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Afya News12 julho 2026

12/07/2026 | Saúde mental, silêncio e escuta clínica

Aftersun, O Acontecimento e Mil Coisas Invisíveis: três obras sobre o que não se diz mas se sente. Prescrição cultural para médicos sobre escuta ativa e presença clínica.

O que não se diz, mas se sente: saúde mental, silêncio e escuta na prescrição cultural de domingo

O episódio de domingo do Afya News traz três indicações culturais unidas por um fio condutor: o que permanece não dito, mas profundamente sentido. Um filme sobre depressão masculina silenciosa, um livro sobre o isolamento forçado de uma mulher que precisou abortar clandestinamente, e um disco sobre luto e impermanência. Obras que ensinam, cada uma à sua maneira, sobre a importância da escuta clínica e da presença diante do que o paciente ainda não consegue nomear.

Matérias citadas no episódio de hoje:

Aftersun: o retrato clínico da depressão masculina silenciosa

Sophie tem onze anos e passa as férias de verão com o pai, Calum, num resort na Turquia. As imagens são de câmera amadora, luz quente, piscina, risos, tudo parece feliz. Mas o filme da estreante Charlotte Wells é construído sobre o que não aparece nas gravações: a depressão silenciosa de um pai jovem que tenta, com toda a energia que tem, ser presente para a filha sem que ela perceba o quanto ele está se afogando.

Sophie só vai entender isso décadas depois, já adulta, revisitando essas fitas. Para médicos, Aftersun é um dos retratos mais precisos já feitos sobre saúde mental masculina e o silêncio que a cerca. Calum não pede ajuda, não nomeia o que sente, e funciona até não funcionar mais.

O filme convida a refletir sobre os pacientes que chegam ao consultório aparentemente bem, mas carregando algo que ainda não têm palavras para dizer. Disponível na MUBI e Apple TV+, é uma obra que fica por dias.

O Acontecimento: ética médica, corpo feminino e o peso do silêncio forçado

Em 1963, Annie Ernaux engravidou aos 23 anos e passou meses tentando abortar num país onde o procedimento era crime. O Acontecimento, publicado originalmente em 2000, é o relato dessa experiência com uma precisão cirúrgica e sem nenhuma concessão ao melodrama.

Ernaux narra o isolamento, o medo, o corpo que ela precisou conhecer de forma brutal, e a invisibilidade forçada de uma situação que milhares de mulheres viviam em silêncio. A escrita é curta, direta, e cada frase pesa.

Para profissionais de saúde, o livro tem uma dimensão ética incontornável: o sistema médico da época aparece como cúmplice do sofrimento, entre médicos que se recusam a ajudar e aqueles que cobram o silêncio como condição. Ernaux, que recebeu o Nobel de Literatura em 2022, escreve sobre o próprio corpo como território político, e essa leitura é essencial para qualquer médico que queira entender o que significa, de fato, escutar uma paciente.

Mil Coisas Invisíveis: escuta ativa, presença e comunicação médica através da música

No segundo álbum solo, Tim Bernardes entrega um disco sobre o que não se vê mas se vive: luto, amor, tempo, impermanência. As canções têm arranjos de câmara, cordas, piano, voz, e Tim canta como quem está pensando em voz alta, sem pressa.

Mil Coisas Invisíveis não foi feito para animar, mas para acompanhar. É o tipo de obra que pede uma tarde inteira, fones de ouvido e disposição para ficar quieto consigo mesmo.

Há algo profundamente clínico na escuta que o disco exige: atenção ao detalhe, tolerância ao silêncio, presença. São as mesmas qualidades que distinguem um bom médico de um médico excelente. Tim Bernardes, vocalista do O Terno, já é referência consolidada da nova MPB, mas é neste disco que ele vai mais fundo. Uma obra que, curiosamente, pode ensinar mais sobre escuta ativa do que muitos cursos de comunicação médica.

Esse foi o Afya News de hoje! Para acompanhar diariamente as principais atualizações médicas com análise especializada, inscreva-se no Afya News no Spotify e YouTube. Até o próximo episódio!

Autoria

Foto de Redação Afya News

Redação Afya News

Podcasts e videocasts produzidos com curadoria médica especializada, conduzida pelo Dr. Guilherme Rodrigues (CRM-RJ 1049461 | RQE 37692), chefe do Departamento de Catarata do Instituto Benjamin Constant (RJ) e Editor-Chefe de Conteúdo Médico da Afya Educação Médica, além de Professor do curso de Inteligência Artificial da Afya. Todo o conteúdo é gravado com apoio de tecnologias de Inteligência Artificial, assegurando eficiência produtiva, qualidade técnica e escalabilidade, sem abrir mão do rigor científico e da relevância clínica.

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