O manejo da Fibrose Pulmonar Idiopática (FPI) passa por um momento histórico. Durante o congresso da American Thoracic Society (ATS 2026), as sessões de grande impacto revelaram os dados definitivos de eficácia e segurança dos estudos de fase 3 TETON-1 e TETON-2. Apresentados pelo Dr. Steven D. Nathan, os ensaios avaliaram o treprostinil inalatório — um análogo da prostaciclina que atua em múltiplos receptores acoplados a vias antifibróticas (como os receptores de prostaciclina E2, prostaglandina D1 e receptores ativados por proliferadores de peroxisoma).
Os resultados confirmam que a medicação reduz de forma robusta o declínio funcional da doença, mas consolidam um grande desafio prático na rotina do pneumologista: a nebulizer fatigue (fadiga do nebulizador) e o manejo dos eventos adversos locais.
O Impacto Funcional: proteção e sinergia em 52 semanas
Os dois estudos de fase 3, multinacionais, duplo-cegos e controlados por placebo, avaliaram o treprostinil (alvo de 12 aspirações, 4 vezes ao dia) durante 52 semanas em pacientes com FPI e capacidade vital forçada (CVF) basal > 45% do predito . Os desfechos primários demonstraram benefícios funcionais marcantes na preservação da CVF absoluta:
- TETON-1: Diferença favorável ao treprostinil corrigida por placebo de 130,1 mL ao final de 52 semanas (P < 0,001)
- TETON-2: Diferença favorável de 95,6 mL (variação mediana de -49,9 mL no braço ativo vs. -136,4 mL no placebo; P < 0,001)
- Dados Agregados: De forma conjunta, o benefício líquido na preservação da CVF alcançou aproximadamente 112 mL em 52 semanas
A separação das curvas funcionais ocorreu de forma precoce, a partir da 8ª semana. O efeito protetor mostrou-se consistente mesmo na análise de subgrupos de pacientes que já utilizavam terapia antifibrótica oral de base estável (nintedanibe ou pirfenidona), sugerindo uma ação sinérgica e complementar de vias fisiopatológicas distintas na cascata da fibrogênese.
Em relação aos desfechos secundários, o tratamento reduziu significativamente o risco de piora clínica global (desfecho composto por óbito, hospitalização respiratória ou queda > 10% na CVF predita) em 33% no TETON-1 (HR 0,67) e em 29% no TETON-2 (HR 0,71). Não houve diferença estatisticamente significativa no tempo isolado até a primeira exacerbação aguda ou na mortalidade geral ao final de 1 ano, sendo importante ressaltar que os estudos não foram desenhados para tal.
O Desafio Prático: Perfil de Segurança e Descontinuação
Se os dados de eficácia entusiasmam, o perfil de tolerabilidade acende um alerta para a prática clínica real. O principal ponto crítico reside na elevada taxa de descontinuação prematura do tratamento:
- TETON-1: 40,5% de descontinuação no grupo ativo vs. 32,8% no placebo
- TETON-2: 33,6% de descontinuação no grupo ativo vs. 24,7% no placebo
Aproximadamente metade dessas interrupções foi atribuída diretamente a eventos adversos. O sintoma mais comum foi a tosse, que acometeu 54,8% dos pacientes no TETON-1 e 48,3% no TETON-2 (contra 33,1% e 24,1% nos placebos, respectivamente) . Embora categorizada como grave em menos de 1% dos tratados, a tosse irritativa foi o principal gatilho para a suspensão do fármaco (motivando a parada em 4,0% dos pacientes sob tratamento ativo no TETON-2) .
A rotina exigente de quatro nebulizações diárias, somada a tosse, culminou no cenário de nebulizer fatigue. Uma análise complementar revelou que centros de pesquisa com maior volume e experiência no manejo de dispositivos inalatórios apresentaram taxas de descontinuação dramaticamente menores (apenas 18% no centro com maior inclusão do TETON-1), destacando o papel do suporte à equipe e ao paciente .
Implicações para a Prática do Pneumologista
A validação da via inalatória no programa TETON inaugura uma perspectiva promissora ao aperfeiçoar a deposição do fármaco diretamente na interface alveolar, minimizando a toxicidade sistêmica. Contudo, transpor esse sucesso para o mundo real exigirá do pneumologista uma postura proativa no consultório .
Diante de taxas de descontinuação que superaram um terço dos usuários no ambiente controlado da pesquisa, o sucesso terapêutico dependerá crucialmente de um processo intensivo de educação em saúde e acolhimento contínuo . É fundamental antecipar ao paciente o manejo de sintomas locais (como tosse e cefaleia) logo nos meses iniciais, além de contextualizar o esforço diário exigido pela rotina de quatro nebulizações frente ao ganho real na redução do risco de piora clínica e na preservação da reserva funcional pulmonar.
Autoria

Bruna Provenzano
Medica formada pela UERJ em 2014. Residência de clínica médica pela UERJ de 2015 a 2017. Pós-graduação em terapia intensiva pelo ID'Or. Título de terapia intensiva pela AMIB. Pneumologista pela UERJ.
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