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Pneumologia22 setembro 2026

Tozoraquimabe na DPOC: uma nova perspectiva além do fenótipo eosinofílico

Estudo avalia o uso do medicamento na DPOC e seu potencial terapêutico em pacientes com diferentes perfis inflamatórios

A DPOC figura entre as principais causas de mortalidade no mundo e impõe expressiva perda funcional e de qualidade de vida aos pacientes. Decorrente da exposição crônica à fumaça do tabaco e a outras partículas nocivas, a ativação inflamatória do epitélio respiratório deflagra uma cascata progressiva de destruição do parênquima pulmonar e remodelamento das vias aéreas. O desfecho clínico é a limitação persistente ao fluxo aéreo, manifestada por dispneia e tosse crônica.

Nesse curso, as exacerbações funcionam como a principal engrenagem de declínio da função pulmonar e de deterioração do estado de saúde. Mais do que episódios respiratórios agudos que motivam idas à emergência e internações, esses eventos amplificam a inflamação sistêmica e elevam transitoriamente o risco cardiovascular, sendo frequente a ocorrência de síndromes coronarianas agudas ou acidentes vasculares encefálicos logo após um quadro agudo de exacerbação. Por essa razão, terapias direcionadas a interromper precocemente essa cascata biológica têm sido o foco de grandes pesquisas recentes.

Este texto analisa os resultados dos estudos clínicos de fase 3 OBERON e TITANIA, integrantes do programa LUNA, que avaliaram a eficácia e a segurança do Tozoraquimabe na prevenção de exacerbações em pacientes com DPOC moderada a muito grave, sintomáticos e em tratamento inalatório otimizado. A análise destaca especialmente o impacto da terapia sobre a taxa anualizada de exacerbações e seu potencial em pacientes independentemente do fenótipo eosinofílico.

Da inflamação T2 às alarminas epiteliais 

Nos últimos anos, a inflamação do tipo 2 (T2) consolidou-se como alvo terapêutico na DPOC. Pacientes com contagem sérica elevada de eosinófilos (sobretudo ≥ 300 células/μL) concentram maior risco de exacerbações e respondem favoravelmente a imunobiológicos como Dupilumabe e Mepolizumabe. Contudo, a maior parte dos portadores de DPOC não apresenta predomínio eosinofílico, restando uma expressiva lacuna para abordagens eficazes independentemente desse biomarcador.  

O epitélio respiratório funciona como a primeira sentinela desse processo. Sob estímulo nocivo contínuo, as células epiteliais liberam citocinas de estresse chamadas de alarminas — com destaque para a TSLP e a interleucina-33 (IL-33) —, que disparam cascatas inflamatórias e lesão tecidual. A IL-33, em particular, atua por vias distintas: em sua forma reduzida, liga-se ao receptor ST2 de células imunes, estimulando cascatas inflamatórias que levam a dano tecidual; já em sua forma oxidada, atua sobre receptores epiteliais, promovendo hipersecreção de muco e remodelamento de vias aéreas.  

Essa dupla atuação ajuda a compreender por que estratégias anteriores focadas exclusivamente no bloqueio da via ST2 (como Itepequimabe e Astegolimabe) apresentaram resultados clínicos inconsistentes em estudos de fase 3. O Tozoraquimabe surge para cobrir esse espaço: trata-se de um anticorpo monoclonal humano com afinidade para inibir tanto a forma reduzida quanto a forma oxidada da IL-33.  

O Programa LUNA: OBERON e TITANIA 

O programa clínico LUNA engloba quatro ensaios clínicos randomizados (OBERON, TITANIA, PROSPERO e MIRANDA). Recentemente, o New England Journal of Medicine publicou os dados dos dois estudos pivotais de fase 3, conduzidos com protocolos idênticos e de forma paralela: OBERON e TITANIA. A pergunta clínica foi direta: em pacientes com DPOC moderada a muito grave (grupo E do GOLD), sintomáticos e sob terapia inalatória otimizada, o bloqueio da IL-33 com Tozoraquimabe reduz a taxa anualizada de exacerbações?  

Foram incluídos adultos com 40 anos ou mais, diagnóstico de DPOC há pelo menos 12 meses, história de tabagismo ≥ 10 maços-ano, em terapia inalatória estável há 3 meses (cerca de 90% em tripla terapia com LABA/LAMA/CI) e histórico de alto risco no ano anterior (pelo menos duas exacerbações moderadas ou uma grave). Para refletir os pacientes que mais sofrem com hipersecreção, exigiu-se escore no CAT ≥ 10, com pontuação ≥ 2 especificamente nos itens de tosse e expectoração. A função pulmonar basal exigia VEF1 pós-broncodilatador entre 20-80% do previsto. Foram excluídos pacientes com outras doenças respiratórias significativas, como asma.  

A entrada de fumantes ativos foi limitada a cerca de 20-25% da amostra, em virtude de dados de estudos anteriores que sugeriam menor eficácia biológica do bloqueio de IL-33 sob exposição ativa ao fumo.  

Os pacientes foram randomizados para receber Tozoraquimabe subcutâneo (300 mg) ou placebo a cada 4 semanas por 52 semanas, mantendo a terapia inalatória de base. Inicialmente, os estudos previam um braço com aplicação a cada 8 semanas; no entanto, dados farmacocinéticos de fase 2 evidenciaram que esse intervalo resultava em menor concentração sérica de vale e menor engajamento do alvo, motivando a interrupção precoce desse braço posológico. Essa alteração ocorreu antes de qualquer quebra de cegamento, preservando a integridade estatística da comparação entre a dose de 4 semanas e o placebo.  

Resultados de eficácia e significado estatístico 

O desfecho primário foi a taxa anualizada de exacerbações moderadas ou graves na coorte pré-especificada de ex-fumantes, analisada por meio de regressão binomial negativa. O primeiro desfecho secundário-chave foi a mesma taxa na população geral (fumantes ativos e ex-fumantes):  

  • Em ex-fumantes (desfecho primário): Houve redução estatisticamente significante na taxa de exacerbações de 29% no OBERON (taxa de 1,34 versus 1,90 eventos/ano; rate ratio [RR] 0,71; IC 95%: 0,57 a 0,88; P = 0,002) e de 34% no TITANIA (taxa de 1,37 versus 2,07 eventos/ano; RR 0,66; IC 95%: 0,55 a 0,80; P < 0,001).
  • Na população geral: A redução foi consistente, de 30% no OBERON (RR 0,70; IC 95%: 0,58 a 0,85; P < 0,001) e de 29% no TITANIA (RR 0,71; IC 95%: 0,59 a 0,84; P < 0,001).  

A replicação desses achados em dois ensaios fase 3 independentes, com populações expressivas (OBERON com 877 pacientes e TITANIA com 873 pacientes), confere elevado rigor metodológico e minimiza o risco de falso-positivo (erro tipo I).  

O grande diferencial do estudo surgiu na análise conjunta de subgrupos: ao contrário de Mepolizumabe e Dupilumabe, o Tozoraquimabe manteve eficácia independente da contagem inicial de eosinófilos sanguíneos, com redução de exacerbações tanto em pacientes com < 150 céls/μL (RR 0,76–0,77) quanto naqueles com ≥ 300 céls/μL (RR 0,57).  

Vale pontuar, sob o olhar da estatística inferencial, que o segundo desfecho secundário-chave da cadeia hierárquica (melhora na qualidade de vida pelo questionário SGRQ em ex-fumantes) não atingiu significância estatística frente ao placebo em nenhum dos dois estudos. Com a ruptura da cadeia pré-especificada, os desfechos subsequentes (como variações em VEF1 e sintomas diários) tornaram-se formalmente descritivos/exploratórios, indicando que o impacto clínico central da medicação reside na redução de exacerbações, e não no ganho agudo de função pulmonar ou no alívio expressivo de sintomas.  

Sinais de alerta: segurança cardiovascular 

A incidência global de eventos adversos e eventos adversos graves foi semelhante entre os grupos de intervenção e placebo. Contudo, observou-se um desbalanço numérico em eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE): no ensaio TITANIA, MACE ocorreu em 2,5% no grupo Tozoraquimabe versus 1,1% no placebo; no OBERON, foram 2 casos (0,4%) com a droga e nenhum no placebo. As mortes por qualquer causa no TITANIA também foram numericamente superiores na intervenção (2,5% versus 0,9%).  

Embora a incidência absoluta seja baixa e os comitês independentes de adjudicação não tenham identificado um padrão específico nas causas dos óbitos ou nos subtipos de MACE, o dado exige atenção biológica. Fisiologicamente, a via IL-33/ST2L miocárdica desempenha papel cardioprotetor contra estresse mecânico, hipertrofia ventricular e fibrose. Em pacientes com DPOC, que compartilham elevada carga aterosclerótica pelo tabagismo prévio, o bloqueio sistêmico dessa alarmina levanta hipóteses de segurança que ensaios de 52 semanas não possuem poder estatístico para esclarecer definitivamente. Esse sinal reforça a importância do seguimento de longo prazo no estudo de extensão (PROSPERO) e na vigilância de vida real pós-comercialização.  

Mensagem prática para o clínico 

Os estudos OBERON e TITANIA posicionam o Tozoraquimabe como a primeira perspectiva biológica concreta para pacientes com DPOC de alto risco (frequentes exacerbadores em uso de terapia inalatória máxima) que não possuem o perfil inflamatório tipo 2/eosinofílico. Na prática futura, a droga não deve ser vista como um broncodilatador sintomático, mas sim como uma terapia modificadora de risco de exacerbação.

Autoria

Foto de Bruna Provenzano

Bruna Provenzano

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Residência em Clínica Médica e Pneumologia pela UERJ. Pós-graduação em Terapia Intensiva pelo ID'Or, com título de Terapia Intensiva pela AMIB. Mestre em Ciências pela UERJ.

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