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Pneumologia18 maio 2026

Atualização GINA 2026: A consolidação das estratégias anti-inflamatórias na asma

GINA 2026 reforça terapia anti-inflamatória precoce e elimina uso isolado de SABA no tratamento da asma.

A Global Initiative for Asthma (GINA) publicou sua atualização de 2026, cujo foco central é a redução definitiva do risco associado ao uso isolado de broncodilatadores de curta ação (SABA) e a implementação precoce de terapias com corticoide inalatório (CI). A asma é uma doença inflamatória, de modo que uma terapia anti-inflamatória é a peça central no tratamento. 

atualização GINA 2026

Diagnóstico e Ferramentas de Avaliação Clínica 

No âmbito diagnóstico, a diretriz de 2026 mantém o critério clássico para a determinação da responsividade ao broncodilatador (BDR), caracterizado pelo incremento do VEF₁ ou da CVF, igual ou superior a 12% e 200 mL, em relação ao valor basal. O racional clínico reafirma o uso desses valores absolutos com base em dados consolidados de mortalidade e de prevalência na população geral.  

Como novidade, foram incorporadas ferramentas validadas de triagem e controle: o Chronic Airways Assessment Test (CAAT), voltado à avaliação de sintomas respiratórios amplos na asma e na DPOC; e o Pediatric Asthma Impairment and Risk Questionnaire (Peds-AIRQ), voltado a crianças de 5 a 11 anos. O Peds-AIRQ categoriza o controle em escores (0-1: controlado; 2-4: não controlado; 5-8: mal controlado), correlacionando pontuações elevadas com maior risco de exacerbações futuras. Para a avaliação da gravidade da asma aguda pediátrica de 2 a 17 anos, a diretriz adota formalmente o escore estruturado Pediatric Respiratory Assessment Measure (PRAM). 

Manejo Ambulatorial em Adultos e Adolescentes: Mudanças no Track 2 e o Estudo BATURA 

Na terapia de manutenção, o Track 1 (uso de CI-formoterol como resgate e terapia de manutenção – MART) permanece como a abordagem preferencial, devido à eficácia demonstrada na redução do risco de crises graves.  

O avanço mais expressivo do GINA 2026 ocorreu no Track 2 (estratégia alternativa) no Step 1. A recomendação para o Step 1 do Track 2 passa a ser a terapia de alívio anti-inflamatório isolada (AIR-only), por meio da combinação fixa ou separada de CI+SABA, conforme a necessidade, abolindo o uso isolado de SABA. O racional clínico para essa mudança fundamenta-se nos resultados do estudo BATURA (2025), que demonstrou que o uso sob demanda da associação budesonida-salbutamol reduziu a taxa anualizada de exacerbações graves em 53% (HR 0,53; IC 95% 0,39-0,73) em comparação à monoterapia com SABA. 

Outra mudança substancial foi a recomendação da dose máxima de inalações por dia. Tanto no track 1 quanto no track 2, o paciente é orientado a buscar atendimento médico se mais de 12 inalações forem realizadas no mesmo dia. 

Manejo da Asma na Faixa Etária Pediátrica (6 a 11 anos) e o Estudo CARE 

Em consonância com as atualizações para adultos, o tratamento com SABA isolado deixa de ser recomendado para crianças de 6 a 11 anos. No Step 1 pediátrico, as opções preferenciais passam a incluir a estratégia com CI-formoterol em baixa dose, conforme a necessidade, ou a combinação CI+SABA. Essa alteração de conduta é respaldada pelo estudo CARE (2025), conduzido em uma população de 5 a 15 anos. Os dados evidenciaram uma redução de 45% na taxa anualizada de exacerbações asmáticas graves com a terapia de resgate anti-inflamatória sob demanda. 

Da mesma forma que para os adultos, a dose máxima diária é de 8 inalações por dia. Se forem feitas mais, é importante orientar o paciente à procurar ajuda médica.  

Manejo da Asma Grave e Novas Terapias Biológicas 

No manejo da asma grave (Step 5), o GINA 2026 atualizou as evidências sobre a tripla terapia inalatória (CI-LABA-LAMA), validando a associação budesonida-formoterol-glicopirrônio para pacientes com idade igual ou superior a 12 anos. No campo dos agentes biológicos, foi incluído o biossimilar anti-IgE (omalizumabe-igec), com as mesmas indicações do anticorpo de referência, para pacientes a partir dos 6 anos. Adicionalmente, introduziu-se o depemokimabe, um anticorpo anti-IL5 de ação prolongada administrado por via subcutânea a cada 26 semanas. Indicado para asma eosinofílica grave e rinossinusite crônica com polipose nasal em maiores de 18 anos, o depemokimabe demonstrou redução aproximada de 50% nas exacerbações graves (estudos SWIFT). A diretriz também incorporou os dados do estudo NIMBLE (2026), que investigou a transição de pacientes previamente controlados com mepolizumabe ou benralizumabe diretamente para o depemokimabe. Contudo, o estudo não atingiu o critério estatístico pré-especificado de não-inferioridade, de modo que a troca, devido à comodidade posológica, deve ser individualizada. O tezepelumabe ganhou uma nova indicação, sendo também possível tratar a rinossinusite crônica com polipose nasal.  

Atualização das Diretrizes de Exacerbação: Abordagem na Emergência e Atenção Primária 

A principal mudança prática no manejo da asma aguda consiste na introdução de quatro novos fluxogramas completos de conduta. Estes guias estruturam o atendimento, separando a Atenção Primária dos Serviços de Emergência (ED), em faixas etárias (adultos, adolescentes e crianças de 6 a 11 anos versus crianças de 5 anos ou menos). As atualizações clínicas mais relevantes integradas a esses fluxogramas incluem: 

  • Oxigenoterapia: A administração de oxigênio suplementar é recomendada apenas se a saturação periférica (SpO₂) estiver abaixo de 92% em ar ambiente. O alvo terapêutico é entre 92% e 95% para adultos, adolescentes e crianças de 6 a 11 anos (e ≥92% para crianças de 5 anos ou menos). O racional é evitar os efeitos deletérios da hiperóxia.  
  • CI-Formoterol na crise Leve: Para apresentações leves na atenção primária, pode-se considerar a administração de CI-formoterol em substituição ao SABA, visto que seu início de ação broncodilatadora mimetiza a rapidez do SABA, com a vantagem de agregar proteção anti-inflamatória imediata. 
  • Restrição de Doses e Risco de Acidose Láctica por SABA: O GINA 2026 recomenda doses menores de SABA do que as historicamente utilizadas. Além disso, orienta homogeneizar a amostra sempre antes de fazer e utilizar o espaçador. O racional clínico baseia-se no risco documentado de toxicidade sistêmica por SABA; o excesso de doses induz acidose láctica, que provoca taquipneia compensatória, frequentemente confundida pelo médico com a piora da asma, o que gera um ciclo perigoso de superdosagem. 
  • Confirmação do diagnóstico e medição da função pulmonar em crises: A realização de espirometria (ou peak flow) agora é fortemente recomendada para pacientes com suspeita de crise de asma (exceto pré-escolares ou casos com risco de vida), antes e após o broncodilatador, e novamente antes da alta, para confirmar e documentar definitivamente o diagnóstico de asma. 

Critérios de Alta e a Crise como Evento Sentinela 

A resposta ao tratamento instituído na emergência deve ser formalmente reavaliada no prazo máximo de 1 hora. A diretriz enfatiza que uma única exacerbação que necessite de atendimento médico de urgência ou de corticoide oral (CO) representa um “evento sentinela” (red flag). Esse evento indica falha no controle do paciente e exige, obrigatoriamente, a revisão imediata do tratamento de manutenção, para prevenir novas crises. Para a programação da alta, o paciente deve ter documentada a prescrição de um inalador contendo corticoide inalatório (preferencialmente em regime MART), passar por revisão da técnica inalatória e ter uma consulta de acompanhamento ambulatorial agendada em um período de 2 a 3 meses (ou de 2 a 7 dias, a depender da faixa etária e da gravidade). 

A principal mensagem do GINA 2026 é a urgência em garantir o acesso universal à terapia inalatória anti-inflamatória (contendo corticosteroide) para todas as pessoas com asma, sendo essa a estratégia mais simples e eficaz para tratar a inflamação, reduzir a mortalidade, prevenir exacerbações graves e minimizar o uso danoso de corticosteroides orais. 

Autoria

Foto de Bruna Provenzano

Bruna Provenzano

Medica formada pela UERJ em 2014. Residência de clínica médica pela UERJ de 2015 a 2017. Pós-graduação em terapia intensiva pelo ID'Or. Título de terapia intensiva pela AMIB. Pneumologista pela UERJ.

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