Durante o congresso da American Thoracic Society (ATS 2026), a sessão de Breaking News trouxe uma das atualizações mais aguardadas para a medicina do sono. Os professores Sanjay R. Patel, MD, MS, ATSF (Univ. of Pittsburgh Medical Center), e Patrick J. Strollo, MD, ATSF (Univ. of Pittsburgh School of Medicine), apresentaram a análise agrupada dos dados de Fase 3 dos ensaios clínicos SynAIRgy e LunAIRo.
Os resultados confirmam o protagonismo do AD109 — uma combinação oral de dose fixa de aroxibutinina (2,5 mg) e atomoxetina (75 mg) — como uma alternativa farmacológica para pacientes com Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS). Historicamente, a SAOS tem sido tratada prioritariamente com o CPAP ou dispositivos intraorais. Contudo, uma parcela dos pacientes não tolera esse tratamento, permanecendo vulneráveis aos efeitos deletérios da SAOS. O AD109 inaugura a era dos moduladores neuromusculares.
A fisiopatologia da SAOS envolve o relaxamento excessivo dos músculos da via aérea superior durante o sono e a falha em reativá-los no momento dos eventos obstrutivos. Ao combinar as propriedades antimuscarínicas da aroxibutinina com a inibição seletiva da recaptação de noradrenalina pela atomoxetina, a medicação atua diretamente no sistema nervoso central e periférico para aumentar o tônus muscular do músculo genioglosso e de outros dilatadores das vias aéreas durante o repouso, prevenindo o colapso respiratório.
A análise combinada revelou dados de eficácia impressionantes:
- Redução do IAH: O uso de AD109 promoveu uma redução de 52% no Índice de Apneia-Hipopnea (IAH) durante o tratamento.
- Resolução Completa: 23% dos pacientes atingiram a resolução completa da doença, normalizando o IAH para valores abaixo de 5 eventos por hora.
Um dos dados de maior impacto clínico além da simples redução numérica de eventos é a mitigação do fardo da hipoxemia (hypoxemia burden). Sabe-se que a magnitude e a duração da dessaturação da oxihemoglobina (mais do que o IAH isolado) são os principais preditores de injúria endotelial, ativação simpática e remodelação miocárdica.
Ao manter a patência das vias aéreas através do estímulo neuromuscular contínuo, o AD109 reduzir o estresse hipóxico intermitente, podendo contribuir para a redução de eventos cardiovasculares graves, por tratar o princiapl elo fisiopatologico.
Além do ganho fisiológico, os desfechos centrados no paciente demonstraram melhorias clínicas altamente perceptíveis:
- Percepção de Fadiga Diurna: Os pacientes em uso da medicação relataram melhora significativa na disposição e redução expressiva da sonolência excessiva e fadiga diurna, refletindo diretamente no ganho de produtividade e qualidade de vida.
- Redução do Ronco: Houve uma diminuição expressiva na intensidade e frequência do ronco, um fator crucial que melhora não apenas o sono do paciente, mas também a dinâmica e o descanso dos cônjuges.
Como toda nova terapia molecular, o AD109 apresenta desafios de tolerabilidade. O perfil de segurança reportado no pooled analysis indicou que os principais efeitos adversos associados ao perfil farmacológico das drogas foram a boca seca (efeito anticolinérgico da aroxibutinina) e a insônia (efeito noradrenérgico da atomoxetina).
Esses sintomas foram o principal gatilho para uma taxa de descontinuidade de 25% no grupo intervenção. É de extrema relevância prática notar que essas interrupções ocorreram majoritariamente no primeiro mês de tratamento. Outras questões importantes levantadas durante a apresentação foi sobre o uso prolongado de anticolinergicos e a associação com demencia, além de risco de hipertensao arterial sistemica decorrente da atomoxetina.
O AD109 surge no arsenal terapêutico não para substituir o CPAP, mas para preencher uma lacuna histórica. Ele se consolida como uma excelente possibilidade terapêutica para pacientes com SAOS que possuem o fenótipo de fraqueza neuromuscular predominante e, de forma ainda mais urgente, para a imensa parcela de pacientes que não toleram ou recusam o uso do CPAP.
Ter a possibilidade de tratar uma doença sistêmica e grave de forma eficaz através de uma única tomada oral antes de dormir altera profundamente a nossa prática clínica, trazendo novas perspectivas de sobrevida e bem-estar para os pacientes cardiopatas e pneumopatas.
Autoria

Bruna Provenzano
Medica formada pela UERJ em 2014. Residência de clínica médica pela UERJ de 2015 a 2017. Pós-graduação em terapia intensiva pelo ID'Or. Título de terapia intensiva pela AMIB. Pneumologista pela UERJ.
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