A diretriz da American Thoracic Society (ATS), aprovada em maio de 2026, atualiza o papel do suporte ventilatório não invasivo em adultos com insuficiência respiratória aguda. O documento organiza as recomendações em quatro cenários clínicos: insuficiência respiratória hipoxêmica aguda, insuficiência respiratória hipercápnica aguda, pré-oxigenação antes da intubação e suporte respiratório após a extubação.
O objetivo é orientar o uso da cânula nasal de alto fluxo (CNAF), da ventilação não invasiva (VNI) e do CPAP em comparação com a oxigenoterapia padrão, com foco em reduzir a necessidade de ventilação mecânica invasiva e melhorar desfechos clínicos. A diretriz também diferencia VNI, entendida como ventilação bilevel, e CPAP como estratégias distintas.
Como a diretriz foi elaborada?
O documento utilizou a metodologia GRADE, com base em revisões sistemáticas e metanálises em rede. A ATS reforça que a escolha da modalidade deve considerar não apenas a evidência disponível, mas também o perfil clínico do paciente, a capacidade de monitorização da equipe e a prontidão para escalonamento rápido quando houver falha da terapia.
Insuficiência respiratória hipoxêmica aguda
Na insuficiência respiratória hipoxêmica aguda, a prioridade é melhorar a troca gasosa, reduzir o trabalho respiratório e evitar a intubação. Nesse cenário, a diretriz recomenda fortemente a CNAF, associada à redução da necessidade de intubação, boa tolerância e facilidade de instalação.
A CNAF fornece oxigênio aquecido e umidificado em alto fluxo, podendo chegar a 60 L/min. Esse mecanismo ajuda a reduzir o espaço morto anatômico e gera baixos níveis de pressão positiva nas vias aéreas. VNI e CPAP também reduzem a necessidade de intubação em comparação com a oxigenoterapia padrão, mas recebem recomendação condicional, principalmente por desafios práticos como adaptação à máscara e necessidade de monitorização mais próxima.
A diretriz não estabelece superioridade entre CNAF, VNI e CPAP na hipoxemia aguda. Como todas demonstraram benefício em relação ao suporte padrão, a escolha deve ser individualizada conforme a condição clínica, a tolerância ao equipamento, os recursos disponíveis e a experiência da equipe.
Insuficiência respiratória hipercápnica aguda
Na insuficiência respiratória hipercápnica aguda, o objetivo central é favorecer a eliminação de CO2. Para esse cenário, a recomendação forte é o uso de VNI por máscara facial em vez da oxigenoterapia convencional. A evidência aponta redução de mortalidade, menor taxa de intubação e menor tempo de internação, sobretudo em exacerbações de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Diferentemente da hipoxemia, a CNAF não aparece como primeira escolha na hipercapnia. Ela pode ser considerada de forma condicional em pacientes com acidemia leve, como pH > 7,25, desde que exista monitorização rigorosa e possibilidade de escalonamento rápido para VNI.
Quanto ao CPAP, a diretriz não faz recomendação a favor ou contra nesse contexto, porque os estudos disponíveis são mais antigos, metodologicamente limitados e avaliaram populações heterogêneas. Também é necessário cuidado ao extrapolar os achados para causas de hipercapnia diferentes da exacerbação de DPOC.
Pré-oxigenação antes da intubação
A pré-oxigenação é uma etapa crítica para reduzir complicações durante a intubação orotraqueal. Em pacientes com insuficiência respiratória aguda que serão intubados, a ATS recomenda fortemente CNAF ou VNI em vez da oxigenoterapia padrão. As duas estratégias aumentam a reserva de oxigênio e reduzem o risco de hipoxemia grave e parada cardíaca durante o procedimento.
A diretriz não indica uma modalidade como superior à outra. Na prática, pacientes que já estão em CNAF podem se beneficiar da manutenção da estratégia durante a preparação para a intubação. Em outros casos, a VNI pode ser preferida quando a equipe deseja maximizar o recrutamento alveolar antes do procedimento.
O ponto central é que a pré-oxigenação não deve atrasar uma intubação necessária. Em caso de instabilidade importante ou falência iminente de via aérea, o tempo do procedimento deve prevalecer.
Suporte respiratório após a extubação
Após a extubação em UTI, a diretriz sugere, de forma condicional, o uso de CNAF ou VNI por máscara facial em vez da oxigenoterapia padrão. O objetivo é reduzir a reintubação, evento associado a pior prognóstico, maior tempo de internação em UTI e mais complicações.
Nos pacientes com alto risco de falha de extubação, a recomendação condicional favorece especificamente a VNI em vez de CNAF ou oxigenoterapia padrão. Entre os fatores de alto risco citados estão idade igual ou superior a 65 anos, doença cardiopulmonar, APACHE II ≥ 12, índice de massa corporal ≥ 30, problemas de patência de via aérea, risco de edema laríngeo, incapacidade de manejar secreções, desmame complexo, mais de duas comorbidades e ventilação mecânica prolongada por sete dias ou mais.
A diretriz diferencia o uso profilático imediato após a extubação do uso de resgate quando a insuficiência respiratória já está instalada. A evidência é mais favorável ao uso preventivo. Nos quadros de falência respiratória pós-extubação já estabelecida, especialmente com CNAF, os resultados são menos consistentes. Por isso, a recomendação pressupõe reavaliação contínua e escalonamento rápido diante de qualquer piora.
Mensagem prática
A diretriz suporte ventilatório da ATS reforça quatro mensagens principais para a prática clínica: CNAF é a estratégia de primeira linha na insuficiência respiratória hipoxêmica aguda; VNI por máscara facial segue como padrão de cuidado na falência hipercápnica aguda, especialmente na exacerbação de DPOC; CNAF ou VNI são recomendadas para pré-oxigenação antes da intubação; e CNAF ou VNI podem ser utilizadas no pós-extubação, com preferência pela VNI em pacientes de alto risco.
Mais do que escolher um dispositivo, a recomendação central é individualizar a conduta. O sucesso do suporte ventilatório não invasivo depende de seleção adequada do paciente, monitorização fisiológica rigorosa, experiência da equipe e protocolos claros para intubação ao primeiro sinal de falha terapêutica.
Autoria

Bruna Provenzano
Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Residência em Clínica Médica e Pneumologia pela UERJ. Pós-graduação em Terapia Intensiva pelo ID'Or, com título de Terapia Intensiva pela AMIB. Mestre em Ciências pela UERJ.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.