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Ortopedia7 maio 2026

Tratar osteoporose após fratura do colo do fêmur: uma oportunidade perdida?

Tratamento da osteoporose após fratura do colo do fêmur reduz novas fraturas, mas ainda é pouco prescrito.
Por Rafael Erthal

A fratura do colo do fêmur no idoso é um evento sentinela. Mais do que uma lesão óssea isolada, ela representa um alerta sobre a fragilidade esquelética e o risco iminente de novas fraturas. A literatura é clara: uma fratura por fragilidade aumenta significativamente a probabilidade de uma segunda fratura, especialmente nos primeiros anos. O que surpreende, porém, é como esse alerta continua sendo ignorado na prática clínica. 

Um estudo conduzido por pesquisadores do Departamento de Cirurgia Ortopédica da Universidade Emory, em Atlanta, em parceria com outras instituições americanas, investiga essa lacuna preocupante. Os autores analisaram dados de mais de 17 mil pacientes com 50 anos ou mais submetidos a tratamento cirúrgico de fraturas do colo do fêmur entre 2009 e 2022, utilizando um grande banco de dados.  

O objetivo da pesquisa foi avaliar o impacto do tratamento farmacológico da osteoporose na prevenção de uma segunda fratura de quadril e, ao mesmo tempo, dimensionar a adesão dos médicos às diretrizes de tratamento. O trabalho foi publicado no “Journal of Arthroplasty” em fevereiro de 2026. 

osteoporose após fratura do colo do fêmur

O tratamento da osteoporose reduz o risco de segunda fratura? 

Sim, e de forma expressiva. Os pacientes que iniciaram tratamento medicamentoso para osteoporose no primeiro ano após a fratura apresentaram uma redução significativa no risco de uma nova fratura de quadril em todos os períodos analisados. A análise de regressão de Cox demonstrou uma Razão de Riscos de 0,56 em três anos, 0,63 em cinco anos e 0,57 em dez anos. Em outras palavras, o tratamento foi associado a uma redução de até 44% no risco de uma segunda fratura. 

O benefício absoluto aumentou com o tempo: a redução de risco absoluto foi de 1,8% em três anos, 2,2% em cinco anos e 6,9% em dez anos. O número necessário para tratar caiu de 56 em três anos para apenas 15 em dez anos, evidenciando que o benefício se acumula ao longo do tempo. 

Quantos pacientes recebem tratamento adequado? 

Apenas 6,3% dos pacientes sem tratamento prévio para osteoporose iniciaram alguma medicação no primeiro ano após a fratura. Esse percentual subiu discretamente para 8,0% em dois anos e chegou a 9,8% em dez anos. Ou seja, mesmo após uma década, mais de 90% dos pacientes que sofreram uma fratura de fragilidade permanecem sem tratamento farmacológico. 

O estudo também revelou que os pacientes mais idosos, justamente aqueles com maior risco de novas fraturas, são os que menos recebem tratamento. Enquanto 9,7% dos pacientes na faixa dos 50 anos iniciaram medicação no primeiro ano, apenas 4,2% dos nonagenários o fizeram. 

Por que as taxas de tratamento são tão baixas? 

Os autores levantam algumas hipóteses. Há, sem dúvida, uma falha de comunicação entre o ortopedista, que trata a fratura, e o clínico ou geriatra, que poderia prescrever a medicação. Muitos pacientes não são informados de que a fratura é um marcador de osteoporose. Além disso, há receios, muitas vezes infundados ou baseados em informações distorcidas, sobre os efeitos colaterais dos bifosfonatos, como a osteonecrose de mandíbula e as fraturas atípicas de fêmur. 

Qual a mensagem prática? 

O estudo nos lembra de algo fundamental: o tratamento cirúrgico da fratura é apenas o primeiro passo. A prevenção de uma nova fratura é igualmente importante e depende do tratamento adequado da osteoporose subjacente. 

Os números são claros: tratar a osteoporose reduz o risco de uma segunda fratura de quadril em mais de 40% em dez anos. Ignorar essa oportunidade é, no mínimo, uma omissão com consequências potencialmente devastadoras para o paciente. Cabe a nós, ortopedistas, incorporar essa mensagem à nossa prática diária. Não basta fixar a fratura; é preciso tratar o osso frágil. 

Autoria

Foto de Rafael Erthal

Rafael Erthal

Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁  Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁  Especialista em cirurgia de joelho ⦁  Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

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