica, cuidados antes e depois do procedimento, segurança, desfechos, durabilidade e lacunas futuras. 

Leia mais: Hiperplasia prostática benigna: diagnóstico e tratamento

Figurants. Sur l'écran, dessin illustrant la prostate (sans pathologie).

Escopo, método e principais mudanças 

O grupo revisou literatura publicada até 2025, incluindo estudos randomizados, meta-análises, séries retrospectivas e opiniões de especialistas quando faltavam dados de maior qualidade. 

A construção das recomendações usou a técnica Delphi modificada. As afirmações foram votadas anonimamente pelos membros do grupo, e só foram incluídas se atingissem 80% de consenso, com 100% de participação na votação. Isso dá alguma robustez ao consenso, embora não transforme o documento em revisão sistemática formal. 

O artigo atualiza o posicionamento anterior de 2019 da SIR e de outras sociedades. A grande diferença é que, desde então, surgiram dados mais maduros, incluindo estudos comparativos contra tratamento medicamentoso e TURP, além de séries com seguimento longo. O documento também reconhece que a PAE ganhou espaço em diretrizes urológicas, inclusive na diretriz mais recente da American Urological Association, como opção viável para sintomas urinários por HPB em próstatas de pelo menos 50 mL. 

Onde a PAE entra no tratamento da HPB 

A primeira linha para HPB sintomática costuma ser tratamento medicamentoso. Alfa-bloqueadores, inibidores da 5-alfa-redutase e inibidores de fosfodiesterase-5 podem ajudar, mas o ganho médio é modesto, em geral melhora de 3 a 7 pontos no IPSS. E efeitos adversos não são raros, tais como hipotensão postural, ejaculação retrógrada, queda de libido e disfunção erétil. 

A TURP, ou ressecção transuretral da próstata, continua sendo referência cirúrgica para muitos casos, especialmente próstatas até cerca de 80 a 100 mL. Ela costuma melhorar muito os sintomas, com redução média de 15 a 16 pontos no IPSS, além de ganho expressivo no fluxo urinário, porém tem como efeito adverso a ejaculação retrógrada em até 65% a 75% dos pacientes após TURP, além de riscos como sangramento, infecção, retenção urinária, estenose uretral, incontinência e disfunção erétil. 

A PAE surge como uma alternativa menos invasiva, com o radiologista intervencionista entrando pela artéria, cateterizando seletivamente os ramos prostáticos e injetando partículas que reduzem a vascularização da glândula. O tecido prostático sofre isquemia controlada, encolhe ao longo do tempo e alivia a obstrução.  

A PAE não entrega exatamente o mesmo resultado funcional da TURP. Em geral, melhora menos o fluxo urinário e o resíduo pós-miccional, mas tende a ter recuperação mais rápida, menor morbidade e menor impacto sexual. Para alguns pacientes, essa troca é muito aceitável. Para outros, especialmente os que precisam de desobstrução mais robusta e imediata, a cirurgia pode continuar sendo melhor. 

Quem é bom candidato 

O documento recomenda PAE como opção minimamente invasiva para homens bem selecionados com HPB e sintomas urinários moderados a graves. Na prática, o candidato típico tem IPSS maior ou igual a 7, sintomas incômodos, impacto em qualidade de vida e próstata geralmente a partir de 50 mL. Próstatas entre 30 e 49 mL podem ser consideradas caso a caso, mas a evidência é mais forte para glândulas maiores. 

A PAE pode ser especialmente interessante em alguns grupos, como homens que não responderam, não toleraram ou não querem usar medicamentos; pacientes que desejam preservar ejaculação e função erétil; pacientes de alto risco cirúrgico, por idade avançada, comorbidades, coagulopatia ou impossibilidade de suspender anticoagulante ou antiagregante e também pode ser opção para retenção urinária por HPB, desde que a função da bexiga esteja preservada.  

Esse último ponto é crucial, pois a retenção urinária não é sempre obstrução corrigível. Se a bexiga está acontrátil, desobstruir pode não resolver. Por isso, em retenção crônica, o artigo recomenda avaliar função vesical, muitas vezes com estudo urodinâmico. Em pacientes bem selecionados, a taxa de independência de cateter vesical de demora pode chegar a cerca de 80% a 90%, geralmente em testes de retirada 2 a 3 semanas após a embolização. 

Outra indicação importante é hematuria de origem prostática refratária a tratamento conservador. Nesses casos, a PAE pode controlar sangramento independentemente do tamanho da próstata.  

Quem não deve ir direto para PAE 

O documento enfatiza que a seleção deve ser conjunta entre radiologia intervencionista e urologia. Antes de embolizar, é preciso ter certeza razoável de que os sintomas são realmente atribuíveis à HPB. 

Contraindicações e situações que exigem cautela incluem infecção urinária ativa ou prostatite, suspeita de câncer de próstata ainda não avaliada, alterações vesicais importantes, grandes divertículos, cálculos vesicais, bexiga neurogênica ou disfunção detrusora relevante. Pacientes em vigilância ativa para câncer de próstata não são automaticamente excluídos, mas precisam de avaliação cuidadosa. 

Na prática, a PAE não deve virar uma solução automática para qualquer homem que urina mal. Se o problema for na bexiga, uretra, infecção, tumor ou efeito tardio de radioterapia, embolizar a próstata pode não resolver, e ainda atrasar o diagnóstico correto. 

Avaliação antes do procedimento 

O preparo começa com avaliação urológica completa: história clínica, exame físico, IPSS, avaliação de qualidade de vida, urina tipo 1, função renal quando houver risco de obstrução, medida do volume prostático, resíduo pós-miccional e, quando útil, urofluxometria. 

O volume prostático pode ser medido por ultrassom transretal, ultrassom abdominal, ressonância ou tomografia. A imagem também pode mostrar lobo médio proeminente, assimetria e anatomia pélvica.  

O paciente também deve ser informado sobre o risco de falha e retratamento. A PAE é eficaz, mas não é necessariamente definitiva para a vida toda. O artigo cita que cerca de 20% a 25% dos pacientes podem precisar de algum procedimento secundário em 5 anos, seja nova embolização, TURP ou prostatectomia. Para um homem de 78 anos, ganhar 5 anos urinando melhor sem cirurgia pode ser excelente. Para um homem de 55 anos, é preciso explicar que provavelmente ele ainda poderá precisar de outro tratamento no futuro. 

Técnica e segurança 

O acesso pode ser femoral ou radial. O femoral é tradicional e permite acesso às ilíacas internas. O radial pode facilitar conforto e deambulação precoce, mas exige cateteres longos e atenção à anatomia do arco aórtico. O documento não aponta superioridade clara de um acesso sobre o outro. A escolha deve depender da experiência do operador e fatores do paciente. 

A anatomia arterial é o grande desafio. As artérias prostáticas são pequenas, geralmente de 0, 5 a 1, 5 mm, e muito variáveis. Existem quatro padrões de origem da artéria prostática, frequentemente a partir da divisão anterior da ilíaca interna, com origens que podem envolver pudenda interna, tronco comum com vesical superior, obturatória ou troncos glúteo-pudendos.  

Há ainda anastomoses perigosas. Ramos para reto podem aparecer em cerca de 30%, ramos vesicais em 20% a 30%, e colaterais para circulação peniana também podem existir. Embolização não alvo pode causar dor retal, ulceração, sintomas urinários mais intensos, isquemia vesical ou, raramente, lesão peniana. Por isso, cone-beam CT é destacado como ferramenta útil para confirmar território de perfusão e reduzir risco. 

As partículas mais usadas são microesferas calibradas ou partículas de PVA, geralmente entre 300 e 500 μm. Partículas menores, de 100 a 300 μm, não demonstraram melhor eficácia e podem aumentar eventos adversos. O endpoint é estase angiográfica, desaparecimento do blush prostático e interrupção do fluxo anterógrado nos ramos tratados. A embolização bilateral é o objetivo e é alcançada em aproximadamente 85% a 90% dos casos. Embolização unilateral isolada se associa a maior recorrência.  

Radiação tem risco pequeno, mas não desprezível 

Como a PAE usa fluoroscopia e angiografia, exposição à radiação é parte do procedimento. O artigo cita tempos de fluoroscopia variando amplamente, de 30 a 90 minutos, e dose-área produto média em torno de 182 Gy. cm² em revisão sistemática. 

Para um homem típico de 66 anos exposto a aproximadamente 200 Gy. cm², o risco vitalício estimado de morte por câncer induzido por radiação é de cerca de 0, 1%. É baixo, especialmente em pacientes idosos, mas não é zero. Deve ser informado, sobretudo em pacientes mais jovens. O uso de cone-beam CT e softwares de navegação pode, em alguns contextos, reduzir múltiplas aquisições angiográficas e ajudar na segurança, mas exige técnica adequada. 

Eventos adversos 

A síndrome pós-embolização é comum e geralmente leve. O artigo cita a incidência entre 10% e 25%. O paciente pode ter febre baixa, fadiga, dor pélvica ou perineal, ardor urinário e aumento da frequência urinária nos primeiros 1 a 3 dias, com melhora em cerca de 1 semana. O tratamento costuma ser suporte com anti-inflamatório, hidratação e analgésico urinário quando necessário.  

Os eventos comuns incluem retenção urinária, infecção urinária, hematúria, hematospermia, urgência, espasmo vesical e sintomas retais leves. A maioria é Clavien I ou II, autolimitada. Eventos graves são raros, em geral menos de 2% em algumas séries. Podem incluir urosepse, isquemia vesical, isquemia peniana e complicações de acesso vascular. 

Um ponto de aconselhamento é que a ejaculação retrógrada é muito menos frequente do que após TURP. O documento cita meta-análises sugerindo risco inferior a 2%. 

Resultados clínicos 

A melhora do IPSS após PAE fica em uma faixa ampla, aproximadamente 9 a 21 pontos. Esse é um ganho clinicamente relevante, já que uma mudança de 3 pontos no IPSS já pode ser percebida pelo paciente, e redução de 30% é considerada significativa. 

A PAE também reduz o volume prostático. O PSA costuma cair de 20% a 40% em até 6 meses, e a ressonância mostra redução de volume da zona central ou da glândula em faixa semelhante. O fluxo urinário melhora, mas menos do que após TURP. O Qmax aumenta geralmente 5 a 7 mL/s com PAE, enquanto a TURP pode aumentar 15 a 20 mL/s. 

A TURP tende a ser superior em desobstrução objetiva, fluxo urinário, redução de volume e resíduo pós-miccional. A PAE tende a ser melhor em recuperação, segurança e preservação sexual.   

Durabilidade e retratamento 

A PAE melhora sintomas por anos em muitos pacientes, mas não é uma solução permanente para todos. Como não remove tecido, mas induz isquemia e redução de volume, pode haver revascularização, crescimento progressivo da próstata ou surgimento de colaterais ao longo do tempo. 

 Em uma experiência de 10 anos de Carnevale e colaboradores, com seguimento mediano de 6 anos, cerca de 23% dos homens tiveram recorrência dos sintomas. Em outra grande série de Bilhim e colaboradores, com 1. 072 pacientes acompanhados por até 10 anos, as taxas de reintervenção foram 21, 1% em 5 anos e 58, 1% em 10 anos. 

A PAE é ótima para o paciente que valoriza menor invasividade, menor impacto sexual e recuperação rápida, aceitando a possibilidade de retratamento. Para quem quer a desobstrução mais forte e durável possível, e aceita maior risco de efeitos sexuais e cirúrgicos, TURP, HoLEP ou outras cirurgias podem ser mais adequadas, dependendo da anatomia e disponibilidade. 

Mensagem prática 

A principal mensagem do documento é que a embolização das artérias prostáticas amadureceu. Para o paciente certo, PAE oferece melhora sintomática relevante, baixo impacto sexual, recuperação rápida e possibilidade de tratamento ambulatorial. Para o paciente errado, pode frustrar expectativas, atrasar outro diagnóstico ou levar a retratamento precoce. 

Antes de indicar, confirme que os sintomas são realmente por HPB, A bexiga ainda tem função suficiente preservada e o paciente entende a troca entre menor invasividade e maior chance de retratamento futuro. 

Este conteúdo foi produzido com o suporte de ferramentas de inteligência artificial e revisado pelo editor-médico da especialidade. 

 

Autoria

Foto de Gabriel Madeira Werberich

Gabriel Madeira Werberich

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela UERJ; residências de Clínica Médica pela UERJ, Oncologia Clínica pelo INCA e Radiologia pela UFRJ. Fellow em Oncologia pelo Sírio Libanês e R4 em Radiologia pelo Copa D’or. Mestrado em medicina pela UFRJ. Pós-graduação em Inteligência Artificial aplicada a saúde pela Data Science Academy/Faculdade Facint. Atua em ambulatório, pesquisa clínica no INCA e revisa artigos.

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