A síndrome das pernas inquietas (SPI) é uma condição frequentemente subdiagnosticada e raramente entra no radar do cirurgião de quadril no momento do planejamento pré-operatório. Caracterizada por uma compulsão em mover os membros inferiores, acompanhada de sensações desconfortáveis que pioram em repouso, a SPI afeta entre 5% e 15% da população adulta, com predomínio no sexo feminino. Mas o que isso tem a ver com o sucesso de uma artroplastia total de quadril?
Pesquisadores do Departamento de Cirurgia Ortopédica da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, fizeram um estudo inédito investigando o impacto da SPI nos desfechos da artroplastia total de quadril.

O estudo e seus resultados
Os resultados foram publicados na revista científica “The Journal of Arthroplasty” na edição de março de 2026, incluindo dados de mais de 120 milhões de pacientes da rede colaborativa TriNetX, identificando 3.204 indivíduos com diagnóstico de SPI submetidos à artroplastia entre 2009 e 2022. Esses pacientes foram pareados por escore de propensão com um grupo controle sem a síndrome, ajustando-se variáveis como idade, sexo, comorbidades e índice de massa corporal.
O que a síndrome das pernas inquietas mudou no pós-operatório?
Nos primeiros 90 dias de pós-operatório, os pacientes com SPI apresentaram um risco 64% maior de luxação das próteses em comparação com o grupo controle. Também foi observada uma maior procura ao departamento de emergência, possivelmente relacionada a esses episódios de instabilidade. Curiosamente, a taxa de readmissão hospitalar foi menor no grupo com SPI, um dado que os autores atribuem a um possível viés de maior acompanhamento ambulatorial ou otimização pré-operatória mais rigorosa nesses pacientes.
Em dois anos de seguimento, outras complicações se tornaram aparentes, o risco de soltura asséptica foi 37% maior no grupo SPI, e o de infecção periprotética, 42% maior. Embora as taxas de revisão por todas as causas não tenham sido diferentes entre os grupos, houve uma tendência a piores desfechos no grupo com SPI.
Por que a síndrome aumenta o risco de complicações?
A hipótese dos autores é multifatorial. No curto prazo, os movimentos involuntários característicos da SPI, que ocorrem tipicamente durante o repouso e o sono, podem levar à violação das precauções pós-operatórias, resultando em luxação.
Já no médio prazo, o impacto mecânico repetitivo, estima-se que pacientes com SPI possam apresentar centenas de movimentos periódicos das pernas por noite, pode gerar sobrecarga cumulativa na interface osso-implante. Esse estresse cíclico, ainda que de baixa intensidade, poderia acelerar o desgaste do polietileno e desencadear uma resposta inflamatória que culmina em soltura asséptica.
Outra possível razão pode ser a deficiência de ferro, frequentemente associada à SPI. O ferro é essencial para a síntese de colágeno e metabolismo da vitamina D, e sua deficiência pode predispor à osteoporose e prejudicar a osseointegração, além de aumentar o risco de infecção periprotética.
O que muda na prática clínica?
Esse estudo é o primeiro avaliar uma associação até então negligenciada. Para o ortopedista, a mensagem é clara: a síndrome das pernas inquietas deve ser investigada no pré-operatório, especialmente em pacientes com perfil de risco (mulheres, com comorbidades ou queixa de distúrbio do sono). Identificar a SPI oferece a oportunidade de intervir, seja com suplementação de ferro em casos de deficiência, seja com ajustes na abordagem cirúrgica e no planejamento da reabilitação.
A escolha de uma via de acesso que confira maior estabilidade primária, o uso de implantes com designs mais restritivos e um programa de reabilitação mais prolongado podem ser estratégias para reduzir os risos. Além disso, o acompanhamento multidisciplinar, com neurologista ou especialista do sono, pode fazer a diferença entre uma recuperação tranquila e uma complicação evitável.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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