As lesões multiligamentares do joelho podem ser definidas pela lesão de dois ou mais dos principais ligamentos do joelho, que constituem quatro grupos principais: ligamento cruzado anterior, ligamento cruzado posterior, complexo ligamentar medial e posterolateral.
Essas lesões impõem desafios não apenas técnicos ao cirurgião, mas também para os pacientes, pois apesar da complexidade das lesões, existem expectativas quanto ao retorno às atividades esportivas e de trabalho.
Um estudo recente ajuda a esclarecer o que podemos esperar dentro desse cenário, trazendo dados relevantes para a prática clínica.

Por que estudar retorno ao esporte e ao trabalho após lesões multiligamentares?
Apesar dos avanços nas técnicas cirúrgicas e nos protocolos de reabilitação, ainda existem lacunas importantes no conhecimento sobre desfechos funcionais após lesões multiligamentares do joelho, especialmente fora do contexto de atletas de elite.
A maior parte da literatura foca populações altamente selecionadas, o que limita a extrapolação destes parâmetros para pacientes que praticam esportes de modo recreacional e para a população geral. Assim, compreender taxas reais de retorno ao esporte e de retorno ao trabalho e como esses pacientes voltaram para essas atividades, é essencial para alinhar expectativas no pré-operatório e aconselhar estes pacientes sobre o que será esperado.
Onde, por quem e como o estudo foi realizado?
O estudo foi conduzido no Oslo University Hospital, um centro de trauma nível I na Noruega, em colaboração com o Oslo Sports Trauma Research Center e a Universidade de Oslo. A pesquisa também envolveu nomes de destaque na cirurgia do joelho, como Robert F. LaPrade e Lars Engebretsen.
Trata-se de um estudo de coorte transversal que incluiu pacientes submetidos a tratamento cirúrgico de lesões multiligamentares entre 2013 e 2020. Foram avaliados 124 pacientes, com idade média de 37 anos, e tempo médio de seguimento de aproximadamente seis anos. Os resultados foram publicados em 2025 na revista Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy.
Qual foi o principal objetivo do estudo?
O objetivo central foi avaliar as taxas de retorno ao esporte, retorno ao trabalho e os níveis atuais de atividade física após o tratamento cirúrgico das lesões multiligamentares do joelho. Adicionalmente, os autores buscaram analisar a qualidade de vida relacionada à saúde e comparar os desfechos entre pacientes com lesões envolvendo um único ligamento cruzado versus ambos os cruzados.
O que os resultados revelam sobre o retorno ao esporte?
Os dados mostram que 77% dos pacientes conseguiram retornar a algum nível de prática esportiva após a cirurgia. No entanto, apenas 37% retornaram ao mesmo nível esportivo pré-lesão, e entre aqueles que praticavam esportes de alto rendimento com movimentos de pivô, apenas 25% retomaram esse nível competitivo. Houve uma redução significativa no escore de atividade de Tegner, refletindo uma queda global no nível esportivo após a lesão, mesmo em pacientes submetidos a reconstruções anatômicas adequadas.
E quanto ao retorno ao trabalho e à qualidade de vida?
Em relação ao trabalho, 90% dos pacientes retornaram às suas atividades laborais. Ainda assim, cerca de 15% precisaram adaptar suas funções para tarefas menos exigentes ou evoluíram para incapacidade laboral. A boa notícia é que, apesar da redução nos níveis de atividade física e esportiva, a maioria dos pacientes relatou boa qualidade de vida, com escores elevados no questionário EQ-5D.
Pacientes com lesões envolvendo apenas um ligamento cruzado apresentaram melhores níveis de atividade e qualidade de vida quando comparados àqueles com lesões bicruzadas, reforçando o impacto da gravidade da lesão nos desfechos funcionais.
O que este estudo acrescenta à prática clínica?
Esse trabalho oferece uma visão realista e baseada em dados de longo prazo sobre o que pacientes e médicos podem esperar após uma lesão multiligamentar do joelho. Um grande número de pacientes com lesão multiligamentar não conseguiu retomar a prática esportiva, e só 37% dos casos voltaram no mesmo nível de antes da lesão.
Apesar da maioria ter voltado ao trabalho, 15% dos casos tiveram que sofrer readaptação em suas atividades ou tiveram que se afastar de modo definitivo. A qualidade de vida após o tratamento realizado em um grande centro especializado foi considerada boa apesar do impacto na vida esportiva e profissional dos pacientes estudados.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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